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Contrariando Trump, senadores debatem fim do apoio à coalizão saudita

Legisladores americanos estão descontentes com forma como presidente vem lidando com o assassinato de jornalista Jamal Khashoggi

Por Redação - Atualizado em 29 nov 2018, 09h25 - Publicado em 29 nov 2018, 09h12

O Senado dos Estados Unidos aprovou nesta quarta-feira, 28, o debate sobre uma moção bipartidária para retirar o apoio americano à coalizão comandada pela Arábia Saudita no Iêmen. A decisão se deve ao descontentamento dos legisladores com a resposta saudita ao assassinato do jornalista Jamal Khashoggi.

A medida representa um grande golpe para a política externa do presidente Donald Trump, que decidiu manter seu apoio a Riad, apesar do escândalo internacional envolvendo a morte de Khashoggi.

O secretário de Estado, Mike Pompeo, e o secretário de Defesa, Jim Mattis, haviam alertado os senadores para que não apoiassem a moção, afirmando que a decisão poderia agravar a crise no Iêmen. Ainda assim, a Câmara Alta aprovou por 63 contra 37 votos a discussão do tema.

Pompeo e Mattis participaram de uma audiência no Senado na quarta a portas fechadas para discutir as informações que o governo de Donald Trump tem sobre a morte do jornalista, assassinado no início de outubro no consulado da Arábia Saudita em Istambul.

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A polícia da Turquia ainda investiga a morte do saudita Khashoggi, cujos restos mortais ainda não foram encontrados. Opositor do regime de seu país, ele vivia exilado nos Estados Unidos.

A CIA concluiu que o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman encomendou o assassinato do jornalista após ter acesso a gravações que registraram o momento do assassinato no consulado saudita. Riad nega qualquer envolvimento do príncipe no caso.

Trump, contudo, rejeitou a versão da agência de inteligência americana, afirmando que os investigadores não apresentaram conclusões firmes. Na semana passada, o republicano disse que Washington permaneceria como um “parceiro firme” da Arábia Saudita, um dos principais fornecedores de petróleo para os Estados Unidos e grande comprador de armas e equipamentos militares americanos.

Riad já mudou seu discurso sobre o ocorrido várias vezes, negando ter conhecimento do local onde o assassinato ocorreu e, depois, atribuindo a morte de Khashoggi a uma “briga”.

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Segundo a última versão da Procuradoria saudita, 15 agentes foram à Turquia para trazer Kashoggi de volta ao país. Mas a operação foi mal executada, e o jornalista acabou maltratado e drogado, antes de ser assassinado e ter seu corpo “desmembrado”.

O que a decisão do Senado significa?

A decisão do Senado de apoiar a moção significa que os legisladores devem continuar a discutir o fim do apoio americano à coalizão da Arábia Saudita no Iêmen na próxima semana.

Segundo a imprensa americana, muitos senadores votaram a favor do debate para mostrar seu descontentamento com a forma como Trump vem lidando com o assassinato de Khashoggi.

Porém, mesmo que o Senado aprove a resolução que determina o fim do suporte americano aos sauditas, é improvável que a medida seja aprovada na Câmara dos Deputados, atualmente comandada pelos republicanos. O partido de Trump já rejeitou decisões similares no passado.

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No ano que vem, contudo, quando os democratas assumirão a maioria na Casa, a resolução pode voltar a ser discutida e aprovada.

O conflito no Iêmen

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos ingressaram no conflito entre os houthis e o governo do Iêmen, com ajuda americana, em 2015.

O objetivo da coalizão, que inclui também países como Kuwait, Qatar e Bahrain, é reinstalar o governo de Abd-Rabbu Mansour Hadi, ameaçado desde a revolta iemenita de 2011.

Os três anos e meio de conflitos entre os rebeldes houtis, apoiados pelo Irã, e as forças do governo, escudadas pela coalizão saudita, destruíram a economia do real país e causaram aumento da inflação e desvalorização da moeda local.

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Dados coletados pela emissora Al Jazeera e pelo Projeto de Estatísticas do Iêmen constataram terem ocorrido 18.000 ataques aéreos no país, com pelo menos um terço dos bombardeios em áreas não militares – cerimônias de casamento e de funerais, escolas e hospitais, usinas de eletricidade e de água foram atacados.

Desde o início da semana, cinco organizações de ajuda internacional vêm apelando ao governo dos Estados Unidos para que suspenda seu apoio militar à coalizão. As entidades insistem que essa medida salvará milhões de vida e que, se não for adotada, Washington será responsabilizado pela maior “epidemia” de fome.

Um comunicado conjunto foi divulgado e assinado pelo Comitê de Resgate Internacional, Oxfam America, Care US, Save de Children e o Conselho Norueguês para os Refugiados.

“Os números no Iêmen são chocantes e têm de ser expostos claramente: 14 milhões de pessoas estão em risco de morrerem de fome no Iêmen se as partes do conflito e os seus apoiadores não mudam de curso imediatamente”, afirmaram as organizações.

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