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Cinco revelações do novo livro de memórias de Hunter Biden

Filho do presidente dos Estados Unidos tem passado conturbado, com perdas familiares e histórico de dependência de drogas e álcool

Por Julia Braun Atualizado em 7 abr 2021, 16h41 - Publicado em 7 abr 2021, 12h24

Hunter Biden, único filho vivo do primeiro casamento do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, tem um passado tumultuado. Alvo frequente da ira dos conservadores por seus negócios no leste europeu, o advogado de 51 anos luta contra um vício em drogas e álcool, foi dispensado da Reserva da Marinha em 2014 após um teste positivo para cocaína e passou por um período sombrio após a morte do irmão mais velho.

Em seu novo livro de memórias, “Beautiful Things”, lançado pela editora Simon & Schuster’s Gallery Books nos Estados Unidos nesta terça-feira 6, Hunter narrou algumas de suas experiências em detalhes.

Acidente de carro

Um dos episódios narrados pelo filho do presidente dos Estados Unidos é o acidente de carro ao qual ele e o irmão Beau sobreviveram em dezembro de 1972. Na batida de carro, semanas depois de seu pai ser eleito senador por Delaware, sua mãe, Neilia, e irmã mais nova, de apenas 1 ano, morreram.

Apesar de ter menos de 3 anos de idade no dia do acidente, Hunter afirma ter um “flash único de memória” da cena. Ele e Beau estavam sentados no banco de trás do carro, enquanto sua mãe dirigia e a irmã mais nova dormia em uma cadeirinha no banco da frente, quando um trator bateu na lateral do veículo.

Biden, Nelia e filho Hunter em festa de aniversário do democrata em Wilmington - 20/11/1972
Biden, Neilia e filho Hunter em festa de aniversário do democrata em Wilmington – 20/11/1972 Bettmann / Colaborador/Getty Images

“De repente, vejo a cabeça de minha mãe virar para a direita”, escreve ele. “Não me lembro de mais nada sobre seu perfil: o olhar, a expressão de sua boca. A cabeça só balança”, acrescenta em sua história.

“Não vejo aquele momento trágico como resultando nos comportamentos que levaram ao vício. Isso seria uma desculpa”, admitiu.

Ucrânia

Hunter tornou-se um foco regular dos ataques de Donald Trump durante a campanha eleitoral do pai por seus negócios na Ucrânia. O advogado foi membro do conselho diretor da empresa ucraniana de energia Burisma entre 2014 e 2019, e aceitou o emprego durante o mandato de seu pai como vice-presidente.

O caso despertou acusações de conflito de interesses, já que o governo americano na época trabalhava com as autoridades ucranianas para acabar com a corrupção no país. A própria Burisma era alvo de uma investigação e Trump acusou Joe Biden de usar sua posição política para que um promotor ucraniano fosse destituído do cargo e o processo paralisado.

As alegações do ex-presidente republicano nunca foram confirmadas. No livro, Hunter insiste que não fez “nada antiético” e contesta as alegações de que mostrou falta de discernimento ao participar do conselho da empresa de energia ucraniana.

Apesar disso, afirma que não aceitaria o emprego novamente, diante das alegações de conflitos de interesse. Em uma entrevista à emissora BBC para divulgar o livro, Hunter chegou inclusive a admitir que provavelmente foi recrutado para o conselho porque consideravam seu nome “ouro”.

Vício

Hunter ainda trata de forma extensa sobre seu alcoolismo e vício em drogas. Ele relata ter bebido sua primeira taça de champanhe aos 8 anos, escondido dos pais durante uma festa. Ele passou a consumir bebidas alcoólicas com mais frequência a partir dos 14 anos.

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Ele afirma que a bebida “parecia resolver todas as perguntas não respondidas sobre porque me sentia da maneira que me sentia”. Aos 18 anos, foi preso por posse de cocaína e em 2014 foi dispensado da Reserva da Marinha em 2014 após um teste positivo para a droga.

