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Com ausência de Chávez, discurso bolivariano perde força

Nenhum dos aliados venezuelanos reúne as características do caudilho para insuflar o movimento. Questões internas também devem exigir mais atenção

Por Cecília Araújo e Gabriela Loureiro - 20 jan 2013, 16h08

Ao longo de seus 14 anos no poder, Hugo Chávez se esforçou para ampliar o alcance de sua ‘revolução bolivariana’ para outros países da América Latina. O processo de convencimento foi financiado pelos petrodólares e barris de petróleo distribuídos pela Venezuela a países aliados. Alguns dos que se alinharam à cartilha do caudilho se apresentam como herdeiros de seu legado, mas não têm as características que tornaram Chávez a tradução do movimento.

“Não há um líder latino-americano com a visão, o carisma, a capacidade de liderança e os recursos financeiros necessários para efetivamente substituir Chávez. Os remanescentes do movimento bolivariano podem continuar a viver, mas a morte de Chávez significa a morte efetiva do movimento bolivariano como uma força de destaque na região”, avalia Mark Jones, professor de ciências políticas da Universidade Rice, no Texas.

A combinação do carisma de Chávez com a distribuição de benesses, expropriação de empresas, perseguição a dissidentes e sufocamento da imprensa independente pavimentaram o caminho do bolivarianismo pela América Latina. Chávez instituiu um sistema na Venezuela que promove eleições diretas, mas usa indiscriminadamente a máquina a favor do chavismo e ignora resultados desfavoráveis, com manobras para revertê-los a favor do governo.

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Entre os seguidores mais proeminentes estão Rafael Correa, do Equador, e Evo Morales, da Bolívia. A proximidade entre Chávez e os irmãos Fidel e Raúl Castro também é notável e justificável pelo financiamento venezuelano a Cuba – enquanto o socialismo da ilha serve de inspiração declarada para o caudilho. Nenhum dos aliados deve ter força para dar sequência à campanha pró-bolivarianismo na região. “Assim como Chávez, Correa é um crítico ferrenho dos Estados Unidos e defensor descarado do governo castrista em Cuba. No entanto, sua figura está longe de ter o mesmo impacto que a de Chávez na região, enquanto os irmãos Castro estão muito ocupados com a transição cubana”, diz Eric Farnsworth, vice-presidente da Washington Office of Americas Society/Council of the Americas.

Obstáculos internos – Se regionalmente não há uma figura que atenda aos requisitos necessários para manter o legado da ‘revolução bolivariana’, o sucessor de Chávez na Venezuela também terá dificuldades de dar continuidade ao modelo imposto pelo coronel. Um dos entraves deverá ser a economia, que demandará mais atenção internamente do que os repasses aos aliados regionais. “Provavelmente, a assistência estrangeira ilimitada para os países amigos terá que acabar ou pelo menos ser abrandada. E isso fará com que seja mais difícil para esses aliados seguirem a Venezuela de forma acrítica, como vêm fazendo”, avalia Farnsworth.

Para Mark Jones, mesmo os problemas de saúde de Chávez já vinham enfraquecendo o movimento bolivariano na América Latina. “A necessidade de Chávez de concentrar sua energia e atenção em sua própria saúde, ao mesmo tempo em que a economia venezuelana se enfraquece mais e mais, reduziu significativamente a sua capacidade de apoiar o movimento bolivariano para além das fronteiras da Venezuela”.

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Discurso fantasma – Outro problema é a ausência física de Chávez na Venezuela, que obriga o vice, Nicolás Maduro, a sempre pontuar que o comando ainda está nas mãos do coronel, mesmo a distância – uma tentativa de convencer o mundo e, principalmente, os venezuelanos. A celebração do “juramento simbólico” em Caracas, no dia 10, começou com uma gravação da voz do ditador cantando o hino nacional. “Presidentes amigos“, como foram classificados por Maduro, acompanharam o evento: Morales, Daniel Ortega, da Nicarágua, e José Mujica, do Uruguai. Por enquanto (e não se sabe por quanto tempo), o chavismo tenta passar a impressão de que Chávez está atento a tudo, a par de tudo, mesmo internado em Havana, enfrentando um complicado período pós-operatório depois de submeter-se a quarta cirurgia para combater um câncer.

Para os possíveis sucessores, imitar o estilo de Chávez é muito difícil. O professor Ricardo Gualda, estudioso da estratégia de comunicação do coronel, destaca que Chávez construiu um discurso radical antielitista muito didático e muito emotivo, direcionado a grupos específicos. Essa fórmula foi repetida incessantemente ao longo dos anos. “O Chávez aparece muito. Ele entra em cadeia nacional o tempo inteiro e fala durante horas, tem uma estratégia de comunicação bastante presente na vida das pessoas. Ele entende muito bem o público dele”.

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