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Dança entra no cenário político da Grã-Bretanha

Por The New York Times 3 Maio 2010, 18h32

Numa eleição geral tão imprevisível quanto a de quinta-feira na Grã-Bretanha, com vários distritos eleitorais equilibrados e grande chance de que nenhum dos partidos obtenha a maioria no Parlamento, qualquer assunto premente pode mudar o voto dos indecisos. Uma das questões é a dança. Sim, a dança. É tentador deixar de lado essa ideia, mas ainda assim o assunto mobilizou uma campanha e causou polêmicas nos últimos meses.

Caroline Miller, diretora do grupo ativista Dance UK, explicou que vários acontecimentos levaram ao DanceVote 2010, uma campanha para colocar essa forma de arte na agenda dos membros do Parlamento. Embora o financiamento seja um dos objetivos, os defensores estão principalmente interessados em chamar a atenção para a dança. “Programas de TV como o Strictly Come Dancing e o So You Think You Can Dance tornaram o público britânico mais consciente do que nunca a respeito da dança”, observou ela.

A dança britânica nos últimos anos tem tido uma história de sucesso multifacetado. Embora o Royal Ballet desfrute de uma onda de grande popularidade, não é mais o carro-chefe incontestável da dança. Billy Elliot, o filme e o musical, diz muito sobre a dança na Grã-Bretanha. Por outro lado, o prestígio internacional alcançado nos últimos anos pelos coreógrafos Matthew Bourne, Akram Khan, Wayne McGregor e Christopher Wheeldon – entre os artistas britânicos mais eminentes a emergir nos últimos anos – diz muito mais.

A dança há muito está estabelecida como conteúdo escolar nas escolas e universidades britânicas. A dança moderna britânica, que mal existia no começo dos anos 1960, agora está entre as mais prestigiosas do mundo; a natureza multirracial da Grã-Bretanha moderna reflete-se numa ampla série de companhias como o Phoenix Dance Theater e o Ballet Black. Apesar disso, como observa Miller, a dança não desfruta do mesmo status oficial que a música. Em 2004, o governo britânico aprovou um manifesto musical destinado a dar à música uma importância maior para quem é criado no país, em particular na educação, e a dar mais oportunidades a qualquer jovem atraído pela música. Quando os partidários da música abordaram o governo, Miller disse: “O ministro já tinha arregaçado as mangas e lhes perguntado o que mais queriam. Eles obtiveram 300 milhões de libras. Percebemos que era preciso fazer uma grande pressão pela dança”.

À medida que a campanha ganhou forma, os colegas de Miller se surpreenderam com “a quantidade de políticos que nunca haviam visto uma apresentação de dança”, afirmou ela. “Foi revelador para alguns deles assistirem a uma companhia de balé sediada fora de Londres, como o Birmingham Royal Ballet ou a grande Rambert Dance Company, de dança moderna.” Ela acrescentou: “Poderíamos ressaltar que a dança é a atividade física mais popular para os jovens depois do futebol e, para as meninas, é a mais popular”. Mas a dança ajuda muito mais pessoas. “Para começar, depois dos 18 anos, a dança é a única forma de atividade física praticada pela maioria das mulheres. Uma vez que os políticos britânicos são obcecados pela juventude de um lado e pela obesidade de outro, esses são dois gatilhos imediatos.”

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Depois de se aconselhar com políticos, o grupo formou um Comitê Parlamentar Suprapartidário de Dança, e um manifesto foi apresentado ao governo em 2006 por uma delegação que incluía a bailarina Darcey Bussell, a coreógrafa Arlene Phillips, o dançarino e coreógrafo Jonzi D e Alistair Spalding, diretora artística do Sadler�s Wells Theater. O resultado, em 2008, foram 5,5 milhões de libras (cerca de 14,5 milhões de reais) para a dança ao longo de três anos. “Isso ainda não era comparável à cota dada à música”, disse Miller, “mas foi um avanço enorme.”

No ano passado, a dança cruzou o caminho dos políticos de formas inesperadas. Quando Phillips foi substituída como juíza do Strictly Come Dancing, o barulho foi tão grande – ela tinha 66 anos à época e um dos argumentos foi de que a BBC tinha preconceito contra o envelhecimento – que as questões foram levadas ao Parlamento. Depois disso, Phillips, embora não tenha sido reconduzida ao Strictly, ganhou um emprego no So You Think You Can Dance, no horário nobre da televisão na noite de sábado.

O porta-voz dos conservadores para a educação, Michael Gove, argumentou em artigos de opinião que os estudantes deveriam ser estimulados a fazer os “A-levels” – os exames usados para entrar nas universidades – em áreas tradicionais como matemática, não em matérias “fáceis” como a dança. (Um dos artigos tinha como título “Rigor acadêmico é a resposta � não um A-Level em dança”) A opinião de Gove era de que esse ponto de vista era não apenas dele, mas das principais universidades britânicas. Apesar disso, causou furor. Vários dos coreógrafos mais proeminentes da Grã-Bretanha – Richard Alston, Siobhan Davies, Bourne, Khan, McGregor e outros – divulgaram suas objeções. Miller disse que as universidades de Oxford e Cambridge rejeitaram a declaração de Gove.

Kenneth Olumuyiwa Tharp, diretor-executivo do Place, um dos primeiros centros de dança contemporânea de Londres, também entrou no debate, escrevendo no jornal The Guardian: “A dança demanda tanto perseverança intelectual como física. Talvez interesse a Gove saber que na Escola de Dança Contemporânea de Londres no Place não é incomum para nós aceitarmos os graduados de Oxford e Cambridge para nossos cursos de treinamento vocacional; e que o iluminado Queen�s College Cambridge tem há mais de 12 anos um posto de dançarino residente.”

O porta-voz para as artes dos conservadores, Ed Vaizey, acabou tendo de manifestar o apoio de seu partido para a dança, reconhecendo que ela poderia ser “uma parte importante de um currículo variado” e observado que os conservadores valorizavam as artes em todas as suas formas. Entretanto, as políticas de educação de Gove permaneceram entre as áreas mais animadas para o debate nos meses que antecederam a eleição. No ranking das preocupações dos eleitores, o financiamento às artes em geral situa-se nas pesquisas britânicas numa posição inferior ao da educação, do desemprego, das forças armadas, imigração, lei e ordem, e serviços de saúde. Mas tudo está em suspenso nesta eleição.

O partido que prometeu proteger o financiamento às artes é o Liberal Democrata. Embora seja o terceiro do Parlamento, o partido recebeu um apoio imenso quando o seu líder, Nick Clegg, foi considerado por muitos o vencedor do primeiro debate eleitoral televisionado da Grã-Bretanha entre os três líderes de partidos. O Partido Conservador, que disse que faria cortes extensos nos fundos estatais (embora redirecionaria mais dinheiro da loteria para as artes), está à frente nas pesquisas, mas não mais com uma grande vantagem. A política do Partido Trabalhista para o financiamento das artes permanece vago. Miller é cautelosa para não exortar a causa de nenhum partido. “Nós apenas queremos que a dança seja reconhecida como uma questão.”

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