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Como encontrar um equilíbrio no Oriente Médio

Ameaça do Estado Islâmico do Iraque e do Levante destaca a necessidade urgente de um novo quadro de ação para a região, com diplomacia inovadora

Por Javier Solana 23 jun 2014, 16h37

O recente avanço do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) confirma que, mais de uma década depois do início da Guerra no Iraque, a estabilidade no Oriente Médio permanece no fio da navalha. O EIIL – com seu transnacional comprometimento com um califado abrangendo grandes áreas desde o oeste da Síria à região central do Iraque – reflete a natureza interconectada dos desafios da região, e a ameaça que representa destaca a necessidade urgente de um novo quadro de ação no Oriente Médio.

O EIIL começou como uma afiliada da Al Qaeda, na sequência da invasão americana ao Iraque. Embora tenha sido expulso da Al Qaeda em fevereiro passado, entre outras coisas, por suas táticas excessivamente violentas, o grupo prosperou, encontrando um para sua expansão na desoladora guerra civil que assola a Síria e entre a população sunita iraquiana, que está cada vez mais descontente com o governo xiita do país.

A localização do Iraque na linha divisória entre sunitas e xiitas – cuja rivalidade sectária tornou-se o eixo principal do confronto na região – tem sido uma fonte de instabilidade no país há décadas. A queda do regime de Saddam Hussein resultou em um surto de violência sectária, exceto na região norte do Curdistão, que goza de considerável autonomia vis-à-vis o governo central em Bagdá.

Mas o atual cenário do Iraque é o resultado direto da guerra na vizinha Síria, onde o EIIL é responsável pela morte de milhares de pessoas. Além disso, a ascensão do EIIL terá repercussões muito além das fronteiras iraquianas, uma vez a organização compete com a Al Qaeda pela liderança da jihad global – uma competição que envolverá, sem dúvida, esforços violentos dos dois lados para demonstrar sua boa fé antiocidental.

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A ascensão do EIIL sublinha a necessidade urgente de uma diplomacia inovadora e criativa na Síria, capaz de superar o impasse da guerra tanto no campo de batalha quanto nas mesas de negociação – um desafio que se agravou com a recente vitória eleitoral do presidente sírio Bashar Assad. Novos parâmetros de negociação também são necessários para resolver o conflito no Iraque, chegar a um acordo de paz entre Israel e a Palestina e, em última análise, estabelecer um equilíbrio de poder no Oriente Médio que reconcilie a influência da Arábia Saudita sunita e do Irã xiita.

A relutância dos Estados Unidos em usar um tipo de diplomacia “coercitiva” como fez no passado torna tal quadro de ação ainda mais urgente – e também mais difícil – uma vez que isso muda a forma como os atores regionais veem os EUA. Pra começar, os países ocidentais decidiram não intervir diretamente na Síria, especialmente depois da exposição oficial do uso de armas químicas pelo governo Bashar Assad, enfraqueceu a confiança nos Estados Unidos entre seus aliados tradicionais, particularmente a Arábia Saudita.

Além disso, a Arábia Saudita, juntamente com outros países sunitas, duvida da capacidade de negociação com o Irã, temendo uma normalização das relações entre os Estados Unidos o seu rival regional. E o fracasso da mais recente rodada das conversações de paz entre Israel e Palestina, liderada pelo secretário de Estado americano John Kerry, revelou a incapacidade dos Estados Unidos em comandar sozinho o processo de paz. (Continue lendo o artigo)

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Obviamente, os EUA não têm como estabilizar o Oriente Médio sem ajuda externa; isso requer o compromisso de uma variedade de atores. O ex-ministro israelense Shlomo Ben Ami recentemente propôs um novo modelo de negociações de paz para israelenses e palestinos, no qual a participação de atores como a União Europeia, a Rússia e os principais países árabes facilitariam o surgimento de uma solução verdadeiramente internacional. Esse paradigma deve ser ampliado para as negociações de Genebra sobre a guerra civil na Síria, com países como Arábia Saudita, Irã, Turquia e Egito assumindo um papel maior.

É claro que envolver as potências regionais pode complicar ainda mais um processo de negociações já nebuloso. O objetivo deve ser, portanto, de clareza e equilíbrio. Somente através de um processo de negociação equilibrado, guiado pelos principais atores regionais e globais, um equilíbrio de poder estável pode ser alcançado no Oriente Médio. Se o equilíbrio de poder regional não for incluído nas negociações, qualquer conflito futuro – não importa o quão pequeno seja – poderá espalhar-se rapidamente, com consequências inimagináveis.

Um quadro abrangente para a resolução de conflitos na Síria hoje é particularmente crucial porque isso criaria um precedente para a cooperação entre as potências regionais, especialmente entre o Irã e a Arábia Saudita. Negociações internacionais com o Irã sobre seu programa nuclear deram algumas razões para otimismo, que poderiam servir como um impulso às discussões sobre a Síria. Mas, novamente, o sucesso somente existirá através do envolvimento dos principais atores regionais e internacionais.

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Embora seja verdade que as grandes potências têm seus próprios problemas – das preocupações da Europa em relação à nova política externa da Rússia, às disputas territoriais da China nos mares Oriental e do Sul – é de interesse dessas potências desempenhar um papel ativo na resolução dos problemas crônicos de instabilidade no Oriente Médio. Afinal, a desordem nessa região representa uma séria ameaça à segurança, com a Europa devido à sua proximidade geográfica, e países como a Índia e a China enfrentando a possibilidade de ruptura do suprimento de energia.

O Oriente Médio tem sido há muito tempo uma fonte de volatilidade e violência. Com uma abordagem nova e criativa e um compromisso firme dos principais países do mundo, um equilíbrio de poder regional pode e deve ser alcançado de uma vez por todas.

Javier Solana foi alto representante da União Europeia para a Política de Segurança e Negócios Estrangeiros, secretário-geral da Otan e ministro das Relações Exteriores da Espanha. Atualmente, é presidente do Centro Esade para a Economia Global e Geopolítica e membro do Brookings Institution.

© Project Syndicate, 2014

(Tradução: Roseli Honório)

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