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Depois de sair de mãos abanando da Casa Branca, Netanyahu segue em várias frentes de batalha

Trata-se de estratégia para tentar manter o poder nas eleições que se avizinham

Por Caio Saad Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 31 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 31 jul 2026, 11h45
Depois de sair de mãos abanando da Casa Branca, Netanyahu segue em várias frentes de batalha Priorizar nos meus resultados Google

Casa Branca ficou especialmente agitada ao receber em sequência o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e Benjamin Neta­nyahu, o primeiro-ministro de Israel, na terça-feira 28, ambos enredados em conflitos que se esticam sem horizonte de fim — um xadrez geopolítico que em nada interessa ao anfitrião, Donald Trump. Daí a certa irritação que exalava, desta vez menos com o ucraniano, com quem teve conversa fluida, e mais com seu par israelense, que hoje o exaspera pelos objetivos que divergem dos dele. Muitos tópicos candentes dominaram a pauta, mas o que Netanyahu queria mesmo era convencer o ocupante do Salão Oval da necessidade de seguir com a investida contra o Irã, iniciada pelos dois há cinco meses, e da importância das outras frentes de batalha que seu país trava no explosivo Oriente Médio. Toda a pressão de Trump, porém, tem sido no sentido de abrandar a tensão que lhe cobra alto preço, e Netanyahu foi embora de mãos vazias. Não houve nem um daqueles pronunciamentos à imprensa em que os líderes distribuem sorrisos e celebram acordos e promessas vãs.

Não é um cenário alvissareiro para o premiê, que, com uma eleição no horizonte, está em plena luta pela sobrevivência política, projeto apoiado justamente na estratégia das bombas. Com elas, consegue manter a seu lado a extrema direita, vital para a coalizão que o sustenta, e também uma fatia relevante da população, sobretudo quando agita a bandeira de que está em combate contra “inimigos existenciais” para Israel. É tática de resultado incerto e que estimula mundo afora uma percepção negativa do país, inclusive entre americanos, atualmente mais simpáticos a palestinos do que a israelenses — uma situação inédita e incômoda. Recentemente, Zohran Mamdani, o prefeito socialista de Nova York, chegou a pedir ao departamento jurídico que achasse uma brecha para prender Netanyahu quando ele pousasse na cidade para a Assembleia Geral da ONU, em setembro, em cumprimento a um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional. Não foi possível, mas Mamdani enfatizou o repúdio ao primeiro-ministro, alvo de dura carta assinada por ex-diplomatas israelenses. “Você está destruindo o que construímos em 77 anos de história”, escreveram.

A estratégia de Netanyahu colide de frente com o plano do governo de Washington de baixar a poeira no Oriente Médio, onde um conflito costuma se interligar a outro, sacudindo um tabuleiro instável. Pois os movimentos do premiê, que conhece essa lição de cor, têm justamente esgarçado laços já frágeis. Ao insistir em avançar em Gaza, o enclave palestino onde firmou um fragilíssimo cessar-fogo com o Hamas, o grupo radical no comando, ele frustra um cronograma liderado por Trump de redesenho do estreito território. O mais recente lance ali foi o anúncio de que uma força de paz internacional seria despachada do Egito para dar a largada a uma mudança de poder — ainda sem data, muito porque, para o governo de Israel, o melhor mesmo é deixar tudo como está. O país domina 64% de Gaza, e a cada dia abocanha mais. Enquanto a situação perdura, aliados dos americanos, como a Arábia Saudita, se recusam a estabelecer elo diplomático com Israel. Os sauditas, aliás, são o sonho maior de Trump, pelo potencial de negócios e também pela demonstração de força que um novo arranjo por lá representaria.

Outro canto da região que Israel vem inflamando é a Cisjordânia, cuja ocupação por colonos israelenses é ilegal aos olhos do direito internacional. Depois dos confrontos com palestinos nos últimos dias, o premiê prometeu acelerar o estabelecimento de novos assentamentos, projeto embalado por um recém-aprovado orçamento de 2,2 bilhões de reais. E o tom subiu com o ultrarradical ministro das Finanças, Bezalel Smotrich. “Esta é a resposta sionista apropriada aos terroristas e ao terrorismo”, bradou. Resultado: o deslocamento forçado dos palestinos se agrava, e Netanyahu adiciona um componente à sua tão desgastada imagem, dentro e fora de Israel. Ao caldeirão soma-se o imbróglio no Líbano, onde seu governo se apossa de mais porções de terra ao Sul, apesar de assim colocar pólvora na contenda contra o Irã. A nação persa já deixou claro que não selará a paz se Netanyahu continuar a esticar a corda por lá — este, aliás, outro ponto de atrito com Trump, cuja desaprovação dispara (chegou esses dias a 62%) à medida que o conflito se estende. “Netanyahu apostou que embarcar em guerras aumentaria suas chances de manter o poder, uma aposta arriscada”, diz Yossi Mekelberg, do think tank Chatham House.

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A movimentação de Netanyahu mira a data de 27 de outubro, quando os israelenses irão às urnas. Com um racha em sua base, que encolheu com a saída de um dos partidos que lhe garantia a permanência no posto, o parlamento foi dissolvido. A tirar pelas atuais pesquisas, o primeiro-ministro, que há quase duas décadas está à frente do país, não terá vida fácil para reverter a previsão de derrota. Mas é preciso lembrar que poucos líderes na atual arena da política dominam tão bem os labirintos do poder. Se perder mesmo, ele também enfrentará a Justiça, onde processos aos quais responde por corrupção repousam na gaveta enquanto ele segue no cargo. “Com as guerras em andamento sem desfecho claro, não dá para dizer se a estratégia de Netanyahu será boa ou ruim para ele”, afirma a cientista política Irit Katz, da Universidade de Cambridge. Para o mundo, não há dúvida: o melhor caminho é sempre o da paz.

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006

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