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Contra desintegração da Ucrânia, Ocidente deve ouvir e falar com a Rússia

Professor da Universidade Warwick defende que países ocidentais testem propostas do Kremlin para o país vizinho, mesmo que elas pareçam cínicas

Por Da Redação 25 abr 2014, 05h28

No início deste mês, o presidente Vladimir Putin anunciou que a gigante estatal russa Gazprom vai começar a exigir pagamento antecipado em um mês pelo fornecimento de gás à Ucrânia. Reagindo à notícia, o jornal britânico The Observer publicou uma caricatura na qual Putin está sentado em um trono de punhais e lanças, cortando o fornecimento de gás da Ucrânia enquanto diz: “O inverno está chegando”. O fundo é vermelho vivo, e no peito de Putin há uma foice e um martelo. Pelo menos para alguns, a Guerra Fria está de volta.

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Mas, antes de mergulharmos em uma II Guerra Fria, seria bom que lembrássemos os motivos de termos nos afundado na primeira. O fim do comunismo acabou com uma das causas principais: o ímpeto expansionista da União Soviética e a determinação das democracias ocidentais de resistir a isso. No entanto, outras razões permanecem até hoje.

O diplomata americano George F. Kennan os identificou como a insegurança neurótica e o secretismo pelo lado russo, e legalismo e moralismo do lado ocidental. Até os dias atuais, um meio termo que considere uma discussão razoável, pesando os interesses, possibilidades e riscos tende a ser uma exceção.

Kennan é reconhecido por ter assentado a base intelectual da Guerra Fria – pelo menos no Ocidente – com seu longo telegrama enviado de Moscou em fevereiro de 1946, que se seguiu ao famoso artigo publicano na revista Foreign Affairs, em julho de 1947, assinado sob o pseudônimo “Mr. X”. Kennan argumentava que a paz duradoura entre o Ocidente capitalista e a Rússia comunista era impossível, devido à combinação da tradicional insegurança russa com a necessidade de Stalin de ter com um inimigo externo e o messianismo comunista.

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Segundo Kennan, a Rússia tentaria derrubar o capitalismo, não por meio de um ataque armado, mas com uma mistura de assédio e subversão. A resposta adequada, nas palavras de Kennan, seriam “contenção” da agressão soviética através da “aplicação hábil e vigilante de uma contra-força”.

Durante a administração do presidente Harry Truman, as autoridades dos EUA interpretaram que as ideias de Kennan demandavam acumular um poderio militar contra uma potencial invasão comunista da Europa Ocidental. Isso deu origem à Doutrina Truman, da qual surgiu a lógica do confronto militar, a Otan e a corrida armamentista.

O rumo desses acontecimentos consternaram Kennan, que alegou que a contenção era para ser econômica e política, não militar. Ele foi um dos principais arquitetos do Plano Marshall pós-II Guerra Mundial e se opôs à criação da Otan.

Após a morte de Stalin, Kennan ansiava por negociações frutíferas com um sistema soviético “abrandado” sob a liderança de Nikita Kruschev. Ele chegou a se arrepender da forma na qual a linguagem ambígua de seu telegrama e do artigo “X” foi colocada, lamentando que as democracias pudessem adotar uma política externa com base apenas em um “nível primitivo de slogans e patriotismo ideológico”.

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Em retrospecto, pode-se perguntar se foi a Otan ou o apoio econômico e político dos EUA que evitou que a Europa Ocidental abraçasse o comunismo. De qualquer forma, ambos os lados se convenceram de que o outro lado representava uma ameaça existencial, e ambos acumularam arsenais colossais para garantir a sua segurança.

Até o colapso da União Soviética, cada breve período de “détente” era seguido de uma nova corrida armamentista. Havia algo de insano em tudo aquilo e fica-se com a sensação inquietante de que a Otan prolongou a vida da União Soviética, entregando-lhe um inimigo pronto para tomar o lugar da Alemanha nazista.

É preciso ter em conta esses antecedentes para compreender a postura atual da Rússia em relação à Ucrânia. Depois de sua “vitória” da Guerra Fria, o Ocidente cometeu um grave erro ao negar à Rússia qualquer forma de hegemonia regional, inclusive em países como a Ucrânia e Geórgia, que em algum momento da história formaram parte do Estado russo.

Em vez disso, sob a bandeira da democracia e dos direitos humanos, o Ocidente fez todo o possível para arrancar as antigas repúblicas soviéticas da órbita da Rússia. Muitas estavam determinadas a resistir à influência do Kremlin, e foi assim que a Otan se expandiu para o Leste, dentro do antigo bloco soviético na Europa Central e inclusive na ex-União Soviética, com a admissão da Estónia, Letônia e Lituânia. Em 1996, já com 92 anos de idade, Kennan advertiu que a expansão da Otan no ex-território soviético era “um erro estratégico de consequências potencialmente desastrosas”.

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Essas pressões ocidentais, sem dúvida, alimentaram a paranoia russa, que hoje se vê refletida nas teorias da conspiração impulsionadas pelo Kremlin em relação à Ucrânia. E, assim como Kennan advertiu contra uma política externa “utópica em suas expectativas, legalista em seu conceito… moralista… e hipócrita,” hoje o objetivo da política ocidental deveria ser encontrar formas de cooperar com a Rússia a fim de impedir a desintegração da Ucrânia.

Isso significa ouvir e falar com os russos. Eles já apresentaram suas ideias para a resolução da crise. Em linhas gerais, propõem uma Ucrânia “neutra” seguindo o modelo da Finlândia – e federada, seguindo o modelo suíço. O primeiro ponto excluiria a adesão à Otan, mas não a admissão na União Europeia. O segundo teria como objetivo garantir a formação de regiões semiautônomas.

Tais propostas podem ser cínicas; também podem ser impraticáveis. Mas o Ocidente deveria apressar-se a testá-las, explorá-las e buscar uma maneira de melhorá-las, em vez de tolher-se em horror moralista às ações Russas.

Suspensa entre a paranoia e o moralismo, a diplomacia sensata tem um trabalho duro pela frente. Mas não deveria ser necessário o aniversário de cem anos da segunda guerra mais sangrenta da história para lembrar nossos estadistas de que eventos menores podem ficar irremediavelmente fora de controle.

Robert Skidelsky, membro da Câmara dos Lordes, é professor emérito de Economia Política na Universidade de Warwick.

© Project Syndicate, 2014

(Tradução: Roseli Honório)

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