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Em meio à tensão no Irã, cabo de guerra entre Netanyahu e Trump tende a se acirrar

Para o primeiro-ministro de Israel, o conflito vai longe, mas falta combinar com o presidente americano

Por Caio Saad Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Amanda Péchy Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 mar 2026, 06h00 | Atualizado em 20 mar 2026, 11h06
Em meio à tensão no Irã, cabo de guerra entre Netanyahu e Trump tende a se acirrar Priorize VEJA no Google

Em segundo plano no noticiário, outra guerra se desenrola no Oriente Médio, com saldo de mais de 1 000 mortos e 1 milhão de pessoas desalojadas de casa — a nova incursão de Israel no Líbano para aniquilar (objetivo, como já se sabe, inalcançável) o Hezbollah, a mais forte milícia do “eixo da resistência” montado pelo Irã. Depois de ter sua liderança decapitada e seu poder de fogo reduzido ao longo de bombardeios, e da investida terrestre dos israelenses em paralelo com a guerra em Gaza, em 2024, o grupo havia refluído em seus ataques ao norte do país. Bastou, no entanto, a morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, no primeiro momento dos ataques simultâneos de Israel e Estados Unidos contra os persas, para o Hezbollah lançar seis foguetes e os mísseis voltarem a cruzar os céus do Líbano. Tudo isso sem abater em nada a fúria épica contra a nação dos aiatolás: na quarta-feira 18, bombas de precisão eliminaram mais três eminências do regime em Teerã, entre elas Ali Larijani, considerado o principal operador do regime islâmico e o real poder por trás da ascensão do novo líder do país, Mojtaba Khamenei.

Alimentar as duas frentes de batalha faz crescer o prestígio do primeiro-­ministro Benjamin Netanyahu, já que a população inteira de Israel gostaria de ver mortos e enterrados a milícia libanesa e o governo fundamentalista xiita, duas forças externas empenhadas em varrer o país do mapa. A escalada, portanto, é boa para Netanyahu — mas ruim para o parceiro de bombardeios, Donald Trump, que busca formas de sair de maneira honrosa de uma guerra cheia de complicações. O embate entre as duas vontades distintas tende a acirrar-se daqui para a frente.

DUAS AGENDAS - Trump e Netanyahu: o americano busca saída para o fim do conflito, enquanto o israelense prefere pôr lenha na fogueira
DUAS AGENDAS - Trump e Netanyahu: o americano busca saída para o fim do conflito, enquanto o israelense prefere pôr lenha na fogueira (Yuri Gripas/Abaca/Bloomberg/Getty Images; Raedle/Getty Images)

O retorno de Israel ao Líbano, mais de um ano depois de a situação acalmar, seguiu protocolos conhecidos. Centenas de milhares de carros ficaram presos por horas nas estradas, após alertas israelenses exigirem a evacuação de dezenas de vilarejos em áreas de maioria xiita, sobretudo ao longo da fronteira, e anunciarem o início de operações terrestres ao sul. As incursões foram criticadas por boa parte da comunidade internacional, incluindo a ONU, e o francês Emmanuel Macron, presidente da potência da qual o Líbano foi colônia, se pôs à frente de processos de negociação. As perspectivas não são animadoras. “Muito em breve, Dahieh vai se parecer com Khan Yunis”, alertou o provocador ministro ultradireitista das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, no início de março, referindo-se respectivamente a um reduto do Hezbollah no coração de Beirute e à cidade em Gaza que o Exército israelense arrasou.

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Quase 20% da população libanesa teve de se deslocar, e a economia, em tímida recuperação após a falência nacional, sofreu outro tombo: o Ministério do Comércio relata perdas diárias (altamente subestimadas) de cerca de 70 milhões de dólares. “Qualquer onda de ataques, com destruição em massa, prejudica seriamente as tentativas de reconstrução de uma economia abalada por uma crise descrita pelo Banco Mundial como uma das três mais graves do mundo desde meados do século XIX”, diz Wassim Aboultaif, cientista político da Universidade Saint-­Esprit de Kaslik, no Líbano.

NA MIRA - A Ilha de Kharg: o coração da operação de petróleo do Irã sob ameaça da entrada de tropas
NA MIRA - A Ilha de Kharg: o coração da operação de petróleo do Irã sob ameaça da entrada de tropas (European Space Agency-ESA/AFP)
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Enquanto Netanyahu colhe os louros por colocar em prática o que vem prometendo há décadas, Trump sofre pressão em múltiplas frentes para dar um basta à situação, diante da alta dos preços do petróleo que convulsiona o planeta e paira sobre a inflação americana em pleno ano eleitoral. “Ao contrário de Netanyahu, Trump tem pressa de resolver o conflito que pode lhe gerar problemas políticos”, afirma Luis Winter, professor de relações internacionais da PUCPR. Na mira da Justiça por acusações de corrupção, o primeiro-ministro israelense vinha empatado com seu principal rival, o centrista Naftali Bennett, nas pesquisas para as eleições previstas até outubro, sob críticas pelas falhas na segurança que levaram ao bárbaro massacre promovido pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. Um levantamento publicado em 4 de março pelo Israel Democracy Institute (IDI) fornece agora dados auspiciosos a Netanyahu: 82% da população israelense apoia a ação no Irã — quando o assunto é a guerra contra o Hezbollah, a aprovação ultrapassa os 90%.

