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Como o Tribunal de Nuremberg fez nascer uma profissão de heróis invisíveis

Uma interessante exposição revela que os julgamentos criaram um ofício — a interpretação simultânea — sem o qual viveríamos numa babel jurídica

Por Fábio Altman Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
12 mar 2023, 08h00

São raros os momentos, na história da humanidade, talhados a revelar a gênese de uma profissão. Foi o que houve de novembro de 1945 a outubro de 1946, nos dez meses dos Julgamentos de Nuremberg, o tribunal mais relevante do século XX, montado depois da II Guerra para denunciar os crimes da Alemanha nazista. Nasceu ali, em caráter oficial, a interpretação simultânea. O estatuto do Tribunal Militar Internacional previa que os réus teriam direito a ouvir os procedimentos numa língua que pudessem compreender, para garantir o amplo direito de defesa. A exigência impunha um desafio: como realizar interrogatórios e depoimentos nos idiomas das cinco potências envolvidas (inglês, francês e russo, do lado vitorioso; alemão, do lado derrotado) sem que o processo se arrastasse por anos? Essa aventura da civilização é iluminada pela exposição 1 Julgamento 4 Línguas: os Pioneiros da Interpretação Simultânea em Nuremberg, que rodou a Europa e os Estados Unidos e desembarca em 10 de março no Tribunal de Justiça de São Paulo, depois segue para o Rio de Janeiro, organizada pela seção brasileira da Associação Internacional de Intérpretes de Conferência (AIIC) e pela Associação Profissional de Intérpretes de Conferência (Apic).

Antes do seminal evento de Nuremberg, houve tímidas experiências de interpretação simultânea para diversos idiomas ao mesmo tempo — sobretudo porque até a I Guerra Mundial o francês se impunha na diplomacia e quase todos o entendiam. A introdução do inglês mudou o curso do rio. No tribunal de “6 milhões de palavras”, como chegou a ser chamado, dado o volume de informações e a relevância do tema, montou-se um esquema inédito e espetacular diante de 24 acusados. Eram 36 intérpretes divididos em três equipes de doze. Eles se sentaram em cabines, muradas na frente e nas laterais por vidro, mas abertas em cima. Ficavam um pouco acima do chão do plenário, de modo que pudessem ver o rosto de quem falava. A IBM — à sombra das evidências de ter colaborado com os nazistas — ofereceu os microfones e fones aos profissionais, mas também às 600 pessoas que, diariamente, lotavam a galeria. É difícil encontrar uma fotografia do julgamento em que as pessoas estejam sem fones — e os poucos que parecem não portá-los são alemães, em gesto de falso desinteresse ou evidente desrespeito.

Pairava o silêncio de chumbo — e não fosse a compreensão de tudo o que se dizia, de lá para cá, de cá para lá, as barbaridades reveladas soariam como burburinho indecifrável. O escritor americano John dos Passos, designado a acompanhar o tribunal pela revista Life, resumiu a seco o que viu e ouviu. “Quando a promotoria chega aos crimes contra os judeus, os réus congelam num sofrimento atento. A voz da intérprete de alemão acompanha a do promotor, como um eco penetrante de vingança. Através da divisória de vidro, ao lado da área reservada aos prisioneiros, é possível ver o rosto tenso da mulher de cabelos negros que faz a interpretação, a cabeça espremida por reluzentes fones de ouvido. Sua expressão é de horror. Por vezes, sua garganta parece travar, como se ela mal pudesse pronunciar aquelas palavras terríveis. Jackson (o promotor-chefe do tribunal, Robert Jackson) tem a voz de um homem razoável, incrédulo diante dos crimes que descobriu, mas seu eco é o alemão engasgado e estéril da intérprete, cuja fala paira sobre os réus como uma mosca.”

Alguns intérpretes, filhos de seu tempo, desistiram, incapazes de lidar com a dureza da realidade. Um jovem alemão não prosseguiu, e admitiu sentir culpa — ele havia sido tenente das Forças Armadas alemãs durante a guerra. Uma outra profissional, de origem judaica, abandonou o plenário porque não suportou dar voz a acusados que, em suas palavras, foram responsáveis “pela morte de doze dos catorze homens da minha família”. Um dos intérpretes, o alemão radicado nos Estados Unidos Richard Sonnenfeldt, fez o improvável ao dar um pito em Hermann Goering, o comandante da Força Aérea nazista. “Quando eu traduzir as perguntas do coronel para o alemão e suas respostas para o inglês, o senhor deve se calar até que eu tenha terminado. Não interrompa.” Mas nada resume com mais precisão a relevância da interpretação simultânea quanto à reação de Armand Jacobovitch, cujos pais tinham sido assassinados em Auschwitz. Ele tinha todos os motivos do mundo para defender a pena de morte aos culpados, e ajudar a encaminhá-la, com sua atividade. Contudo, era contra. Anos depois, ao resumir o trabalho em Nuremberg, anotou: “A interpretação é um ato de humanidade”. Não por acaso, hoje, em um mundo com uma outra grave pandemia — a de refugiados — há nas relações internacionais a figura do “direito à tradução e interpretação”.

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A exposição que chega agora ao Brasil amplia essa constatação, a da relevância de se fazer entender — e mostra que em tempo de inteligência artificial (IA), de robôs como o badalado ChatGPT, afeito a tudo escrever e sobre tudo palpitar, há uma atividade que parece imune aos evidentes avanços da tradução automática. O Tribunal de Nuremberg não daria o decisivo passo civilizatório que deu se tivesse sido testemunhado pela IA, em babel juridicamente imprecisa, e seria um fracasso não fosse a interpretação simultânea. Pense nisso, nesse espetacular fio da meada, capítulo essencial do conhecimento humano, ao ouvir em português a cerimônia de entrega do Oscar no próximo dia 12 — injusta e severamente criticada.

Publicado em VEJA de 15 de março de 2023, edição nº 2832

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