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Eleição nos EUA: Elizabeth Warren avança na briga pela vaga democrata

Com ideias como quebrar monopólios e taxar fortunas, senadora ganha fôlego para conseguir a indicação do partido e duelar com Trump pela Presidência

Em 2016, o Partido Democrata fez história ao consagrar, em convenção na Filadélfia, Hillary Clinton como a primeira mulher candidata à Presidência dos Estados Unidos. Quatro anos depois, outra mulher está na fila, e bem posicionada, para disputar a mesma vaga: a senadora Elizabeth Warren passou o favorito Joe Biden, ex-vice de Barack Obama, em doações para a campanha e já aparece em algumas pesquisas na frente não só dele como do outro pré-candidato bem colocado, Bernie Sanders. Para chegar à gélida Milwaukee em julho de 2020 com a indicação no bolso, Warren precisa vencer duas barreiras relevantes: a maldição Hillary, que afinal de contas perdeu para Donald Trump (o mesmo adversário de agora), e o rótulo de esquerdista, uma palavra tão horripilante em um dos berços da Guerra Fria que nem sequer é pronunciada — é preferível chamá-la de progressista, ou liberal. A seu favor, ela tem certezas tão sólidas e bem fundamentadas que, nos comícios e debates, consegue balançar diferentes plateias.

A pedra fundamental de sua campanha é o combate à corrupção e à desigualdade de renda. “A corrupção manipulou nossa economia em favor de bilionários e corporações gigantes, piorou a crise climática que coloca nosso planeta em risco e quebrou nossa democracia”, disse Warren a VEJA por e-mail. “Minha campanha busca combater a corrupção e fazer com que o governo trabalhe para os trabalhadores”

Uma de suas propostas é estabelecer um imposto de 2% sobre ativos acima de 50 milhões de dólares e taxas mais dolorosas ainda sobre a renda de bilionários. Outra é quebrar o que chama — em tom de puro veneno — de monopólio dos gigantes de tecnologia, leia-­se Amazon, Google, Apple e Facebook. Com os recursos arrecadados, promete dar creche gratuita a todas as crianças, quitar as dívidas com empréstimos estudantis e promover a cobertura integral na saúde pública, esse um dos temas que mais põem lenha na fogueira americana. Aqui, tudo isso comporia um pacote populista de bondades. Lá, soa como um pacote populista vermelho. Mas, aos poucos, Warren vai quebrando resistências na classe média, espremida por hipotecas. Repete que não tem a menor intenção de abalar a economia ou desestabilizar Wall Street. “Sou capitalista até os ossos”, garante.

A briga com o Vale do Silício — reduto democrata por definição — ganhou mais estridência com o vazamento de diálogos de Mark Zuckerberg, o dono do Facebook, em que ele se refere a Warren e suas ameaças como “um pé no saco” e promete “ir para o tatame lutar”. A senadora, mais que depressa, foi ao concorrente Twitter rebater que “pé no saco é não consertar um sistema corrupto que permite que empresas gigantes, como o Facebook, usem práticas ilegais anticompetição, pisem no direito dos consumidores à privacidade e brinquem com sua responsabilidade de proteger nossa democracia”. Retórica tipicamente Warren.

NO ENROSCO – Biden, ex-vice de Obama: o Ucraniagate atrapalha

NO ENROSCO – Biden, ex-vice de Obama: o Ucraniagate atrapalha (Rick Loomis/Getty Images/AFP)

Aos 70 anos, advogada renomada, a ex-professora de Harvard que vive de roupas escuras com blazer colorido por cima, usa óculos sem armação e corre 10 quilômetros na esteira quando dá, leva vantagem na idade sobre seus principais contendores: Biden tem 76 anos e Sanders, 78. Trump, o inimigo, fez 73 em junho. Como muitas mulheres de sua geração, abandonou a faculdade para se casar e seguir para o Texas com o primeiro marido, um engenheiro em ascensão de quem manteve o sobrenome ao se separar, com os dois filhos ainda pequenos. Voltou a estudar, formou-se em direito e começou a fazer pesquisas. A certa altura, resolveu mergulhar no mundo das falências de pessoas físicas, comum nos Estados Unidos. Entrou pensando que eram espertinhos tirando vantagem do sistema e saiu convertida à causa que fundamentou sua carreira: buscar soluções para o que vê como a fragilidade da classe média americana. “A tensão mais constante em uma democracia é dos que têm dinheiro tentando manipular o governo a seu favor”, já declarou. Liberal como ela só.

Política novata, eleita pela primeira vez em 2012 (aos 63 anos, direto para o Senado), Warren já era uma voz poderosa na disputa presidencial de 2016, em que todo mundo queria seu apoio. Crítica de Donald Trump de primeira hora, comprou com ele uma briga desgastante quando o presidente lhe deu o apelido de Pocahontas, fazendo piada com o fato de a loira de olhos azuis ter declarado possuir antepassados indígenas. Ele a desafiou a fazer teste de DNA; Warren fez e constatou-se uma remotíssima ligação, que ela tentou brandir como vitória. Só conseguiu mesmo dar mais munição a Trump e desagradar às nações nativas. Desculpou-se e até hoje tenta pôr uma pedra no caso. No decorrer da campanha, tem se concentrado em apresentar propostas — e haja propostas: são mais de cinquenta até agora, todas destrinchadas no detalhe, como é de seu feitio. Tanto repete suas soluções para tudo que é problema que até camisetas de campanha adotaram o lema “Warren tem um plano para isso”.

Faltando ainda um ano para a eleição e oito meses para a convenção democrata, Warren vê a indicação, mais do que nunca, a seu alcance. Biden, o favorito dos democratas de raiz, está enredado no Ucraniagate, escândalo que levou ao pedido de impeachment de Trump, e dá repetidos sinais de que sente o peso da idade. Sanders, amigo pessoal da senadora e pioneiro na infiltração das ideias de esquerda no universo democrata, é mais velho ainda e recentemente sofreu um ataque cardíaco que o obrigou a interromper a campanha por alguns dias. “Warren tem grande apelo entre os eleitores mais informados e com mais estudo. A retórica populista também ajuda a conquistar setores da classe média”, diz o cientista político David Karol, da Universidade de Maryland. Antes da indicação, porém, ainda precisa superar o fogo amigo — no Partido Democrata há mais de uma dezena de aspirantes à candidatura. E, depois, tem de ganhar de Trump. De selfie em selfie — ela nunca deixa apoiador de celular abanando —, Warren costura seu caminho na esperança de chegar lá.

Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2019, edição nº 2659