O advogado chegou a ganhar 50.000 dólares (282.160 reais) por mês na Burisma, mas queimava tudo nos seus vícios. Quando vivia em Washington, convidou um sem-teto para ir morar com ele em seu apartamento após comprar crack. “A relação era simbiótica”, escreve. “Eram dois viciados em crack que não conseguiam soltar um saco de papel. Uma paródia de crack em um ato.”

O único filho vivo do presidente também detalha um incidente em 2016, quando ele foi procurar drogas em um acampamento de moradores de rua em Los Angeles. “Passei e rodei as pessoas amontoadas em finos pedaços de papelão. Atrás delas, notei uma tenda inclinada sem luz. Estava completamente escuro. Tudo o que vi foi a arma apontada para meu rosto”, escreve ele.

Hunter passou por várias clínicas de reabilitação. Após a primeira vez que se internou de forma voluntária, aos 33 anos, conseguiu se manter sóbrio por alguns anos, mas logo voltou a beber e usar drogas. “Uma vez fiquei 13 dias sem dormir, fumando crack e bebendo vodca o tempo todo”, disse

Em 2019, em um dos piores momentos de seu vício em crack, sua família tentou convencê-lo a se internar mais uma vez, mas Hunter fugiu para um aeroporto e viajou para a Califórnia. Lá conheceu a atual esposa Melissa, por quem se apaixonou e se casou apenas 7 dias depois. Ele afirma que ela o ajudou em sua recuperação e em sua segunda passagem pela reabilitação.

Morte do irmão

Hunter ainda trata da morte do irmão Beau, em 2015, após um câncer cerebral. O ex-procurador de Delaware era o filho pródigo da família e tinha um futuro promissor na política. O título do livro, “Beautiful Things”, é inspirado em um mantra que Beau costumava seguir.

A obra foca no diagnóstico e os vários tratamentos que a família buscou. Hunter afirma que, se pudesse voltar atrás, não concordaria em submeter o irmão à maioria dos tratamentos, que o fizeram sofrer muito.

Nas últimas semanas da vida de Beau, Hunter conta que teve que ajudar seu irmão a usar o banheiro e tomar banho. Ele diz que eles falaram pouco sobre questões práticas, como o que fazer em caso de morte. Em vez disso, discutiram a candidatura de Beau anteriormente anunciada para o governo de Delaware, que ele esperava retomar após se curar. “A política está na corrente sanguínea dos Biden”, escreveu.

Hunter relata que a morte de Beau o abalou de tal forma que a maneira que encontrou de afogar sua dor foi mantendo uma relação com a cunhada. Ele e Hallie, a viúva de Beau, mantiveram uma relação amorosa porque, segundo ele, precisavam continuar acreditando que seu irmão estava por perto. “Estava tratando loucamente de me aferrar a um pedaço do meu irmão, e acho que Hallie estava fazendo o mesmo”, escreveu.

Relação com o pai e política

Joe e Hunter Biden assistem a jogo de basquete universitário nos Estados Unidos - 30/01/2010
Joe e Hunter Biden assistem a jogo de basquete universitário nos Estados Unidos – 30/01/2010 Mitchell Layton/Getty Images

Hunter ainda dedica boa parte da obra ao apoio que recebeu de sua família em sua recuperação, em especial de Joe Biden. Ele diz que não teme magoar seu pai a ponto de perder seu amor, mas está totalmente consciente do “imenso dano” que causou a ele e aos que o amam.

No final do livro, Hunter Biden ainda menciona uma entrevista à rádio NPR na qual declarou que a principal e verdadeira razão que o levou a escrever essa autobiografia foi “dar esperança às pessoas e lhes dizer que há luz, que não precisam permanecer trancadas nessa prisão [do vício]”.

Hunter ainda insiste que ele é diferente de outros filhos de políticos famosos, mas diz é difícil imaginar um futuro em que ele não concorra a um cargo público.

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