Derrota de democrata socialista em Wisconsin expõe limites para a esquerda nos EUA; entenda
Após sequência de vitórias, ala progressista do partido encontra obstáculo nos eleitores que duvidam de sua capacidade para vencer dos republicanos
A ala à esquerda do Partido Democrata, uma turma estridente cheia de figuras que abertamente se rotulam “socialistas“, vinha em trajetória de ascensão. Desde o início do ano, seus candidatos, em sua maioria jovens com domínio das redes sociais e pinta de outsider, ganharam mais de 35 disputas primárias, em que democrata enfrenta democrata, contra candidatos do establishment — desde a prefeitura de Washington, D.C., até vagas na Câmara dos Deputados pelos estados de Nova York, Detroit, Filadélfia e Denver.
No entanto, a força dessa onda começa a ser testada. No estado decisivo de Wisconsin, a socialista Francesca Hong, uma ex-chef que defende creches e merenda escolar gratuitas e era a favorita nas pesquisas, sofreu uma derrota inesperada para o democrata centrista David Crowley na terça-feira 11, e ficará fora da corrida pelo governo do estado. A margem foi apertada (0,4 ponto percentual, segundo projeções das emissoras CNN, CBS e NBC), mas expôs limites à esquerda americana.
Hong, que liderava as pesquisas de opinião com uma vantagem de dois dígitos, ensaiou um pedido por união no Partido Democrata para enfrentar os republicanos nas midterms, eleições plantadas no meio do mandato presidencial que, daqui três meses, renovarão a Câmara inteira e 35 das 100 cadeiras do Senado, além de dezenas de governadores e um sem-número de cargos estaduais de alto nível. “Não importa quem esteja na cédula, pessoal; vamos lutar para vencer uns pelos outros”, disse ela em pronunciamento a apoiadores na terça-feira.
Discursos à parte, a nova geração de candidatos de esquerda que aspira a remodelar a legenda causou um verdadeiro cisma. Como em outros cantos do país, os democratas tradicionais empreenderam um esforço total (ainda que tardio) para impedir que Hong conquistasse a indicação, com o atual governador Tony Evers ajudando Crowley a arrecadar fundos para a campanha e alertando constantemente que a socialista tinha mais chances de perder para o rival republicano nas midterms de novembro, uma vez que Wisconsin é um swing state — onde nenhum dos dois partidos é predominante e eleições costumam ser decididas por margens mínimas. O estado também jamais elegeu uma mulher, muito menos uma socialista.
Daqui três meses, o democrata centrista enfrentará o congressista Tom Tiffany, um republicano apoiado pelo presidente Donald Trump e intimamente associado ao seu movimento MAGA (Make America Great Again), que tem se valido do rótulo “socialista” para taxar os rivais de radicais degenerados. O próprio Trump mencionou a palavra “comunista” ao menos 95 vezes desde o final de junho, agrupando todos os democratas no guarda-chuva dos “lunáticos sem Deus”.
“A vitória de Crowley foi uma reviravolta surpreendente, que mostra como os eleitores democratas estão receosos quanto à viabilidade eleitoral de candidatos como Hong”, disse ao jornal The New York Times Anthony Chergosky, cientista político da Universidade de Wisconsin-La Crosse, referindo-se à capacidade de vitória contra adversários do Partido Republicano nas eleições “para valer”.
Candidata imperfeita
Muitos especialistas afirmam que só será possível entender se os socialistas americanos são capazes de vencer republicanos em novembro, uma vez que a maioria de seus triunfos até agora aconteceu em estados azulíssimos, onde há eleitores progressistas de sobra (à exceção de Abdul El-Sayed, um médico muçulmano que finge que não, mas faz parte dessa turma e na semana passada prevaleceu sobre a rival centrista para disputar uma vaga no Senado pelo swing state de Michigan).
Alguns analistas apontam, porém, que o soluço da esquerda americana na terça-feira pode ter menos a ver com o movimento em si do que com Hong, uma figura menos conhecida e articulada do que seus colegas de matiz ideológico. Para se ter uma ideia, nenhum dos dois democratas socialistas mais famosos do país — o senador veterano Bernie Sanders, de Vermont, e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York — endossou sua candidatura nas primárias.
Isso se deve, em parte, justamente à tal da viabilidade eleitoral. A trupe liderada por Sanders e AOC, acrônimo pelo qual a deputada nova-iorquina ficou conhecida, tenta provar sua capacidade de vencer em não apenas nos seus redutos, mas nos swing states, algo que não conseguem desde 2016. Wisconsin deixou de ser visto como prioridade nesse jogo à medida que Hong tropeçava na campanha: concedeu uma série de entrevistas meio atrapalhadas em que não conseguiu se explicar por posicionamentos e polêmicas do passado, entre eles os apelos para “cancelar o Dia de Ação de Graças”, abolir prisões e cortar fundos para delegacias de polícia.
Embora ela tenha deixado claro que não pretendia levar adiante tais medidas radicais no cargo, acabou colocando sob os holofotes temas que os socialistas desejam deixar para trás. O grupo hoje se concentra em propostas relacionadas à redução da inflação e do custo de vida, um pout pourri de populismo econômico que mistura gratuidade de creches e transporte público, barateamento de aluguéis e supermercados e a criação de um sistema universal de saúde pública — pontos que conversam, em especial, com a classe trabalhadora e gerações mais jovens, e têm sido bem recebidos pelos eleitores.
Enquanto isso, eles tentam varrer para debaixo do tapete ideias que deixam a enorme maioria dos americanos de cabelo em pé: o fim do apoio militar a Israel em prol da causa palestina; anistia geral para todos os imigrantes ilegais; ou o pagamento de indenizações a descendentes de escravizados. Por essas e outras, até mesmo entre aqueles que sempre votam no Partido Democrata, menos de um terço se identifica com a ala à esquerda.
O debate claramente repercutiu entre os eleitores de Wisconsin, que buscavam mesmo era uma figura capaz de derrotar o republicano Tiffany. Ao fim e ao cabo, Hong não conseguiu convencer de que valia a pena apostar nela.
Resultados mistos
Enquanto isso, membros do DSA, organização que representa os democratas socialistas, minimizaram o baque.
“O fato de sermos competitivos em uma primária de um estado decisivo, apesar de termos apenas algumas poucas cadeiras no Congresso, é um sinal de que estamos avançando mais rápido do que o previsto para conquistar diferentes eleitorados pelo país”, disse Chanpreet Singh, líder do DSA em Seattle, no estado de Washington.
De fato, eles tiveram mais sucesso em outros cantos. Na mesma terça 11, em Minnesota, a candidata democrata de esquerda Peggy Flanagan impôs-se com 59% dos votos sobre sua rival moderada, Angie Craig, e será a candidata para substituir a senadora em fim de mandato Tina Smith.
Ao contrário de Hong, Flanagan contou com o apoio do veterano Sanders, bem como da senadora progressista Elizabeth Warren e da própria Smith. Enquanto isso, Craig foi respaldada por democratas que defendiam que seu histórico de vitórias em eleições acirradas a tornava a opção mais segura para as midterms.
Com o futuro em aberto para as eleições de meio de mandato, a única certeza é que, mesmo com obstáculos no caminho, os progressistas não darão trégua para seus colegas de partido.







