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Como contar uma revolução através da arte

Enrique Rubio.

Cairo, 25 jan (EFE).- A Revolução de Janeiro de 2011 deixou marcas profundas na cultura do Egito, mas essa nova expressão artística tenta ainda definir um caminho à margem do mero reflexo documental dos 18 dias que mudaram a história do país.

A Primavera Árabe teve um efeito imediato nas artes e rara é a semana em que não se inaugura no Cairo uma nova exposição vinculada, direta ou indiretamente, ao novo panorama aberto no Egito há um ano, com a queda de Hosni Mubarak.

Esta explosão criativa responde, segundo os próprios artistas, a uma atmosfera muito mais livre que sob o regime de Mubarak, embora alguns vejam na previsível futura hegemonia islâmica uma ameaça a esta liberdade de expressão.

O turbilhão da revolução e a transição complicada deixaram pouco espaço para digerir uma mudança tão fundamental em tão pouco tempo.

Até o momento, a documentação dos fatos e o trabalho de tabeliães de uma nova realidade se sobressaem mais que uma indagação artística que vá além do relato factual.

Pouco a pouco, isso começa a mudar. Um dos artistas egípcios que acabam de estrear uma exposição é Khaled Hafez, de 48 anos, que em ‘Sobre Códigos, Símbolos e a Síndrome de Estocolmo’ procura ‘a metáfora além da literalidade’, segundo afirmou à Agência Efe em entrevista.

‘Logo depois da revolução, caí na armadilha de fazer representações literais, das tendas de campanha, dos policiais… usando colagens com as imagens da mídia’, declarou.

‘Gradualmente, de acordo com a mudança da situação política ao longo do ano, me dei conta que minhas opiniões também tinham mudado. Dei um passo atrás para tomar distância e observar minha arte e a situação atual’, comentou.

Fruto dessa reflexão, a exposição utiliza símbolos populares da cultura egípcia, como a cantora Um Kulzum, para analisar a síndrome de Estocolmo da qual, segundo sua opinião, sofreram os egípcios que relativizaram a perversão do antigo regime que os ‘sequestrou’ perante o temor à nova onda islâmica.

O que não significa, especificou Hafez, que a revolução não tenha sido ‘fantástica, porque trouxe uma mudança que era imprescindível’.

Já a artista egípcia Shayma Kamel considerou que, após um ano, já teve tempo suficiente para transferir seus pensamentos. Seus quadros, expostos na galeria Mashrabia, têm formas caricaturais de animais como burros, águias e hipopótamos que representam a classe política, que vive na ilusão de que controla o povo.

‘É um senso de humor que sai da revolução’, confessou Kamel, ao mesmo tempo que manifestou sua dificuldade para entender a persistência dos militares em manter-se no poder no Egito.

Um sentimento comum entre os artistas é a incerteza perante o rumo que tomarão as futuras autoridades egípcias, encarnadas na grande maioria parlamentar da Irmandade Muçulmana. ‘Não fizemos a revolução para ir para trás’, frisou Kamel.

De maneira similar, Hafez, que expôs suas obras em várias partes do mundo, se mostrou nostálgico e acredita que nos anos 1960 e 1970 ‘os egípcios valorizavam a vida, mas agora parece que valorizam a vida no além’.

Apesar desses temores, os artistas tiveram um papel importante na queda de Mubarak e parecem decididos a seguir para acabar com a presença dos militares na política.

O jovem artista Ahmed Sabry, de 30 anos, criou um videogame chamado ‘Nej’, no qual os revolucionários combatem camelos que, no meio da revolta contra Mubarak, chegaram à praça Tahrir para semear o pânico entre os manifestantes. No entanto, neste peculiar videogame ninguém ganha nunca.

‘A luta ainda continua, não terminou’, explicou Sabry para justificar que nem os camelos, que simbolizam o antigo regime, nem os egípcios podem obter a vitória no jogo.

No que os artistas egípcios concordam é que o futuro está aos seus pés: ‘No futuro próximo haverá mais interesse por parte de curadores e instituições internacionais para explorar o que os artistas egípcios estão fazendo agora’, reforçou Hafez. EFE