Embalado por tão extenso apoio, o chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), Eyal Zamir, declarou que “a guerra contra o Hezbollah não é uma arena secundária e não será curta”. A estimativa é que os bombardeios no Oriente Médio se prolonguem por mais três semanas, no mínimo. O Líbano está farto de bombas, inclusive a população xiita que sustenta o Hezbollah, e o governo — entidade fraca que não tem a menor condição de forçar a milícia a nada — acenou até com a possibilidade de reconhecer Israel em troca de paz. Seria um tento diplomático para o Estado judaico e para Trump, que sonha em ver a iniciativa se espalhar pela região sob sua bênção. Netanyahu, no entanto, não se manifestou sobre o assunto, sinal de que os dois líderes não estão na mesma página.

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MAIS UM - Larijani: bomba israelense matou último remanescente da cúpula xiita
MAIS UM - Larijani: bomba israelense matou último remanescente da cúpula xiita (./AFP)

Sob bombardeio cerrado, a guerra iniciada no último dia de fevereiro vai se alastrando pelos reinos do Golfo Pérsico e prolongando o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo que abastece o mundo, hoje bloqueado por ordem da Guarda Revolucionária Iraniana. Complica qualquer tentativa de negociação o fato de quase toda a cúpula iraniana estar morta, inclusive Larijani, um radical que, no entanto, servia de elo de ligação entre moderados, clérigos e militares. Sucessores pinçados de escalões secundários replicam o discurso inflexível de vingança e resistência, sem nenhum sinal de rondar por ali um equivalente iraniano de Delcy Rodríguez, vice-presidente da Venezuela que Trump elevou à chefia do Estado, após a prisão de Nicolás Maduro. Assim, com tantas baixas provocadas por Israel, o desfecho do enrosco bélico fica mais complexo, o que não afina com a necessidade de Trump de conseguir se livrar do conflito o quanto antes.

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Ao mesmo tempo que Netanyahu promete lutar até a queda do último aiatolá, o americano dá declarações contraditórias sobre a duração dos combates, indo e voltando para tentar acalmar os mercados. Embora estejam distantes das bombas, os Estados Unidos viram o preço médio da gasolina subir 30% desde fevereiro, um dos fatores por trás da minguante aprovação popular aos ataques. A rejeição afeta as próprias hostes do MAGA, o ninho dos trumpistas raiz, como mostrou a recente renúncia do chefe do contraterrorismo interno, Joe Kent, um veterano com onze missões de combate no Afeganistão e no Iraque. Ultradireitista com diversas derrapadas no antissemitismo, Kent afirmou ao sair que Trump foi “enganado” por Israel, que o levou a acreditar que o Irã representava uma ameaça para os Estados Unidos. “Foi a mesma tática que os israelenses usaram para nos arrastar para a desastrosa guerra no Iraque”, escreveu na carta de demissão. O presidente, como de hábito, minimizou o baque: “É até bom que ele tenha saído”.

FOGO AMIGO - Kent: expoente do MAGA discorda da guerra e pediu demissão
FOGO AMIGO - Kent: expoente do MAGA discorda da guerra e pediu demissão (Tom Williams/CQ-Roll Call/Getty Images)
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Tanto a insatisfação popular quanto as brigas internas podem se intensificar caso a guerra se prolongue, envolva operações terrestres que aumentem as baixas entre soldados americanos — eram treze, até quinta-feira 19 — e mantenha ou até eleve a disparada nos preços do petróleo. Para se afastar do conflito antes que isso aconteça, Trump precisa exibir alguma vantagem. Depois de ordenar bombardeios à ilha iraniana de Kharg, que responde por cerca de 90% da exportação de petróleo bruto do país, despachou para lá 2 500 fuzileiros navais especializados em infiltração — o que pode forçar os aiatolás a negociar, mas também embute o alto risco de mais um choque no mercado de energia, mais morte de soldados e, pior, uma ocupação sem prazo para acabar. “Neste momento, Trump vai tentar cantar vitória a todo custo, mas nada indica que Israel está pronto para parar”, alerta Louise Kettle, especialista do think tank Rusi, em Londres. É ver quem vai puxar mais a corda, para que lado e por quanto tempo, neste infindável barril de pólvora geopolítico.

Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987

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