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Depois de horas de confronto, polícia se retira de praça em Istambul

Protestos também foram registrados na capital Ancara e na cidade de Izmir

Depois de tentar controlar manifestantes durante 36 horas com o uso de gás lacrimogêneo, jatos d’água e spray de pimenta, a polícia turca se retirou da praça Taksim, em Istambul, na tarde deste sábado, permitindo que dezenas de milhares de pessoas ocupassem o espaço. Na sexta-feira, os manifestantes iniciaram um protesto pacífico contra os planos do governo de destruir o parque Gezi, ao lado da praça. A polícia reagiu e o protesto acabou se tornando uma grande manifestação contra o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. Os confrontos diminuíram neste sábado, depois que a polícia permitiu que os manifestantes ocupassem a praça. Ao menos 14 pessoas ficaram feridas, informaram fontes do governo local. Pedras foram atiradas nas viaturas policiais que deixaram o local, informou a rede americana CNN. Além de Istambul, protestos também foram registrados na capital Ancara e na cidade portuária de Izmir. Em todo o país, pelo menos 79 pessoas ficaram feridas em confrontos, incluindo 26 policiais, e 939 foram detidas, disse o ministro do Interior, Muammer Guler, à agência turca Anadolu.

O premiê Erdogan fez um pronunciamento sobre os confrontos que foi transmitido ao vivo na TV turca neste sábado. Em seu discurso, ele disse que não haveria recuo das forças policiais. “A polícia estava lá ontem, está lá hoje e estará lá amanhã. A Praça Taksim não pode ser um local onde grupos marginais possam circular livremente”. O ministro pediu o fim dos protestos, mas também reconheceu que as forças de segurança fizeram uso excessivo de gás lacrimogêneo contra os manifestantes. “Houve erros na ação das forças de segurança, especialmente relacionados ao uso de gás. Isso está sendo investigado”. Em alguns bairros de Istambul, moradores fizeram panelaços nas ruas durante o discurso. A ONG Anistia Internacional, que defende os direitos humanos, denunciou o uso excessivo de força policial contra os manifestantes.

Histórico – No início desta semana, ativistas tentaram ocupar o parque Gezi, último espaço verde da praça Taksim, em protesto contra os planos do governo de construir no local uma réplica dos centenários quartéis militares otomanos, que abrigariam um shopping center. Na quarta-feira, Erdogan respondeu ao pequeno protesto, afirmando que os planos seriam mantidos. Nos dias seguintes, a polícia em vários momentos usou gás lacrimogêneo contra manifestantes no local, mas o protesto cresceu e conquistou o apoio de celebridades do país e parlamentares tanto de partidos seculares como de legendas da oposição pró-curdos.

Na manhã de sexta, policiais entraram no parque com jatos d’água e mais gás lacrimogêneo, para retirar os manifestantes do local, o que deu origem aos confrontos. Em seu pronunciamento neste sábado, Erdogan voltou a afirmar que os planos para a construção estão mantidos. Porém, muitos manifestantes dizem que o protesto não é mais apenas contra as mudanças no parque. Os protestos agora são contra o aumento no número de políticas autoritárias que estão sendo adotadas pelo governo. O colunista Mustafa Akyol escreveu que o premiê “precisa ver que o país espera mais democracia participativa”. “As pessoas querem influenciar nas decisões sobre assuntos públicos”.

A Turquia é uma nação governada por um partido islâmico que diz não querer romper com a tradição democrática nacional, mas não esconde a afinidade com grupos fundamentalistas da região. Erdogan é visto por muitos como o líder mais poderoso desde Mustafa Kemal, o Ataturk (pai dos turcos), que fundou a moderna república secular sobre as ruínas do Império Otomano, 90 anos atrás. Mas o aumento da insatisfação popular representa um desafio político para Erdogan, que planeja disputar a presidência em 2014 e tenta alterar a Constituição do país para criar um sistema presidencial mais poderoso.

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