Clique e assine com até 92% de desconto

Congresso Nacional Africano, um partido multirracial, ao menos na teoria

Por Por Jean Liou 8 jan 2012, 11h13

O Congresso Nacional Africano (CNA, no poder), um grupo multirracial que lutou contra o apartheid na África do Sul, regime que reservava o poder e a riqueza à minoria branca, atrai cada vez mais eleitores, em sua grande maioria negros.

“O Congresso Nacinal Africano é uma organização inter-racial!”, exclama sua coordenadora nacional, Baleka Mbete, lembrando que o novo slogan do partido é “A unidade na diversidade”.

O partido que domina o cenário político sul-africano desde 1994 conta ainda com algumas figuras brancas (especialmente comunistas), mestiças ou indianas, que se uniram na luta pela igualdade de todos os habitantes do país, mas a direção da formação é negra, como pôde ser comprovado na fotografia das pessoas que compareceram à missa de seu centenário, realizada neste domingo em Bloemfontein.

E as novas gerações do CNA são quase exclusivamente negras.

“O CNA está unido à multirracialidade, não há dúvidas disso”, assegura o cientista político Ebrahim Fakir. “Mas é ideal e custa a se materializar”, acrescenta.

Embora o CNA siga dominando a política sul-africana com mais de 60% dos votos, o mapa eleitoral das últimas eleições reproduz fielmente a composição da população, que segue muito dividida geograficamente.

O CNA domina nos municípios onde a maioria da população é negra, enquanto os outros bairros estão controlados pela oposição.

Nas últimas eleições locais, realizadas em maio, as fotos de campanha do CNA eram de representantes negros, ignorando 20% da população do país.

Continua após a publicidade

“O CNA ainda se beneficia de um apoio afetivo e eleitoral dos não africanos (os que não são negros), mas isso cai”, especialmente entre as classes de origem mestiça e indiana, constata Fakir.

A que se deve esta deserção? Fakir cita os casos de corrupção, a falta de carisma da elite do CNA, o enriquecimento exibido pelas novas classes altas negras e a “Emancipação Econômica dos Negros” (BEE), a política que lhes dá prioridade no emprego.

Sem falar, por outro lado, das desconfortáveis declarações de líderes, como o presidente da Liga Árabe do CNA, Julius Malema, que, não satisfeito em criticar regularmente os brancos, que conservaram boa parte do poder econômico, insultou os indianos, ou o porta-voz do governo Jimmy Manyi, que assegurou que existiam muitos mestiços na região da Cidade do Cabo.

Outras tantas razões levaram um grande número de brancos liberais, que se opuseram ao apartheid, a se afastarem do partido.

“Todos podem se unir ao CNA e respeitamos sua cultura”, assegura o porta-voz do partido, Jackson Mthembu. Comemoram o fato de o partido contar com uma grande quantidade de militantes brancos.

No entanto, o ex-deputado Andrew Feinstein constatou que vários de seus companheiros brancos se distanciaram, assim como ele, do partido, desanimados pela corrupção ou por falta de transparência no funcionamento da organização.

“Muitos brancos que abandonaram o CNA não se sentem bem. Não se reconhecem na DA (Aliança Democrática, principal grupo da oposição). Ficaram sem um lar político”, afirmou.

Feinstein também afirma que os dois partidos utilizam a questão racial, acusando-se mutuamente de racismo.

O cientista político Ebrahim Fakir afirma que, se o CNA promover oficialmente uma sociedade multicultural, deve se esforçar para dar mais protagonismo a “representantes de outras raças além da negra em sua direção”.

Continua após a publicidade
Publicidade