Depois de sair de mãos abanando da Casa Branca, Netanyahu segue em várias frentes de batalha
Trata-se de estratégia para tentar manter o poder nas eleições que se avizinham
Casa Branca ficou especialmente agitada ao receber em sequência o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, na terça-feira 28, ambos enredados em conflitos que se esticam sem horizonte de fim — um xadrez geopolítico que em nada interessa ao anfitrião, Donald Trump. Daí a certa irritação que exalava, desta vez menos com o ucraniano, com quem teve conversa fluida, e mais com seu par israelense, que hoje o exaspera pelos objetivos que divergem dos dele. Muitos tópicos candentes dominaram a pauta, mas o que Netanyahu queria mesmo era convencer o ocupante do Salão Oval da necessidade de seguir com a investida contra o Irã, iniciada pelos dois há cinco meses, e da importância das outras frentes de batalha que seu país trava no explosivo Oriente Médio. Toda a pressão de Trump, porém, tem sido no sentido de abrandar a tensão que lhe cobra alto preço, e Netanyahu foi embora de mãos vazias. Não houve nem um daqueles pronunciamentos à imprensa em que os líderes distribuem sorrisos e celebram acordos e promessas vãs.
Não é um cenário alvissareiro para o premiê, que, com uma eleição no horizonte, está em plena luta pela sobrevivência política, projeto apoiado justamente na estratégia das bombas. Com elas, consegue manter a seu lado a extrema direita, vital para a coalizão que o sustenta, e também uma fatia relevante da população, sobretudo quando agita a bandeira de que está em combate contra “inimigos existenciais” para Israel. É tática de resultado incerto e que estimula mundo afora uma percepção negativa do país, inclusive entre americanos, atualmente mais simpáticos a palestinos do que a israelenses — uma situação inédita e incômoda. Recentemente, Zohran Mamdani, o prefeito socialista de Nova York, chegou a pedir ao departamento jurídico que achasse uma brecha para prender Netanyahu quando ele pousasse na cidade para a Assembleia Geral da ONU, em setembro, em cumprimento a um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional. Não foi possível, mas Mamdani enfatizou o repúdio ao primeiro-ministro, alvo de dura carta assinada por ex-diplomatas israelenses. “Você está destruindo o que construímos em 77 anos de história”, escreveram.
A estratégia de Netanyahu colide de frente com o plano do governo de Washington de baixar a poeira no Oriente Médio, onde um conflito costuma se interligar a outro, sacudindo um tabuleiro instável. Pois os movimentos do premiê, que conhece essa lição de cor, têm justamente esgarçado laços já frágeis. Ao insistir em avançar em Gaza, o enclave palestino onde firmou um fragilíssimo cessar-fogo com o Hamas, o grupo radical no comando, ele frustra um cronograma liderado por Trump de redesenho do estreito território. O mais recente lance ali foi o anúncio de que uma força de paz internacional seria despachada do Egito para dar a largada a uma mudança de poder — ainda sem data, muito porque, para o governo de Israel, o melhor mesmo é deixar tudo como está. O país domina 64% de Gaza, e a cada dia abocanha mais. Enquanto a situação perdura, aliados dos americanos, como a Arábia Saudita, se recusam a estabelecer elo diplomático com Israel. Os sauditas, aliás, são o sonho maior de Trump, pelo potencial de negócios e também pela demonstração de força que um novo arranjo por lá representaria.
Outro canto da região que Israel vem inflamando é a Cisjordânia, cuja ocupação por colonos israelenses é ilegal aos olhos do direito internacional. Depois dos confrontos com palestinos nos últimos dias, o premiê prometeu acelerar o estabelecimento de novos assentamentos, projeto embalado por um recém-aprovado orçamento de 2,2 bilhões de reais. E o tom subiu com o ultrarradical ministro das Finanças, Bezalel Smotrich. “Esta é a resposta sionista apropriada aos terroristas e ao terrorismo”, bradou. Resultado: o deslocamento forçado dos palestinos se agrava, e Netanyahu adiciona um componente à sua tão desgastada imagem, dentro e fora de Israel. Ao caldeirão soma-se o imbróglio no Líbano, onde seu governo se apossa de mais porções de terra ao Sul, apesar de assim colocar pólvora na contenda contra o Irã. A nação persa já deixou claro que não selará a paz se Netanyahu continuar a esticar a corda por lá — este, aliás, outro ponto de atrito com Trump, cuja desaprovação dispara (chegou esses dias a 62%) à medida que o conflito se estende. “Netanyahu apostou que embarcar em guerras aumentaria suas chances de manter o poder, uma aposta arriscada”, diz Yossi Mekelberg, do think tank Chatham House.
A movimentação de Netanyahu mira a data de 27 de outubro, quando os israelenses irão às urnas. Com um racha em sua base, que encolheu com a saída de um dos partidos que lhe garantia a permanência no posto, o parlamento foi dissolvido. A tirar pelas atuais pesquisas, o primeiro-ministro, que há quase duas décadas está à frente do país, não terá vida fácil para reverter a previsão de derrota. Mas é preciso lembrar que poucos líderes na atual arena da política dominam tão bem os labirintos do poder. Se perder mesmo, ele também enfrentará a Justiça, onde processos aos quais responde por corrupção repousam na gaveta enquanto ele segue no cargo. “Com as guerras em andamento sem desfecho claro, não dá para dizer se a estratégia de Netanyahu será boa ou ruim para ele”, afirma a cientista política Irit Katz, da Universidade de Cambridge. Para o mundo, não há dúvida: o melhor caminho é sempre o da paz.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006







