Clique e assine a partir de 8,90/mês

Economia da Índia será uma das mais afetadas pela Covid-19 no mundo

Lockdown severo paralisou economia sem controlar coronavírus. Agora, país registra mais de 80.000 casos diários e pode ter 200 milhões de novos pobres

Por Amanda Péchy - 17 set 2020, 17h15

A Índia estava em ascendência. Durante anos, o país manteve-se entre as três ou quatro economias que mais cresciam no mundo, segundo levantamento da revista The Economist, tirando milhões de indianos da pobreza, construindo megacidades modernas e acumulando cacife geopolítico. Especialistas esperavam que, um dia, pudesse rivalizar com a China, a maior história de sucesso da Ásia.

Contudo, seu futuro brilhante corre perigo. A The Economist agora estima que, da poli-position anterior, a Índia caiu para 35º lugar entre as 42 nações que mais crescem em 2020, encolhendo-se mais rapidamente do que a de qualquer outra grande economia. Devido à crise causada pelo coronavírus, cerca de 200 milhões de pessoas podem entrar na pobreza, segundo o jornal americano The New York Times.

O crescimento econômico indiano já estava desacelerando antes da pandemia. A taxa de crescimento passou de 8% em 2016 para 4% em 2019, mas, a situação foi agravada pelo lockdown imposto pelo primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, à população de 1,3 bilhão de pessoas. Sem eficácia sanitária, a medida tanto machucou a economia quanto espalhou o vírus. Agora, a Índia é o país onde a Covid-19 se espalha mais rápido, com mais de 80.000 novas infecções registradas todos os dias.

No fim de março, Modi paralisou escritórios, fábricas, estradas, trens, fronteiras entre estados com um aviso de apenas quatro horas de antecedência. Dezenas de milhões de indianos perderam seus empregos instantaneamente, a maioria migrantes da Índia rural. A consequência foi um movimento migratório reverso em massa de volta para suas aldeias, com medo de passar fome. Cerca de 5% da população se espalhou por todo o país, aumentando a propagação do vírus.

O país ainda tem pontos fortes, como uma grande reserva de mão de obra jovem e especialistas em tecnologia. Além disso, em um momento em que os Estados Unidos e grande parte do resto do mundo estão se realinhando contra a China, representa uma possível alternativa. Mas, só no último trimestre, a economia indiana encolheu 24%, enquanto a Pequim voltou a crescer. A Índia corre o risco de deixar de ser a quinta maior economia do mundo, atrás dos Estados Unidos, China, Japão e Alemanha, porque a falta de mercado afasta investidores – além das pesadas políticas fundiárias, as restritivas leis trabalhistas e a burocracia.

O medo de contrair o vírus é um fator decisivo na crise econômica, já que sair para fazer compras tornou-se um risco maior do que indianos estão preparados para tomar. De acordo com um Relatório de Mobilidade do Google, que rastreia dados de telefones celulares, o movimento em áreas de varejo e recreação caíram 39% em comparação com antes da pandemia. No Brasil e nos Estados Unidos, os outros países no topo do ranking de infecções por coronavírus, a queda foi menos da metade da indiana.

O governo chegou a oferecer auxílio emergencial – um pacote de 260 bilhões de dólares que economistas criticam por não ter sido direcionado corretamente aos pobres. A arrecadação despencou e a dívida do governo está tornando-se a mais alta dos últimos 40 anos.

Mesmo assim, a popularidade de Modi continua crescendo. O premiê foi eleito em 2014, alavancado pelo nacionalismo hindu, e concentrou-se em projetos ideológicos, como aplicar uma nova lei de cidadania que discrimina muçulmanos ou apertar o cerco sobre a região muçulmana da Caxemira. A estratégia rendeu: uma pesquisa publicada na revista India Today indica que seu índice de aprovação é de 78%, o maior em cinco anos. Cerca de quatro quintos da população é hindu, favorecendo o nacionalismo. Além disso, a oposição está enfraquecida, marcada por deserções e falta de liderança.

Durante mais de 70 anos, a Índia progrediu na construção de uma sociedade que se esforçou para ser secular, democrática e ter liberdade de expressão, permitindo o florescimento da ciência. O país se destacou entre os muitos países que romperam com o jugo colonial em meados do século 20. Agora, o futuro é sombrio. A Unidade de Inteligência da revista The Economist prevê que sua economia deve encolher ao menos 8,5% no ano que vem, enquanto o Banco do Estado da Índia projeta o dobro do prejuízo: 16,5%.

Continua após a publicidade
Publicidade