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Em eleição com 69% de abstenção, Maduro recupera controle do Parlamento

Votação já é questionada internacionalmente e acusada de fraudes pela oposição; Legislativo era o último reduto da oposição no país

Por Julia Braun Atualizado em 7 dez 2020, 08h55 - Publicado em 7 dez 2020, 08h41

Em uma votação marcada pelo boicote da oposição e uma elevada taxa de abstenção de 69%, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, recuperou neste domingo 6 o controle do Parlamento. A eleição já enfrenta forte rejeição internacional e acusações internas de fraude.

O Conselho Nacional Eleitoral (CNE), entidade acusada de alegada parcialidade com o governo de Maduro, anunciou na madrugada desta segunda-feira, 7, que o chavismo obteve 67,6% dos votos expressos, cerca de 3.558.320. O órgão ainda não divulgou quantas das 277 cadeiras em jogo ficarão nas mãos do chavismo.

A taxa de abstenção alcançou 69% em eleições nas quais poderiam votar mais de 20 dos 30 milhões de habitantes do país. Os principais partidos políticos de oposição, liderados por Juan Guaidó, chamaram as legislativas de “fraude” e pediram à população que ficasse em casa.

“Feliz madrugada da vitória”, celebrou Maduro. “Temos uma nova Assembleia Nacional, conseguimos uma tremenda e gigantesca vitória”.

Com a vitória, o chavismo recupera o controle da Assembleia Nacional cinco anos depois de perdê-lo em um votação histórica em 2015. Porém, apesar de a oposição ter mantido o controle da Casa pelos últimos anos, os poderes do Legislativo foram suspensos pela ditadura de Maduro e entregues a uma Constituinte há cerca de dois anos.

A abstenção de domingo foi a maior registrada em eleições legislativas desde 2004, quando apenas 25% dos eleitores compareceram às urnas. Na época, a oposição não participou da votação ao alegar que não havia condições para o pleito.

Muitos locais de votação permaneceram praticamente vazios ao longo do domingo. O uso de máscara foi obrigatório, com marcas no chão para manter o distanciamento físico pela pandemia de Covid-19.

“Tivemos paciência para nos livrarmos desta Assembleia Nacional nefasta (…) que trouxe a praga das sanções”, declarou Maduro ao votar na principal instalação militar de Caracas, o Forte Tiuna. Ele mudou o local de votação no último minuto.

Personalidades chavistas

Algumas das maiores personalidades do chavismo, como Diosdado Cabello, a primeira-dama Cilia Flores, María León, o apresentador de televisão Mario Silva e o ex-presidente do Parlamento Jesús Soto, conquistaram cargos na Câmara.

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Com esse panorama, o chavismo retoma o controle do Legislativo, órgão que serviu aos opositores para lançar sua ofensiva contra o governo de Nicolás Maduro, que governa o país sul-americano desde 2013. “Temos muitas razões para estar felizes”, disse Cabello, durante uma reunião do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), comemorando os resultados.

A vitória, ao mesmo tempo, acrescenta o Parlamento ao poder que o chavismo mantém na Venezuela: controla 19 dos 23 estados, comanda 305 das 335 prefeituras, tem 227 dos 251 deputados das assembleias legislativas regionais. Além disso, quase nove em cada 10 vereadores, que deliberam nos parlamentos municipais, respondem às diretrizes do chavismo.

Questionamentos internacionais

A eleição, contudo, foi imediatamente questionada internacionalmente e pela oposição. O governo colombiano reiterou que não reconhecerá o resultado da votação, que considera “fraudulentas” e promovidas por um “regime ilegítimo”.

O chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, chamou as eleições de “farsa” em uma mensagem no Twitter. Washington lidera a pressão contra Maduro com sanções econômicas contra a Venezuela, incluindo um embargo petroleiro em vigor desde abril de 2019.

“Falou um zumbi (…). Tomara que em breve a diplomacia volte ao Departamento de Estado e à Casa Branca”, reagiu o chanceler da Venezuela, Jorge Arreaza, em uma alusão à derrota eleitoral do republicano Donald Trump para o democrata Joe Biden.

Brasil, Canadá, Colômbia, Costa Rica e Panamá não reconheceram os resultados das eleições de domingo. A União Europeia não considerou a votação confiável. A Organização dos Estados Americanos (OEA) já havia expressado sua rejeição ao processo.

Internamente, Juan Guaidó reiterou que não reconhece as eleições, que qualificou como fraudulentas, e alertou que as divergências políticas entre o chavismo e a oposição vão se aprofundar após as eleições.

“A fraude foi consumada. A rejeição majoritária do povo da Venezuela é evidente (…). A maioria da Venezuela deu as costas a Maduro e sua fraude”, declarou Guaidó, em referência à abstenção, em um vídeo publicado nas redes sociais.

(Com EFE e AFP)

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