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‘Dia da Ira’ termina com dezenas de mortos no Egito

Fontes oficiais confirmaram mais de 80 mortes nos protestos que encerraram a semana mais sangrenta no país desde a queda de Hosni Mubarak, em 2011

A sexta-feira chamada de ‘Dia da Ira’ terminou com novos confrontos sangrentos no Egito. O número de vítimas diverge de acordo com a fonte, mas sempre chega às dezenas. De acordo com fontes do governo, foram mais de oitenta mortos no país. A agência Reuters e a rede Al Jazeera falam em mais de cem mortos nos conflitos entre apoiadores do presidente deposto Mohamed Mursi e forças de segurança. Seja como for, depois do massacre de mais de 600 apoiadores da Irmandade Muçulmana na quarta-feira e dos confrontos de hoje, a semana termina como a mais violenta desde a revolta de 2011 que acabou com três décadas de ditadura de Hosni Mubarak. E, em um sinal de que as tensões devem continuar, a Irmandade convocou protestos diários para a semana que vem.

Entenda o caso

  1. • Na onda das revoltas árabes, egípcios iniciaram, em janeiro de 2011, uma série de protestos exigindo a saída do ditador Hosni Mubarak, há trinta anos no poder. Ele renunciou no dia 11 de fevereiro.
  2. • Durante as manifestações, mais de 800 rebeldes morreram em confronto com as forças de segurança de Mubarak, que foi condenado à prisão perpétua acusado de ordenar os assassinatos.
  3. • Uma Junta Militar assumiu o poder logo após a queda do ditador e até a posse de Mohamed Mursi, eleito em junho de 2012.
  4. • Membro da organização radical islâmica Irmandade Muçulmana, Mursi ampliou os próprios poderes e acelerou a aprovação de uma Constituição de viés autoritário.
  5. • Opositores foram às ruas protestar contra o governo e pedir a renúncia de Mursi, que não conseguiu trazer estabilidade ao país nem resolver a grave crise econômica.
  6. • O Exército derrubou o presidente no dia 3 de julho, e anunciou a formação de um governo de transição, que não foi aceito pelos membros da Irmandade Muçulmana.

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Mesmo com o Egito em estado de emergência e um toque de recolher em vigor, milhares de partidários de Mursi foram às ruas nesta sexta e protestaram diante de forças de segurança autorizadas a reprimir a manifestação com armas de fogo. A Irmandade Muçulmana disse que os atos terminariam com o pôr do sol, mas houve relatos de distúrbios já à noite no Cairo, onde o número de mortos teria chegado a cinquenta. Também houve vítimas em confrontos na segunda maior cidade do país, Alexandria, em Suez, em Damietta e Fayoum. A televisão estatal do país noticiou a prisão de mais de mil membros da Irmandade Muçulmana.

Cerco – Já no início da madrugada de sábado, a polícia egípcia cercou a mesquita de Al-Fath, no Cairo, que estava sendo utilizada pelos militantes islâmicos como abrigo para os manifestantes feridos. De acordo com a CNN, cerca de mil pessoas, entre elas mulheres e crianças, estariam sitiadas pelas forças de segurança, com medo de deixar o local.

Os distúrbios também atingiram a minoria cristã no país. Na sexta, militantes islâmicos voltaram a incendiar templos da Igreja Copta, acusada por eles de apoiar o golpe militar. O líder da Igreja na Grã Bretanha, bispo Angaelos, calcula que 52 igrejas foram atacadas só nos últimos dias — além de inúmeras residências, escolas e comércios ligados à religião.

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Novos protestos – A Irmandade Muçulmana, grupo radical islâmico que levou Mursi ao poder, em junho do ano passado, convocou uma semana de protestos diários “até que o golpe termine”. Os membros da Irmandade não aceitaram o governo interino formado com o apoio do Exército depois da deposição de Mursi, no dia 3 de julho. Grupos islâmicos na Tunísia, no Paquistão e na Turquia também organizam protestos contra a morte de manifestantes. A Turquia convocou seu embaixador no Egito. Na Arábia Saudita, o rei Abdullah fez um pronunciamento na TV pedindo apoio ao que descreveu como luta do Egito contra o “terrorismo”, e repreendeu o Ocidente pelas críticas. A Arábia Saudita foi o primeiro país a saudar o golpe militar no Egito.

Para “manifestar consternação com a grave situação no país”, o Itamaraty chamou nesta sexta-feira o embaixador do Egito, Hossameldin Mohamed Ibrahim Zaki. “O governo brasileiro recordou ao embaixador o entendimento de que a responsabilidade pela proteção de civis e pela interrupção da violência recai sobre o governo interino egípcio”, diz comunicado divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores.

União Europeia – A chefe da diplomacia da UE, Catherine Ashton, considerou o crescente número de mortos “chocante”. “A responsabilidade por esta tragédia pesa sobre o governo interino, assim como sobre as lideranças políticas no país”, disse, segundo a rede americana CNN.

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A chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês François Hollande fizeram um pedido por uma reunião de ministros das Relações Exteriores da União Europeia para coordenar uma resposta à crise no Egito. O encontro está previsto para ocorrer na segunda-feira, em Bruxelas, e já há pedidos para que a ajuda financeira ao Egito seja congelada.

Em novembro do ano passado, um pacote de 5 bilhões de euros (quase 16 bilhões de reais) em auxílio ao governo egípcio foi aprovado – desse total, 1 bilhão era a parcela da UE, o restante viria de empréstimos do Fundo Monetário Internacional e outras instituições globais. No entanto, o Egito não cumpriu as condições para receber o dinheiro e a maior parte do montante está congelada, informou a rede britânica BBC. Nos últimos três anos, o bloco enviou cerca de 450 milhões de euros ao Egito, mas não diretamente para o governo e sim para projetos sanitários, de abastecimento e transporte.