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Começam negociações históricas de paz sobre o Afeganistão

Governo afegão e UE pediram um 'cessar-fogo humanitário' imediato, mas governo americano garantiu que trégua será consequência das conversas

Por Da Redação 12 set 2020, 12h52

O governo do Afeganistão e o Talibã iniciaram neste sábado, 12, em Doha, na presença do secretário de Estado americano Mike Pompeo, negociações históricas de paz que se anunciam difíceis dadas as profundas divergências entre os dois lados.

O chefe da diplomacia do Catar, xeque Mohammed ben Abderrahman Al Thani, presidiu a abertura das negociações, que acontecem em um grande hotel de Doha, na presença do emissário dos Estados Unidos para o Afeganistão, Zalmay Khalilzad.

No início da cerimônia, o negociador do governo afegão, Abdullah Abdullah, pediu um “cessar-fogo humanitário”. “Temos que acabar com a violência e conseguir um cessar fogo o mais rápido possível”, disse Abdullah, um ex-ministro que preside o Conselho para a Reconciliação Nacional.

A reivindicação foi apoiada pela União Europeia (UE), que pediu o fim “imediato e incondicional” dos combates. Khalilzad afirmou em uma entrevista coletiva, no entanto, que as negociações “conduzirão” a um cessar-fogo, que não é um preâmbulo para as negociações.

Pompeo fez um apelo para que o governo afegão e os talibãs “aproveitem a oportunidade” de alcançar um acordo para as futuras gerações, após 19 anos de guerra no Afeganistão.

As negociações foram adiadas por seis meses devido a profundas divergências sobre uma polêmica troca de prisioneiros entre os rebeldes e o governo. As conversações começam um dia depois do 19º aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001, que provocaram a intervenção internacional liderada pelos Estados Unidos que expulsou os talibãs do poder no Afeganistão.

As partes devem encontrar uma forma de “fazer avançar o país para reduzir a violência e satisfazer as demandas dos afegãos: um país reconciliado com um governo que reflita uma nação que não está em guerra”, afirmou Pompeou na sexta-feira.

Objetivos inconciliáveis

As negociações acontecem no mesmo hotel de luxo que foi cenário da assinatura de um acordo histórico entre o governo dos Estados Unidos e os talibãs em fevereiro, o que abriu a porta para as atuais negociações. Este acordo confirmou a saída das forças estrangeiras do Afeganistão até meados de 2021, em  troca de garantias talibãs ambíguas, entre elas a celebração deste “diálogo interafegão”.

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A retirada acontecerá antes do mês de abril, afirmou Khalilzad. Atualmente, 8.600 militares americanos estão no Afeganistão e o número deve ser reduzido a 4.500 até o fim de novembro.

O presidente americano, Donald Trump, que disputará a reeleição em novembro, está determinado a acabar com a guerra mais longa da história dos Estados Unidos. Mas uma solução rápida parece improvável e não é possível projetar o tempo de duração das negociações.

A primeira reunião foi “muito positiva”, destacou Habiba Sarabi, uma das quatro mulheres dos 21 negociadores governamentais. Não há mulheres entre os negociadores talibãs.

Os insurgentes reiteraram o desejo de instaurar um sistema no qual a lei seja consistente com um islã rigoroso e não reconheça o governo de Cabul, que chamam de “fantoche” de Washington. “Quero que todos levem o islã em consideração nas negociações e que o islã não seja sacrificado a interesses pessoais”, reiterou neste sábado Abdul Ghani Baradar, líder político dos insurgentes afegãos, que destacou o desejo de um “sistema islâmico” no Afeganistão.

O governo do presidente Ashraf Ghani insiste em manter a jovem república e sua Constituição, que inclui muitos direitos, em particular para as minorias religiosas e as mulheres, as grandes perdedoras de um eventual retorno das práticas que vigoravam na época do governo talibã.

  • Uma guerra violenta

    “O apoio político e financeiro da União Europeia ao Afeganistão estará condicionado ao respeito de princípios chave, que são os direitos humanos, os direitos da mulher e a garantia de instituições republicanas”, afirmou o ministério francês das Relações Exteriores em um comunicado.

    A guerra afegã provocou dezenas de milhares de mortes, incluindo 2.400 soldados americanos, obrigou a fuga de milhões de pessoas e custou a Washington mais de um trilhão de dólares. Muitos afegãos temem o retorno ao poder, parcial ou total, dos talibãs, que abrigaram a rede terrorista Al-Qaeda antes de 11 de setembro de 2001.

    Os talibãs estão em uma posição de força desde a assinatura do acordo com os Estados Unidos, que conseguiram alcançar com sua incessante guerrilha. Os insurgentes controlam metade do território afegão.

    (Com AFP)

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