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Detalhes do julgamento de Bo Xilai reforçam suspeita de “teatro político”

Apesar da garantia das autoridades de que o procedimento seria "público", tribunal ocultou detalhes do processo

Apesar de ter sido anunciada como uma iniciativa inédita destinada a dar mais transparência à Justiça chinesa, a transmissão on-line do julgamento do ex-líder do Partido Comunista chinês, Bo Xilai, que acabou na segunda-feira, foi parcial e ocultou muitos detalhes importantes do processo, reforçando a suspeita de que tudo não passou de um “teatro político”.

Antes do início do julgamento do protagonista do maior escândalo político da China em décadas, na última quinta-feira, as autoridades comunistas garantiram que os procedimentos seriam “públicos” e que uma conta na rede social Weibo, uma versão chinesa do Twitter, transmitiria detalhes do julgamento direto do tribunal. Bo, uma ex-estrela do partido, é acusado de corrupção, suborno e abuso de poder.

A teórica transparência com que seria tratado o caso levantou muitas dúvidas, já que esse não foi o tom nos julgamentos dos outros dois principais atores do escândalo, a esposa de Bo, Gu Kailai, e seu ex-braço direito, Wang Lijun, há quase um ano.

Apesar de a imprensa oficial ter se vangloriado da “transparência” do sistema, vários indícios sugerem que o método não foi nada além de uma encenação grosseira.

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Em primeiro lugar, é quase impossível confrontar as informações divulgadas pelo julgamento em si, já que apenas dezenove jornalistas da imprensa oficial chinesa puderam entrar na sala, enquanto os mais de 200 repórteres credenciados se resignavam a cobri-lo do lado de fora.

Também não houve nenhuma confirmação oficial sobre a informação publicada no jornal South China Morning Post (SCMP), de Hong Kong, de que Wang Lijun foi testemunhar em uma cadeira de rodas depois de sofrer um acidente vascular cerebral há dois meses.

Além disso, o ritmo das publicações das atas foi diminuindo ao longo dos dias. Algumas informações – com temas presumivelmente delicados – que chegaram a ser postadas em uma rede social chinesa foram apagadas minutos depois.

Redes – Outro elemento suspeito é que, apesar de a conta do tribunal em redes sociais ter se tornado um trending topic – um tema bastante comentado – e amealhado mais de 500.000 seguidores no Weibo, ela contava com apenas 70 comentários, predominantemente negativos, em relação a Bo.

O SCMP publicou nesta terça-feira, citando três fontes da corte, que as transcrições deixaram de fora comentários positivos feitos por Bo sobre sua esposa Gu, que está presa pelo assassinato do empresário britânico Neil Heywood, ou aqueles que deixavam o regime em alguma saia justa.

“Minha vida foi uma tragédia… Também a de Gu”‘, teria dito Bo à promotoria, segundo o SCMP, sobre o início do escândalo, que começou quando Wang Lijun, então seu chefe de polícia, tentou refugiar-se em um consulado dos Estados Unidos em fevereiro de 2012, onde delatou os crimes do antigo dirigente e incriminou Gu pela morte de Heywood.

‘Espero que vocês possam interromper esta investigação e assim deixar o último pedaço que fica vivo da minha família’, implorava um Bo muito mais ‘humano’ do que aquele que se referiu à mulher como “louca” nos últimos dias.

Cartas – As transcrições também omitiram, segundo o jornal, as cinco cartas que o ex-líder escreveu ao partido, pedindo que sua mulher fosse perdoada pelo assassinato, ou suas descrições sobre as táticas de persuasão “pouco sutis” do corpo anticorrupção do PC, nas quais explicava como um acusado confesso sobreviveu enquanto outro, que negou os delitos, foi executado.

No entanto, Bo não aceitou as acusações de corrupção e abuso de poder, algo que poderia ser utilizado pela promotoria – que já exigiu que ele seja “severamente castigado” – contra si.

À espera da sentença, cuja data é desconhecida, há poucos detalhes espontâneos em um julgamento com uma “trama que nem a pior telenovela poderia ter”, segundo supostas palavras de Bo durante sua alegação final.

Nem sequer os policiais que escoltaram o ex-líder na sala eram autênticos. Aparentemente, um dos oficiais, especialmente alto para os padrões chineses, era um ex-jogador de basquete usado para ‘ofuscar’ a imponente figura do dirigente deposto

(Com agência EFE)