Crise boliviana pode afetar venda de gás e aumentar migração para o Brasil

Fronteira com cidade do Mato Grosso do Sul completa 20 dias fechada; bloqueio traz prejuízo para o comércio e preocupa moradores

Por Da Redação - Atualizado em 12 nov 2019, 12h42 - Publicado em 12 nov 2019, 12h06

A crise política na Bolívia que levou à renúncia e asilo do ex-presidente Evo Morales no México pode impactar o Brasil a longo prazo, com o aumento da migração boliviana e dificuldades na negociação no setor de gás natural. Os dois países possuem mais de 3.000 quilômetros de fronteira e o vácuo de poder na nação vizinha pode provocar ainda tensões em áreas de divisa.

Morales deixou a Bolívia nesta segunda-feira 11, depois de pedir asilo no México pressionado por opositores, militares e policiais. O ex-presidente anunciou sua renúncia após quase 14 anos no poder, diante da onda de protestos nas últimas semanas após acusações de fraude nas eleições realizadas no último dia 20 de outubro.

Além de Morales, o vice-presidente e os chefes da Câmara dos Deputados e do Senado também abandonaram seus cargos. A senadora da oposição Jeanine Añez reivindicou o direito de assumir a presidência. O Congresso, contudo, deve se reunir nesta terça-feira, 12, para decidir um sucessor ou grupo parlamentar para comandar a nação até a realização de novas eleições.

“Não há governo na Bolívia no momento, o que pode levar a uma situação prolongada de caos”, diz o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel. “Uma piora no cenário pode afetar as estruturas econômicas de exportação gás boliviano para o Brasil”.

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A Petrobras e a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) negociam a distribuição do gás natural boliviano por meio do gasoduto Brasil-Bolívia, o Gasbol. A rede possui mais de 3.000 quilômetros de extensão, dos quais 82% estão instalados no território brasileiro. Um acordo de importação de até 30 milhões de metros cúbicos por dia vence em 31 de dezembro e com a crise no país vizinho sua renegociação deve sofrer atraso.

Segundo Stuenkel, o Brasil não é mais tão dependente do gás boliviano como já foi no passado, mas a crise e o sentimento nacionalista contra a influência estrangeira ainda podem impactar o restabelecimento das importações. A consequência seria o aumento de preço do gás.

“Em 2006, quando Evo Morales nacionalizou os investimentos do Brasil, isso afetava a economia brasileira, mas agora o país é menos dependente”, diz. “Isso fortalece a posição do Brasil na negociação”.

O especialista prevê ainda uma deterioração da imagem da América Latina no exterior. “O que o resto mundo lembrará é que a América Latina está pegando fogo e isso é péssimo para a marca do continente”, diz.

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É esperado que o Brasil, como maior potência da região, trabalhe para estabilizar e resolver as crises em sua vizinhança. Para Stuenkel, contudo, o país ainda não mostrou capacidade para resolver conflitos da natureza política do embate enfrentado pela Bolívia

Para além da importação de gás natural e do impacto econômico, é provável que o Brasil veja um aumento da imigração nos próximos meses. Sem possibilidade de crescimento econômico ou estabilidade política, muitos bolivianos procuram oportunidades de emprego nas grandes cidades brasileiras.

Fronteira

Atualmente, pelo menos dois pontos da fronteira entre Brasil e Bolívia estão bloqueados por manifestantes. A divisa entre a cidade de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e Puerto Quijarro está fechada desde o final de outubro.

A cidade é extremamente dependente dos bolivianos que atravessam para o lado brasileiro em busca de produtos básicos como alimentos, roupas e itens de higiene. Desde o bloqueio, Corumbá registra prejuízos.

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Segundo a Associação Comercial e Industrial do município, a perda é de 300 a 350.000 reais diariamente para o comércio. Além disso, há pelo menos 40 transportadoras internacionais de carga da cidade, com cerca de 2.000 funcionários, paradas.

“Com o dólar alto, vem gente de todo lado da Bolívia fazer compras aqui”, diz o presidente da Associação, Lourival Vieira Costa. “Realmente temos uma dependência financeira e os comerciantes estão cada dia mais desesperados com o fechamento da fronteira”.

A fronteira foi fechada em 22 de outubro por moradores de Puerto Quijarro em protesto contra o resultado das eleições no país vizinho. Segundo funcionários do posto da Receita Federal que fica na fronteira entre os dois países, não há previsão para a reabertura, mesmo após a renúncia de Evo Morales.

“Fomos muito prejudicados, o fluxo de comércio está totalmente parado”, diz Luciana, atendente do Supermercado Atacado Fernandes, no centro da cidade.

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“Estamos muito temerosos com toda a situação da Bolívia. A cidade é sempre pacata e de repente acontece todo esse rebuliço do outro lado da fronteira”, afirma Lúcia de Almeida, secretária em uma loja de pneus.

Além da cidade de Corumbá, a ponte entre Epitaciolândia, no Acre, e Cobija, na Bolívia, está bloqueada há uma semana, em protesto contra Morales.

“Se nenhum governo assumir em breve, pode ficar cada vez mais difícil para a Bolívia conseguir controlar sua área de fronteira”, diz Oliver Stuenkel, da FGV. “A longo prazo pode haver consequências maiores para o Brasil”.

Polarização

A situação no país vizinho aumenta ainda mais a polarização na América Latina e no Brasil. Além da Bolívia, Equador, Chile, Peru e Venezuela passam por conflitos internas que aumentam as divisões e expõem a fragilidade do continente.

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No Chile, protestos que tiveram como estopim o aumento no preço da passagem do metrô levaram a uma crise política que abala o governo de Sebastián Piñera e ao início do processo para uma nova Constituição.

No Equador, uma insurreição embalada pelo fim do subsídio à gasolina fez com que até a sede do governo fosse transferida. No Peru, o presidente dissolveu o Congresso e três ex­-mandatários foram parar na prisão. E a Venezuela, conduzida pelo ditador Nicolás Maduro, virou o cartão­-postal de um drama humanitário.

Já a Argentina, afundada pela pior crise econômica em duas décadas, tenta se restabelecer após a eleição que tirou o poder do liberal Mauricio Macri e o migrou para as mãos, uma vez mais, de peronistas, agora representados por Alberto Fernández e sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, enrolada em seis processos por corrupção.

“Ambos os lados ideológicos buscam aproveitar desse vento para mobilizar suas respectivas bases”, diz Oliver Stuenkel sobre a crise na Bolívia. “Essa situação primeiramente acirra a polarização, também no Brasil”.

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Antes da renúncia de Morales, a Organização dos Estados Americanos (OEA) recomendou a repetição do primeiro turno das eleições em que o ex-presidente foi proclamado vencedor, alegando a ocorrência de diversas fraudes. Logo depois, contudo, os chefes das Forças Armadas e da Polícia pediram publicamente que o líder deixasse o cargo, para colocar fim à onda de violência.

Com a saída do chefe de Estado, seus apoiadores e defensores de ideologias à esquerda passaram a acusar a OEA de protagonizar um golpe e atribuir a ela, via Estados Unidos e seus aliados entre países governados pela direita, Brasil incluído, uma interferência externa na Bolívia.

Por outro lado, grupos da direita usam o exemplo de Morales para atacar a esquerda e o bolivarianismo que impera em alguns países da região.

Nesta segunda, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) ironizou a renúncia do líder boliviano e seu asilo no México. “Lá (no México) a esquerda tomou conta de novo. Tenho um bom país para ele: Cuba”, afirmou Bolsonaro em frente ao Palácio do Alvorada.

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