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Conheça o perfil de Jean-Claude Duvalier, o ‘Baby Doc’

Ele voltou ao Haiti depois de 25 anos de exílio. Junto com seu pai, o também ditador 'Papa Doc', é parcialmente responsável pelo histórico de miséria no país

Por Da Redação 18 jan 2011, 19h56

As autoridades do Haiti estimam que mais de 100 milhões de dólares foram desviados de obras sociais. Houve dilapidação sistemática das empresas do estado, com uma parte do dinheiro transferida para bancos suíços.

Jean-Claude Duvalier, conhecido pelo apelido de “Baby Doc”, tinha razões de sobra para permanecer bem longe do Haiti durante 25 anos. Ele é considerado, junto com seu pai, François Duvalier (ou “Papa Doc”), responsável pela morte de milhares de opositores e pelo desvio de recursos significativos do país durante 29 anos. Foi protagonista de um regime que governou com mão de ferro, desprezo aos direitos humanos e corrupção.

Há 14 anos, ele foi advertido pelo então presidente haitiano, René Préval, que seria preso se retornasse ao Haiti. Préval foi novamente eleito em 2005 para mais cinco anos de mandato, mas Duvalier parece não ter temido o aviso. Ou então considerou que o atual presidente perdeu muita força política, após as eleições de novembro passado, para consumar a ameaça.

Perfil – O ex-presidente do Haiti – cujo cargo deveria ter sido “vitalício” e “hereditário” como o do pai, se ele não fosse derrubado após um levante popular – nasceu em 3 de julho de 1951, em Porto Príncipe. Aos 19 anos, meio que de surpresa, assumiu o poder, por ocasião da morte de seu pai, o Papa Doc, que governou desde 1957. Daí em diante, perpetuou a ditadura no país mais pobre do continente americano.

A silhueta pesada, a timidez e a dificuldade de elocução do garoto escondiam nele qualquer imagem de um ditador implacável ou mesmo de um tecnocrata terceiro-mundista. Testemunha desde a chegada do pai ao poder, quando tinha sete anos, de todas as intrigas, desgraças, detenções, execuções, bombardeios do palácio e 11 tentativas de golpe de Estado, Jean-Claude, segundo as pessoas mais íntimas, foi profundamente marcado pela violência. Aos 11 anos, saiu ileso de um violento atentado no qual foram mortos três guardas-costas.

Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier em Porto Príncipe, Haiti -1984 VEJA

Dos projetos à queda – Baby Doc tentou uma tímida liberalização. Mas, no fundo, o regime era o mesmo: afastado de um povo jamais consultado democraticamente, submetido ao controle rígido da milícia dos “Tontons macoutes” e vigiado pela velha guarda “duvalerista’, chamada de “os dinossauros”.

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No entanto, mudou a constituição, limpou o exército e afastou os Macoutes, pronunciando em 1977 uma anistia geral, além de criar uma liga haitiana dos direitos do Homem, e propor eleições livres. Mas, segundo seus oponentes, foram apenas concessões à política do então presidente americano Jimmy Carter.

As autoridades do Haiti estimam que mais de 100 milhões de dólares foram desviados de obras sociais durante os governos de Baby e Papa Doc. Houve dilapidação sistemática das empresas do estado, com uma parte do dinheiro transferida para bancos suíços. E, mesmo anos após a queda de Baby Doc, quando o governo da Suíça tentou acelerar a devolução do dinheiro, sobretudo após o terremoto que devastou o Haiti no ano passado, houve resistência, na justiça, da família Duvalier.

Após o casamento com Michele Bennett, rica herdeira protestante e divorciada, saída da burguesia mulata – isto é, símbolo do antigo regime -, Baby Doc freou a liberalização. A imprensa passou a ser controlada e os oponentes, presos.

Em 1986, foi derrubado por uma revolta popular, em parte por pressões dos Estados Unidos. A França aceitou recebê-lo, com sua esposa e seus dois filhos (um garoto e uma garota) de forma temporária. Em 1990, o casal se divorciou. Apesar de queixas por “crimes contra a humanidade” terem sido apresentadas contra ele, o ex-presidente passou a gozar de uma aposentadoria dourada, em amplas mansões da Côte d’Azur, na França, na companhia de sua namorada atual, Veronique Roy.

Após 25 anos de exílio na França Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier retorna ao Haiti VEJA

Retorno – Aos 59 anos, Baby Doc escolheu o primeiro aniversário do terremoto devastador para reaparecer no cenário político do Haiti. “Vim para ajudar”, declarou ele ao chegar a Porto Príncipe onde beijou o solo. O momento é propício: o país passa por um vácuo de poder desde que o resultado de suas eleições presidenciais foi contestado interna e externamente, em novembro passado.

Duvalier é ainda uma personalidade polêmica, mesmo após um quarto de século de ausência. A pergunta que deixa no momento é: o que um ditador, há tanto tempo distante, espera tirar de um país – que passa por uma crise política, um terremoto mal recuperado e uma epidemia de cólera – que ele ainda não tenha tirado?

(Com Agência France-Presse)

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