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Economia venezuelana levará gerações para se reerguer, dizem especialistas

Atual crise foi criada por combinação desastrosa de autoritarismo, irresponsabilidade fiscal, corrupção e desmantelamento da indústria do petróleo

Por Julia Braun Atualizado em 24 nov 2021, 13h45 - Publicado em 30 out 2021, 10h00

Há cinco anos vivendo um ciclo de hiperinflação, a Venezuela deve fechar o ano de 2021 com uma taxa acumulada de 2.700%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Apesar de ainda colocar o país no topo da lista mundial de maiores inflações, a previsão representa uma pequena melhora na situação econômica da nação que vive um declínio dramático há mais de uma década. Ainda assim, é consenso entre os especialistas que os estragos causados pelo governo chavista devem alongar o cenário de pobreza, fome e escassez por pelo menos mais alguns anos.

Para Patrick Duddy, ex-embaixador dos Estados Unidos na Venezuela entre 2007 e 2010, a total recuperação da economia venezuelana pode levar toda uma geração. “A indústria do petróleo foi reduzida a um nível de insignificância internacional e muitas das demais indústrias não são mais competitivas”, diz o professor da Universidade Duke. 

Uma melhora na economia em 2022 também não será suficiente para mudar a situação da população. “O fim do ciclo de hiperinflação não vai aliviar imediatamente a situação de pobreza das pessoas ou reviver as indústrias que entraram em colapso”, diz Duddy. 

Conforme mostrou a reportagem especial de VEJA, quase toda a população da Venezuela é pobre. Segundo a Pesquisa Nacional de Condições de Vida, coordenada pela Universidade Católica Andrés Bello (UCAB) em parceria com outras duas conceituadas instituições de ensino superior do país, 94,5% da população venezuelana vive na pobreza, com menos de 3,2 dólares por dia. Além disso, 76,6% estão abaixo da linha da miséria e se sustentam com menos de 1,2 dólar por dia.

Em nenhum lugar do planeta a fatia dos pobres é tão vasta segundo os últimos números disponibilizados pelo Banco Mundial. Nem mesmo em nações africanas onde a escassez historicamente maltrata os indivíduos, como Madagascar e o Sudão do Sul, a situação chegou ao nível de gravidade de nosso vizinho sul-americano. 

Diante da total degradação das condições de vida, o presidente Nicolás Maduro adotou no final de 2018 uma série de medidas econômicas um pouco mais pragmáticas e liberais para evitar que o clima social se deteriorasse ainda mais e isso pudesse colocar seu poder em perigo. Entre as principais medidas que fazem parte do programa iniciado no final de 2018 estão o relaxamento das políticas de controle de câmbio e a concessão de uma certa liberdade ao setor privado para definição dos preços, a dolarização e a permissão para a entrada de produtos importados.

“As mudanças econômicas realizadas desde 2018 são uma forma de tentar assegurar a  manutenção de Maduro no poder”, diz o presidente da consultoria Ecoanalítica, Asdrúbal Oliveros. O economista explica ainda que o governo tentou colocar em prática uma redução de gastos, que não é extensa e tampouco suficiente para reparar os danos da gastança descontrolada que acontecia até então. 

A liberalização para o setor privado foi positiva, pois combateu a escassez de alimentos e produtos básicos que acometeu o país entre 2013 e 2017. Por outro lado, ajudou a ampliar a desigualdade, pois só aqueles que ganham em dólares ou tem um ingresso significativo podem ir aos estabelecimentos comerciais adquirir produtos cujos preços podem ser mais caros do que os encontrados em outros países da América do Sul. 

As medidas também impulsionaram uma diminuição da inflação – há três anos, o valor estimado da inflaçlão acumulada chegou a 500.000% – e a criação de um pequeno setor privado investido na importação. “É provável que a Venezuela saia do ciclo de hiperinflação no próximo ano, mas ainda assim seguiremos com a inflação mais alta do mundo e com uma situação econômica gravíssima”, diz Oliveros. 

