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Eleições presidenciais do Peru são marcadas pelo medo

População do país se vê diante de um dilema: apostar no amadurecimento político de um ex-comunista ou confiar nas promessas da filha de um ex-ditador?

“Os segundo-turnos peruanos costumam ser competitivos, mas esta eleição está especialmente polarizada pela resistência que provocam os candidatos”

Não importa qual for o resultado do segundo turno das eleições presidenciais, neste domingo, metade do Peru vai amanhecer o dia seguinte amedrontada. Nunca o país assistiu a um pleito tão polarizado, com as pesquisas apontando empate técnico entre os dois candidatos até os últimos minutos de campanha. De um lado está Ollanta Humala, de família comunista e antigo apadrinhado do venezuelano Hugo Chávez; do outro Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, atualmente preso sob a acusação de ordenar dois massacres contra civis.

“O segundo-turno no Peru costuma ser competitivo, mas esta eleição está especialmente polarizada pela resistência que os candidatos provocam”, explica Sinesio López, professor do mestrado de Ciências Políticas da Pontifícia Universidade Católica do Peru. “Humala alimenta medo com seu programa econômico, que assusta aos empresários. Keiko, por sua vez, reaviva os temores da volta da corrupção e das violações de Direitos Humanos que ocorreram durante o governo de seu pai”.

O medo foi a matéria-prima de toda a campanha eleitoral. Cada candidato se esforçou, à sua maneira, para alimentar receios quanto ao outro, enquanto os afastava de si mesmo. “Há 20 dias não vejo nenhum noticiário nacional porque está insuportável. Você sai nas ruas e é bombardeado. Até mesmo quando vai à Igreja alguma senhora grita: ‘Você não vai votar no Humala, né?’. Chegamos a uma campanha lamentável”, conta Henry Pease García, ex-presidente do Congresso peruano.

Humala – A célebre frase do Nobel de literatura Mario Vargas Llosa sobre o segundo turno ilustra bem o clima nacional : “O Peru está entre duas opções: o câncer e a aids”. Às vésperas do pleito, os intelectuais peruanos – incluindo o próprio Llosa, que mudou de ideia posteriormente – parecem contar com uma única esperança: a de que o “câncer Humala” esteja abrandado depois de uma intensa “quimioterapia política”. Nas eleições de 2006, o ex-militar foi castigado nas urnas por sua amizade com Chávez e desde então vem tentando se afastar, ao menos publicamente, do antigo aliado. Para conseguir alianças partidárias no segundo turno, também teve que moderar seu programa de governo e amaciar seu discurso. Chegou a assinar cinco documentos, a pedido de empresários, prometendo respeitar a Constituição e os negócios.

“Humala não era meu aluno de mais destaque, mas com certeza um dos mais sensatos. Creio que tenha amadurecido politicamente durante a disputa presidencial e vá aliviar, com a mesma sensatez, a desigualdade social no Peru”, argumenta Sinésio López, que foi professor do candidato na PUC. Como López, outros 40 intelectuais peruanos de peso declararam, na última terça-feira, seu apoio público ao candidato. “A eleição de Keiko Fujimori à presidência do Peru seria o pior resultado possível, pois significaria o mesmo que atribuir o poder novamente a seu pai”, disseram em um manifesto. Sindicatos e o pequeno empresariado também compartilham dessa opinião.

Keiko – No contrapeso está a maior parte da elite peruana, o grande empresariado do país, as alas conservadoras da Igreja Católica e a grande imprensa. Temerosos de que Humala implante um “chavismo peruano”, eles preferem arriscar-se com a filha do ex-ditador. Apesar do desastre que foi o governo de Alberto Fujimori (1990-2000) em temas como Direitos Humanos, esses setores reconhecem os benefícios da abertura que ele realizou na economia, e que vem sendo mantida nos últimos anos. Há uma década, o Peru vem crescendo acima da média latino-americana, com um PIB que engordou pelo menos 5% ao ano nos últimos cinco anos. Continua sendo um grande desafio do país, porém, diminuir as disparidades sociais.

Fujimori-pai também combateu o grupo terrorista Sendero Luminoso, que vinha aterrorizando o Peru desde a década de 60, conquista à qual Keiko recorre em seus discursos sobre segurança, prometendo dar continuidade a esse trabalho. Apesar de Alberto Fujimori cumprir pena pelo massacre de 25 pessoas acusadas de pertencer à guerrilha, durante seu governo, seu trabalho na luta contra o grupo é, em geral, bem visto pela sociedade peruana.

Para espantar os fantasmas da ditadura, Keiko prometeu que não indultará nem libertará o pai – poder que teria como presidente peruana – e chegou a admitir, em entrevista a VEJA: “Meu pai cometeu erros políticos, um deles foi concorrer à terceira eleição seguida”. A candidata apela ainda ao sentimento de gratidão que as políticas populistas de Alberto Fujimori deixaram nas camadas sociais mais pobres e promete novas medidas de combate à pobreza, em sua maioria clientelistas.

Partidos – Além da falta de uma boa opção, também restam poucas garantias aos eleitores, já que não há partidos fortes que uniformizem as políticas de seus candidatos. “Nos últimos anos, os grandes partidos peruanos se enfraqueceram ou desapareceram e houve uma intensa personalização da política. De modo que o possível governo de um candidato se torna, de certa maneira, pouco previsível”, explica Lopéz. Portanto, o Peru se vê agora diante de uma difícil decisão: apostar no amadurecimento político de um ex-comunista ou confiar nas promessas da filha de um ex-ditador.

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