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Colômbia: Santos dissolve agência de inteligência e se afasta de Uribe

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, dissolveu a agência de inteligência DAS, acusada de crimes graves, e restabeleceu o Ministério do Trabalho, distanciando-se ainda mais de seu antecessor, Álvaro Uribe.

“O país sabe muito bem as razões pelas quais decidimos tomar essa decisão”, disse o presidente Santos ao anunciar na noite de segunda-feira a eliminação do órgão. “Não é uma transformação, não é uma reforma. No caso do DAS, é uma liquidação. O DAS será suprimido”, enfatizou o presidente.

O DAS se viu envolvido sob o governo de Uribe (2002-2010) em escândalos pela infiltração das milícias paramilitares.

Um de seus ex-diretores, Jorge Noguera, foi condenado por homicídio e cumplicidade com esses grupos de extrema direita, que se desmobilizaram entre 2003 e 2006, e o ex-vice-diretor José Miguel Narváez, também é acusado de homicídio.

Além disso, o ex-secretário da presidência de Uribe, Bernardo Moreno, encontra-se em prisão preventiva e a ex-diretora do DAS María del Pilar Hurtado é processada pela Justiça e está exilada no Panamá, por um escândalo de escutas ilegais contra juízes da Suprema Corte de Justiça, opositores e jornalistas que investigam ligações de políticos com paramilitares.

A comissão de acusações do Congresso iniciou em outubro de 2010 uma investigação para determinar eventuais responsabilidades na espionagem de Uribe, que nega tê-la ordenado.

Devido a este escândalo, o DAS deixou de receber cooperação técnica dos Estados Unidos há um ano.

As práticas criminosas do DAS, fundado na década de 1950, são muito anteriores à gestão de Uribe. Um ex-diretor, o general Miguel Maza Márquez, foi preso pelo assassinato em 1989 do ex-candidato liberal Luiz Carlos Galán, assassinado por pistoleiros do narcotráfico.

“Ao longo de sua história, o DAS foi usado como um aparato da polícia política, mais que um organismo de segurança, e em alguns momentos, como durante o governo do ex-presidente Uribe, inclusive como aparato crimonoso”, disse nesta terça-feira o parlamentar de esquerda Iván Cepeda.

“Esse órgão desenvolveu uma perseguição que incluía antentados criminosos, e que compromete o ex-presidente Uribe”, afirmou esse congressista à AFP.

De acordo com a lei de inteligência que já foi aprovada no Congresso e é avaliada atualmente pela Corte Constitucional, o DAS (Departamento Administrativo de Segurança) será substituído por uma nova agência de inteligência, que começará a funcionar em 2012 sob maiores controles e não poderá realizar interceptações sem uma ordem judicial.

Para o cientista político Fernando Giraldo, com a liquidação do DAS, assim como com o restabelecimento na segunda-feira de um Ministério do Trabalho, que o presidente encarregou ao presidente do Partido Liberal, Rafael Pardo, Santos marca uma maior distância de Uribe.

“Santos vai se afastando cada vez mais de Uribe, que se saiu muito mal nas eleições regionais”, disse Giraldo à AFP, ao lembrar que os principais candidatos apoiados pelo ex-presidente perderam.

Uribe atacou nesta terça-feira o governo Santos e o responsabilizou pelos maus resultados eleitorais do Partido Social de Unidade Nacional, fundado pelo atual presidente para impulsionar a reeleição de seu predecessor, de quem foi ministro da Defesa.

“Há uma preocupação crescente entre os cidadãos com o governo afastado, inativo, com um governo de propaganda, com a desmotivação das Forças Armadas, com uma política de segurança que dá sinais de deterioração. Então, a nós nos resta fazer campanha com um governo que dá sinais de hostilidade”, declarou Uribe a uma rádio colombiana, ao explicar seus maus resultados eleitorais.

Giraldo completou que “Santos continua pelo caminho de consolidar e favorecer o Partido Liberal, e nomeia Pardo como ministro”, decisão que Uribe também classificou como “hipócrata”.

As duas medidas respondem às prioridades do governo de Santos, de busca de transparência e de maior ênfase nos temas sociais, enquanto “atende requerimentos do governo dos Estados Unidos”, declarou.

Restabelecer o ministério do Trabalho, eliminado em 2002, no início do governo de Uribe, “faz parte dos compromissos que Santos assumiu com (o presidente Barack) Obama para a ratificação do tratado de livre comércio”, lembrou Giraldo. “Acabar com um órgão tão questionado como o DAS, também”, afirmou Giraldo, em alusão ao tratado que acaba de ser ratiicado pelo Congresso dos Estados Unidos.