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Eleitores da extrema-direita serão decisivos no 2º turno

Nicolas Sarkozy e François Hollande já começaram a cortejar os eleitores que deram 20% dos votos à ultradireitista Marine Le Pen no pleito de domingo

“O Hollande está na frente nas pesquisas só porque é a oposição, e porque está prometendo coisas que agradam os eleitores, mas não resolvem os problemas econômicos.”

Estevão de Rezende Martins, professor de História da UnB

Após o impressionante desempenho da candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, no primeiro turno das eleições presidenciais francesas, no qual ela conquistou quase 18% dos votos, os eleitores de extrema-direita da França viraram moeda de ouro a ser conquistada para uma possível vitória no segundo turno, marcado para 6 de maio. Já nesta segunda-feira, eles foram cortejados pelos dois candidatos que restam na disputa, o socialista François Hollande, vencedor do primeiro turno com 28,6% dos votos, e o atual presidente Nicolas Sarkozy, que amargou um segundo lugar com 27,2% dos votos apurados. Foi a primeira vez em que um presidente perdeu o primeiro turno na França – e o melhor resultado da história da Frente Nacional.

“Há eleitores que escolheram esse voto por raiva. São esses que eu quero ouvir”, disse Hollande, que deve viajar para a Bretanha (oeste) ainda hoje. “Temos de convencer os franceses que expressaram essas mensagens”, defendeu, confiante de uma vitória no segundo turno.

Já Sarkozy aposta que o resultado de Marine, considerado ‘preocupante’ pela chanceler alemã Angela Merkel (forte aliada do presidente francês), é uma consequência da crise do euro. “Temos de respeitar o voto dos eleitores, nosso dever é ouvir. Existe este voto de crise que dobrou de uma eleição para outra, é para este voto de crise que devemos dar uma resposta”, disse Sarkozy, que deve ir a Tours (centro).

Conheça os dois concorrentes à Presidência francesa

“Para mim, uma família é composta por um pai e uma mãe, não dois pais ou duas mães”, afirmou Sarkozy

“Para mim, uma família é composta por um pai e uma mãe, não dois pais ou duas mães”, afirmou Sarkozy (/)

Nicolas Sarkozy

Desde que foi eleito, em 2007, o presidente lutou por uma série de reformas no país, mostrou-se um representante ativo da França no exterior e ainda teve gás para se divorciar e casar de novo – com a musa Carla Bruni -, o que lhe rendeu a fama de hiperativo. Além disso, ele é conhecido pelo glamour que ostenta como fã de relógios Rolex e pelas viagens que faz em iates de luxo.

François Hollande, candidato francês François Hollande, candidato francês

François Hollande, candidato francês (/)

François Hollande

O candidato socialista nunca conquistou um cargo no governo nacional, mas ocupa um lugar de liderança no partido desde 1997. Quem o conhece o descreve como um homem moderado e calmo, às vezes até entediante. Um apelo à sua campanha é o apoio do ex-presidente conservador Jacques Chirac.

Crise – De fato, a França não é exceção em um continente mergulhado em uma forte crise econômica – o país acumula uma dívida pública de 85% do valor do PIB, sendo que o valor máximo fixado pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) é de 60%. De modo geral, quando a crise aperta, quem carrega a cruz é quem está no poder, e a vantagem é da oposição, que acena com um “eu avisei”. Aconteceu na Espanha, Portugal, Irlanda e pode acontecer na França, se Sarkozy não conseguir os votos de Marine.

“A queda de popularidade é um fenômeno normal para quem está no governo porque, como você arca com as responsabilidades das decisões que toma ou não toma, há sempre um desgaste”, disse ao site de VEJA o professor de História da Universidade de Brasília (UnB), Estevão de Rezende Martins. Na verdade, com a chegada de 2012, a popularidade de Sarkozy ganhou impulso, e até um empurrãozinho da chanceler alemã Angela Merkel, que apoiou sua candidatura. Ele já esteve pior: em 2011, enfrentou um índice de quase 70% de rejeição.

Rivais – Sarkozy, contudo, vai precisar de mais do que o tapinha nas costas de Merkel para vencer. A sua estratégia é mostrar que as medidas de austeridade tomadas para salvar a França da crise funcionam a longo prazo, ao contrário das medidas fora da realidade de Hollande, que defende uma reforma tributária (com mais impostos para os mais ricos) e promete zerar o déficit fiscal até 2017. “O Hollande está na frente nas pesquisas só porque é a oposição, e porque está prometendo coisas que agradam os eleitores, mas não resolvem os problemas econômicos. Ele faz um agrado, passa um perfume, para depois dizer que não vai ter água para tomar banho”, afirma Martins.

A crise explica, em parte, o bom resultado de uma candidata enérgica e radical como Marine, bem como a birra que culminou com a vitória da oposição no primeiro turno. Diferentemente de Marine, Hollande é o oposto da convulsão política e econômica que vive a Europa, a ponto de receber apelidos como “Monsieur Normal” e “Flanby”, um flan, tradicional sobremesa fabricada pela Nestlé, eternizando-o como o candidato ‘mole e gelatinoso’.

Vitória prematura – Apesar dos resultados de domingo, Hollande tem de ficar atento ao costume dos socialistas franceses durante as eleições de julgarem vitória antes da hora. Isso aconteceu com o fundador do partido, François Mitterrand, o presidente que permaneceu por mais tempo no poder na França (14 anos), mais de uma vez. Além disso, o fato de o seu maior trunfo ser o candidato da oposição não ajuda as suas chances de vitória, diferentemente de Mitterand em sua época. “Dizem que o François Hollande é o picolé de xuxu da França, não tem gosto, cheiro, nem sabor e ainda tem uma corzinha verde de que alguma coisa está estragando. Ele não tem um entusiasmo que mobiliza a opinião”, explica Martins. Porém, Sarkozy também não é o que se poderia chamar de uma personalidade entusiasmante.

Blasés, os franceses bocejam diante de uma das eleições mais entediantes da 5ª República. É o candidato no poder com a popularidade despedaçada ao longo do mandato versus o candidato sem cheiro nem sabor da oposição, que só foi nomeado graças ao infortúnio alheio, o escândalo do ex-favorito à Presidência Dominique Strauss-Kahn, que chegou a ser preso sob acusação de abuso sexual e posteriormente libertado nos EUA. “São dois pangarés querendo saber qual deles aguenta mais tempo o trote”, compara Martins.