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Dez anos da era Kirchner: a chance perdida

Algumas contribuições dos primeiros anos do mandato de Néstor (2003-2007) se transformaram em um imenso empecilho para o desenvolvimento do país

Por Cecília Araújo 25 Maio 2013, 20h08

Há dez anos tinha início na Argentina um período marcado pelo desperdício da chance de tirar do atraso um país que já foi o mais rico da América do Sul. Primeiro com Néstor Kirchner, que tomou posse no dia 25 de maio de 2003, e agora com sua viúva, Cristina, o governo argentino tomou uma série de medidas equivocadas. Como o casal conseguiu permanecer tanto tempo no poder? Beneficiado, no início, pelo cenário político instável, que deu espaço para o então desconhecido Néstor se firmar como liderança. E, na sequência, pelas condições vantajosas da economia, com os preços internacionais das commodities em alta.

O caso argentino não existiu isoladamente. Em 85% da América Latina – porcentagem medida por população e PIB -, o mesmo partido, e por vezes a mesma pessoa, governou de forma contínua um país ao longo de uma década ou mais. Especialistas consultados pelo site de VEJA explicam: até a primeira década do século XXI, a região nunca tinha conhecido um momento tão favorável à exportação de matéria prima, e isso permitiu que os governos conquistassem o apoio da população com investimentos sociais sem precedentes – sejam conservadores, como na Colômbia e México; de centro-esquerda, como no Brasil, Uruguai e Chile; ou populistas, como na Venezuela, Bolívia, Equador. E também na Argentina, onde os poucos acertos dos primeiros anos se transformaram em um imenso empecilho ao desenvolvimento.

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Julio Blanck, editor-chefe do jornal argentino Clarín, aponta como maior contribuição do kirchnerismo para a Argentina a recomposição da autoridade presidencial em um momento que o país vivia um grande vazio de poder, especialmente depois da crise de 2001/2002. Kirchner chegou à Presidência ao vencer uma eleição da qual seus principais adversários desistiram. À ocasião, os argentinos tinham suas poupanças presas nos bancos, e as taxas de desemprego e de pobreza eram altíssimas. “O que Néstor fez foi tranquilizar as organizações sociais, dando a elas ajuda financeira e participação política, e disciplinar seus diretores: eles poderiam manter seu poder a partir do momento que se adequassem ao governo. Em cerca de um ano, o presidente conseguiu colocar a opinião pública a seu favor”, diz Blanck. Porém, esse acúmulo de poder que se mostrou benéfico no início do seu mandato foi se transformando, aos poucos, em uma concentração absoluta de poder. “O sistema institucional do país ficou totalmente desequilibrado. Hoje, a Presidência já domina o Congresso e quer dominar a Justiça também”.

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No caso da imprensa, o grande golpe do governo argentino veio em 2009, quando Cristina já ocupava a Presidência, com total influência do marido nos bastidores. O casal aprovou a Lei de Mídia – com o intuito de calar os veículos opositores – em outubro de 2009. Desde então, trava uma guerra jurídica com o grupo Clarín, o mais prejudicado pela nova legislação. A guerra nos tribunais levou o governo a agir para sufocar o Judiciário. O golpe mais recente veio por meio de um pacote de projetos que minam a atuação do já subjugado Poder. Uma ironia, uma vez que uma das primeiras ações de Kirchner ao se tornar presidente foi impulsionar uma renovação da Corte Suprema, acusada de estar sempre a favor do governo.

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Ao contrário das eleições anteriores, em que a alta popularidade garantiu a vitória de Cristina, atualmente, a sociedade argentina está dividida: cerca de 30% da população apoia as decisões do governo e vota a seu favor; outros 30% está totalmente contra Cristina e não tolera seu estilo; e 40% flutua em suas opiniões, e são eles que decidem as eleições. Por isso, o futuro é muito incerto. “Cristina dificilmente vai conseguir se candidatar para as próximas eleições, mesmo com as manobras que vem colocando em prática, e não tem um sucessor natural para o kirchnerismo. Porém, também não há uma figura opositora definida”, diz Liotti.

Para Fraga, se Cristina não tiver uma vitória contundente nas eleições parlamentares deste ano, dificilmente vai conseguir se manter no controle – direto ou indireto – do país a partir de 2015. “Mesmo que nas próximas eleições um membro de seu partido seja eleito, provavelmente terá uma orientação ideológica diferente e colocará fim no continuísmo político vivenciado pelo país.”

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