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Em mea-culpa a ‘coletes amarelos’, Macron dá aumento de salário mínimo

Presidente francês reconhece legitimidade de demandas dos manifestantes, mas recusa-se a tributar as grandes fortunas

Pressionado pela multidão vestida de colete amarelo, o presidente da França, Emmanuel Macron, pronunciou um discurso de mea-culpa e prometeu aumento do salário mínimo e de concessões tributárias, mas recusou a demanda das ruas de impor taxação aos mais ricos.

Em uma gravação de treze minutos, Macron demonstrou humildade, depois de ter se reunido com sindicatos de trabalhadores e patronais e com seu gabinete para discutir a crise. Não há sinais até o momento, porém, de que seu gesto será suficiente para aplacar o clamor da população.

Macron reconheceu a raiva e a indignação dos manifestantes como “pesada e, de muitas formas, legítima” e admitiu não ter sido capaz de oferecer soluções rápidas desde sua eleição. Mas argumentou que “demandas legítimas resultaram em uma onda inaceitável de violência”.

“Eu posso ter dado a impressão de que isso não era tema de minha preocupação, de que eu tinha outras prioridades. Eu assumo minha responsabilidade”, afirmou o presidente francês. “Sei que feri muitos de vocês com as minhas palavras.”

Desde o início do movimento, em 17 de novembro passado, as forças de segurança francesas detiveram 4.523 pessoas em todo o país. No último sábado, 1.723 pessoas foram presas na França, das quais 1.220 preventivamente. O Ministério do Interior francês calculou que 136.000 cidadãos foram às ruas em todo o país naquele dia.

A proposta de Macron para aplacar a fúria da população diz respeito a um aumento, a partir de 1º de janeiro, de 100 euros no valor atual do salário mínimo, de 1.498 euros brutos ao mês. O benefício não será coberto pelos patrões, mas pelo governo. Aposentados com renda inferior a 2.000 euros mensais estarão isentos de um recente aumento de imposto. A remuneração de hora extra passará a ser isenta de tributos a partir de 2019.

As manifestações dos coletes amarelos se arrastam há quatro semanas de forma violenta, especialmente em Paris, com cenas de vandalismo, agressões e barricadas. Na capital francesa, o número de manifestantes foi o mesmo do sábado anterior: 10.000 pessoas. O movimento começou como reação popular ao plano do governo de Macron de elevar os tributos sobre os combustíveis fósseis para estimular a transição do país para a energia limpa.

Nas ruas, porém, as demandas se avolumaram como um flagrante indicador do descontentamento da população com a orientação do programa de reformas centristas do governo de Macron. Outros temas foram lançados, na medida em que vários setores da sociedade se somaram aos protestos: o aumento do salário mínimo e das aposentadorias, a taxação das fortunas e até mesmo a renúncia do presidente.

O governo francês chegou a abandonar o aumento da tributação sobre combustíveis fósseis de forma definitiva. Mas não foi suficiente. Sindicatos dos caminhoneiros e de agricultores também se juntaram ao movimento, assim como estudantes do ensino médio e de universidades.

A brecha entre os franceses ricos e pobres aprofundou-se nas últimas décadas. Os coletes amarelos criticam a supressão do imposto sobre as fortunas, adotada por Macron quando chegou ao poder, há dezoito meses, uma medida considerada um “presente para os ricos”.

Desde sábado, após manifestações em todo o território francês, o primeiro-ministro, Edouard Philippe, tinha anunciado concessões para “restabelecer a unidade nacional”. Mas as expectativas dos manifestantes eram cada vez mais volumosas e não lhes basta que o governo tenha aberto mão de aumentar os impostos sobre os combustíveis, a reivindicação original desse movimento heterogêneo e sem liderança.