Cubanos cada vez mais fazem as malas e desembarcam no Brasil
A maioria voa para a Guiana, que não exige visto, e de lá cruza a Amazônia, um trajeto irregular e arriscado
Em busca de uma vida melhor do que a que levava em Cuba, onde seu salário de recepcionista de hotel evaporava em uma única ida ao mercado, Maribel Rodríguez, 38 anos, deixou tudo para trás e trocou a ilha pelo Brasil. Em contato com uma rede de compatriotas em situação semelhante, pôs o plano em prática e, em maio, desembarcou em Curitiba, com emprego garantido em um restaurante. “As diferenças são muito claras. Aqui é um lugar bom para morar e trabalhar”, diz Maribel. Não está sozinha. Segundo estudo do Observatório das Migrações Internacionais, em 2025 os cubanos assumiram a liderança nos pedidos de refúgio no Brasil — cerca de 42 000 (55% de todas as solicitações), o dobro dos venezuelanos. Em 2026, a onda segue. A maior parte entra no país pela fronteira norte, e o destino final é a capital do Paraná, a meca dos refugiados. “Não há muitas opções para quem quer sair e precisa vender tudo o que tem só para comprar a passagem”, diz José Ramírez, 57 anos, que agora trabalha em uma empresa de refrigeração.
A viagem não é fácil. A maioria voa para a Guiana, que não exige visto, e de lá cruza a Amazônia, um trajeto irregular e arriscado. “Com o endurecimento da política migratória americana, a América Latina passou de corredor a lar pretendido pelos cubanos”, diz María Moita, diretora regional da Organização Internacional para as Migrações (OIM). Essa tendência, segundo ela, requer adaptação dos governos, um trabalho em que o Brasil ganhou experiência com o alto volume de venezuelanos que aqui chegaram fugindo das agruras do governo de Nicolás Maduro. O êxodo cubano, por sua vez, é resultado direto do acirramento de uma crise na ilha caribenha devido ao bloqueio, por Donald Trump, das importações de petróleo — no início do mês, o país registrou o sexto apagão nacional neste ano, acompanhado de protestos nas ruas e panelaços. Cansados e impotentes, soterrados pela história, os cubanos cada vez mais fazem as malas, dão as costas à Flórida (desde sempre seu destino preferencial) e desembarcam no Brasil.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007