Ainda assim, os economistas não são otimistas ao avaliar o fim da atual crise venezuelana, que vem sendo gestada pelo governo há anos. O cenário atual foi criado por uma combinação explosiva de autoritarismo, irresponsabilidade fiscal, corrupção, ambiente de incertezas institucionais, opções econômicas equivocadas e o desmantelamento da indústria do petróleo. 

“Na Venezuela hoje vemos as consequências da ideologia macroeconômica fracassada e irrealista, da corrupção generalizada e de um governo autoritário e incompetente”, diz Patrick Duddy. “Toda a região está pagando o preço pelo fracasso do socialismo do século XXI”. 

Modelo falido

Apontado por especialistas como o motor principal do desastre, o modelo econômico concentrado exclusivamente no extrativismo privou a indústria local e o setor agropecuário de investimentos, tornando o país dependente de importações de produtos básicos. Com a desvalorização do petróleo nos mercados internacionais a partir 2014, a economia perdeu sua única forma de sustento e o país entrou em colapso. 

Durante seu governo, Hugo Chávez (1999-2013) impulsionou um modelo bolivariano de controle da economia que fez com que o investimento privado desaparecesse e muitas empresas fossem expropriadas e estatizadas. A queda na produção, o gasto público descontrolado e o acúmulo de uma dívida externa que já passa dos 140 bilhões de dólares tornaram a equação impossível. “Nos tornamos um país extremamente endividado, mas sem capacidade alguma para crescer porque o investimento privado colapsou totalmente com o avanço do Estado empresário que centraliza absolutamente tudo”, avalia o economista Leonardo Vera. 

Em 2013, Nicolás Maduro implementou um duríssimo controle de câmbios que proibiu a compra de moeda estrangeira pela população e pelo setor empresarial para a importação. Porém, com a queda no preço do petróleo, já não se geravam mais divisas internamente e as empresas foram obrigadas a parar de importar matéria prima e produzir. A consequência imediata foi a queda ampla do PIB e escassez de produtos básicos e alimentos. 

“Com ingressos externos menores, o governo decidiu aumentar o financiamento monetário do déficit, o que terminou por desatar uma hiperinflação em novembro de 2017”, explica Pilar Navarro, economista e analista para a América Latina da Medley Advisors. 

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Corrupção e sucateamento

Hoje, mais de 20 anos depois do início do governo Chávez, a grande maioria das empresas estatizadas se encontra totalmente sucateada e improdutiva. A PDVSA, a petrolífera estatal que produzia nos anos 2000 mais de 3 milhões de barris por dia, entrou em uma era de corrupção sem fim, com recursos sendo utilizados sem critérios técnicos. Atualmente a produção da multinacional é de pouco mais de 500.000 barris diários, de acordo com os números oficiais.

Mesmo sentada sobre a maior reserva de petróleo do mundo, a Venezuela ainda é obrigada a importar gasolina. A incompetência reflete nas ruas, onde as pessoas fazem filas de quilômetros para encher o tanque, já que o estoque de gasolina encolheu e o governo não subsidia mais combustível em todos os postos. Nos demais, o tanque cheio custa ao redor de 30 dólares, doze vezes o salário mínimo.

O Estado grande e a corrupção desenfreada dentro da máquina pública também não colaboraram para a situação econômica do país. Segundo a Transparência Internacional, a Venezuela é o país mais corrupto da América Latina. Em 2019, um cálculo feito pela parcela ainda independente do Legislativo estimou que o dano patrimonial gerado pela corrupção em 19 anos de bolivarianismo já é de 450 bilhões de dólares.

Segundo especialistas, o governo também ignorou por anos os indicadores preocupantes de uma economia cada vez menos produtiva, uma inflação cada vez maior e uma população pobre. “Assim como uma doença do corpo, a situação econômica venezuelana só piorou à medida em que foi ignorada pelo governo”, diz Asdrúbal Oliveros.

