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Crise econômica derruba Berlusconi e consolida governo Monti

Carmen Postigo.

Roma, 19 dez (EFE).- A crise foi a grande protagonista da queda de Silvio Berlusconi como primeiro-ministro, provocando sua substituição pelo ex-comissário europeu Mario Monti, que apareceu com a missão de assumir um governo de tecnocratas para contornar as dificuldades de uma Itália quase em recessão.

Aos 76 anos, Berlusconi só percebeu que tinha perdido o apoio político de seus correligionários durante a votação das Contas do Estado de 2010. Em sessão na Câmara dos Deputados, o ex-premiê contou com os votos de 308 deputados, porém, perdeu o apoio de outros oito, que depois foram considerados como traidores.

A derrota do magnata não foi alheia à grave situação da economia italiana, que vivia uma profunda crise, registrando uma dívida de 120% do PIB, um valor de quase 1,9 trilhão de euros.

A queda da confiança dos investidores na economia, abalada pelas notas negativas das agências de qualificação à dívida, e as escaladas vertiginosas do prêmio de risco, que chegou a atingir os 575 pontos básicos e deixou o país em posição de resgate, também foram fundamentais para a queda de Berlusconi.

Apesar de entrar com uma ampla maioria no Parlamento e contar com uma popularidade muito alta, o agora ex-premiê passou a gerar um clima de desconfiança em toda a Europa. Apesar de seus escândalos sexuais, foi a falta de capacidade de resolver a crise que resultou em sua queda.

Na frente judicial, Berlusconi enfrentou três processos que não lhe deram trégua: o julgamento pelo caso Mills por um suposto caso de corrupção; o processo da Mediaset, por suposta apropriação indevida e fraude fiscal, e o caso da jovem marroquina Ruby, que lhe rendeu uma acusação de estímulo à prostituição de menores e abuso de poder.

Em fevereiro, a Procuradoria de Milão pediu o julgamento imediato de Berlusconi, e até o Vaticano se mostrou ‘preocupado’ com os inúmeros casos de ‘desvio de conduta’ do então primeiro-ministro, retratado quase diariamente nos jornais por conta de suas festas e dos relacionamentos com mulheres mais jovens.

Berlusconi enfrentou toda essa situação amparado na lei do legítimo impedimento, que chegou a ser invalidada parcialmente pelo Tribunal Constitucional. Apesar do respaldo de seu cargo, Berlusconi teve sua imagem arranhada.

As dúvidas que pairavam sobre a Itália e a pressão dos mercados internacionais, incluindo Alemanha e França, obrigaram o governo Berlusconi a aprovar em março um plano de ajuste de 47 bilhões de euros para 2011-2014. Após 15 dias, o Parlamento aprovou o plano de austeridade de 79 bilhões de euros, que poderia permitir uma economia de 32 bilhões adicionais.

Enfrentando uma oposição da Liga Norte por evitar o corte na previdência, o governo de Berlusconi aprovou em 12 de agosto um segundo plano de ajuste de 54 bilhões de euros, que aumentava a taxa do IVA de 20% para 21% e atrasava a idade de aposentadoria das mulheres de 60 para 65 anos.

No entanto, os planos de ajuste aprovados não foram suficientes para acalmar os mercados. No meio do marasmo econômico que se acentuou com o fim do ano, Berlusconi perdeu a maioria na Câmara dos Deputados e se viu obrigado a renunciar ao cargo no dia 12 de novembro.

A chegada do neoliberal Mario Monti, de 68 anos, representa, segundo os analistas, o começo do fim de uma era na política italiana.

Foi o presidente do país, Giorgio Napolitano, de 86 anos, o artífice da gestão da transição política. Sempre de acordo com a UE, Napolitano sugeriu o nome do prestigiado economista para liderar um governo técnico capaz de aplicar as reformas que a Itália precisava.

Em tempo recorde, Mario Monti anunciou um novo plano de ajuste de 30 bilhões de euros, que surge cheio de ‘sacrifícios para os italianos’, com o aumento do IVA em dois pontos percentuais e com o aumento do tempo de cotação para se aposentar.

Monti também congelou as aposentadorias superiores a 960 euros por mês, e manteve a atualização baseada na inflação para outras pensões inferiores. EFE