Autoritarismo e instabilidade

Diferente de outros colapsos institucionais observados na América Latina durante a Guerra Fria, a transição da Venezuela para uma ditadura não aconteceu de um dia para o outro ou com um golpe militar. Ao assumir o poder em 1999, Hugo Chávez iniciou um projeto de governo que foi responsável por criar instabilidades, recessos e rupturas institucionais ao longo dos anos e que, por fim, terminou por tornar sua administração extremamente autoritária.

Para o cientista político Javier Corrales, a ruptura democrática implantada por Chávez ao longo dos anos demorou a ser vista como tal pela maior parte da população, apesar dos esforços da oposição e de uma pequena parcela dos venezuelanos para impedi-lo. “Com seu discurso populista forte de esquerda, Chávez conseguiu convencer uma maioria de que para engrandecer a democracia venezuelana ele precisava de mais poder”, diz o autor do livro “Dragão dos trópicos: Venezuela e o legado de Hugo Chávez”. “Uma grande parte da população acreditava firmemente que seu governo estava comprometido com uma causa maior”.

Após a morte de Chávez, Nicolás Maduro assumiu em 2013 e intensificou ainda mais o modelo autoritário. Nos últimos oito anos seu governo corroeu ainda mais as instituições e dominou os três poderes. O presidente também agiu para calar a oposição prendendo seus líderes e cultiva polícias e milícias que agem com brutalidade e falseiam o jogo eleitoral.

“Com a erosão do apoio popular ao socialismo do século 20, o governo tentou por diversas vezes mudar as regras do jogo eleitoral e jurídico para se manter no poder”, diz o ex- embaixador Patrick Duddy.

Nos últimos anos, a instabilidade política agravou ainda mais a crise econômica, com a perda de legitimidade do governo Maduro e a imposição de sanções internacionais pelos Estados Unidos. “As sanções têm, de fato, impacto na crise, mas não são a razão principal para o colapso. A economia já estava em frangalhos muito antes de qualquer ação dos Estados Unidos”, diz o economista Asdrúbal Oliveros.

Ainda assim, Maduro segue aferrado ao cargo com o apoio geopolítico da Rússia e da China e mantendo relação umbilical com os militares, enfronhados em todas as instâncias. A fragmentação da oposição ao longo dos últimos anos também ajuda a explicar como o presidente consegue se manter no poder apesar da trágica situação econômica.

“A oposição venezuelana tem pouca credibilidade perante a maior parte da população venezuelana e adota apenas um comportamento reativo frente a medidas e provocações do governo Maduro”, opina o cientista político e professor da Universidade Simón Bolívar (USB), Omar Noria.

A mais bem-sucedida tentativa de ascensão recente realizada pela oposição foi a encabeçada por Juan Guaidó, ex-deputado que se autoproclamou presidente interino da Venezuela em janeiro de 2019 e atraiu grande apoio internacional, sendo reconhecido por mais de 50 nações ao redor do globo. Sua liderança, porém, desidratou ao longo dos últimos meses e em dezembro passado ele perdeu seu assento na Assembleia Legislativa, bem como o alicerce constitucional da sua Presidência interina.

“A qualidade de uma democracia se mede pela qualidade de sua liderança e na Venezuela a liderança política é órfã de capital não só no governo, mas também na oposição”, diz José Antonio Rivas.

Mais recentemente, a oposição se envolveu em um esforço de negociação com o governo Maduro para chegar a um acordo sobre as eleições municipais marcadas para novembro. Representantes dos dois lados do conflito se encontraram na Cidade do México para três sessões de discussão desde 13 de agosto, mas o processo foi interrompido pelo regime após a extradição aos Estados Unidos do empresário Alex Saab, suposto testa de ferro de Nicolás Maduro.

Saab, que foi detido em 12 de junho do ano passado em Cabo Verde em um caso de lavagem de dinheiro, havia sido nomeado membro da equipe de negociação do governo venezuelano, que também o considera diplomata. “O governo venezuelano ficou feliz em encontrar uma desculpa para abandonar as negociações, porque sabia que em algum momento seria obrigado a fazer concessões”, diz Javier Corrales.

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