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‘Chineses estão atentos se produtos são sustentáveis’, diz embaixador

Representante da China no Brasil, Yang Wanming afirma que país está atento às práticas ambientais do agronegócio nacional

Por Ernesto Neves Atualizado em 10 nov 2021, 11h02 - Publicado em 8 nov 2021, 08h03

Principal beneficiada pela globalização, a China experimentou nos últimos 30 anos formidável crescimento econômico. Mais de 900 milhões de pessoas deixaram a pobreza para ingressar na classe média, formando hoje o mais robusto mercado consumidor do planeta. O resultado de tamanha ascensão, porém, tem preço elevado. O país tornou-se maior emissor de dióxido de carbono (CO2) do mundo, o principal gás do efeito estufa.

Não à toa, a China ocupa posição central nas discussões que movem a COP26, a Cúpula Climática da ONU que acontece em Glasgow, na Escócia. Segundo o embaixador do país no Brasil, Yang Wanming, a China exerce hoje papel de liderança na transição para uma economia verde. Ele manda ainda um recado aos exportadores brasileiros: consumidores e o governo chinês vão exibir sustentabilidade dos produtos que compram.

O chanceler da China, Wang Yi, e do Brasil, Carlos França, estiveram reunidos recentemente. Sobre o que discutiram? 

A China acertou a continuidade do fornecimento de vacinas e do IFA ao Brasil, assim como a realização de parcerias em pesquisa, desenvolvimento e produção de vacinas, até que o Brasil possa vencer a pandemia. A China está disposta a importar do Brasil mais produtos agrícolas , ampliar o intercâmbio e a cooperação em áreas como tecnologia, satélites e cultura.

E fortalecer a cooperação financeira e realizar cooperações em setores emergentes como economia digital, agricultura inteligente e cidades inteligentes. No período pós-pandemia, a cooperação em sustentabilidade, inovação, ciência e tecnologia certamente dará mais ímpeto à parceria sino-brasileira.

Em 2022, a China assumirá a presidência do BRICS. E trabalhará para implementar os consensos dos líderes dos BRICS, combater a politização da pandemia, a estigmatização do vírus e a instrumentalização do rastreio de suas origens, levando adiante o mecanismo BRICS de forma estável, sólida e de longo prazo.

Olhando para o futuro pós-pandemia, que mudanças haverá na política externa da China?

O presidente Xi Jinping liderou a prática de uma nova diplomacia com caraterísticas chinesas, apresentando uma série de ideias e iniciativas novas e pioneiras da diplomacia.

A China vai persistir no desenvolvimento pacífico. A política externa da China é pautada na independência, na autonomia e na paz, tanto que a China foi o primeiro país do mundo a incluir a manutenção da paz mundial em sua Constituição.

Independentemente do seu grau de desenvolvimento, a China jamais buscará hegemonia ou expansão. Sempre persistiu num caminho de desenvolvimento pacífico diferente da ascensão das potências tradicionais, além de interagir, de forma proativa, com outros países do mundo em busca de benefícios mútuos e ganho para todos.

Fazenda de produção de energia solar em Dunhuang, na China: país é líder em investimentos no setor
Fazenda de produção de energia solar em Dunhuang, na China: país é líder em investimentos no setor Lintao Zhang/Getty Images

Como a China pode ajudar o Brasil na transição para a economia de baixo carbono?

A China prioriza a descarbonização de sua economia e apresenta vantagens significativas na pesquisa e aplicação de tecnologia, e no investimento com financiamento verde. Atualmente, o país é o maior investidor mundial em energias renováveis e o maior fabricante de equipamentos de energias limpas.

Tem o maior sistema de geração de energia com carvão limpo e também é campeão na soma de capacidade de geração de fontes hídrica, eólica e fotovoltaica. Além disso, metade da frota mundial de veículos movidos a novas energias circula na China, que responde também por metade das novas aquisições desses carros. A China vai acelerar a otimização da estrutura industrial e da matriz energética, conforme os conceitos verde e de baixo carbono.

China e o Brasil enfrentam a missão comum de articular o crescimento econômico com a proteção ambiental e têm, portanto, amplas perspectivas de cooperação no processo de descarbonização. Nestes últimos anos, cada vez mais empresas chinesas estão investindo em projetos de energia limpa, com uma participação ativa e contribuição positiva em relação ao desenvolvimento sustentável da economia brasileira.

O investimento da State Grid no projeto Belo Monte fez do Brasil o primeiro país das Américas a ter a tecnologia de transmissão de ultra-alta tensão, e reduziu as emissões brasileiras de carbono em 21 milhões de toneladas.

Desde que entraram no mercado brasileiro, empresas chinesas como CTG e CGN vêm investindo em energia fotovoltaica e eólica e figuram, respectivamente, como a segunda e a quinta maior geradora privada de energia limpa do Brasil.

Empresas chinesas que atuam no agronegócio brasileiro, como a COFCO, também realizam um controle rigoroso sobre todos os elos da cadeia produtiva, desde o processamento, até armazenamento e transporte, reduzindo o impacto sobre o meio ambiente.

Pioneira entre montadoras internacionais a promover o ônibus elétrico no Brasil, a BYD disponibiliza uma alternativa moderna de mobilidade urbana com zero poluição. Os satélites de recursos terrestres desenvolvidos pela parceria sino-brasileira também exercem seu papel no monitoramento ambiental da Amazônia.

Institutos de pesquisa e universidades criaram laboratórios conjuntos e parques de ciência e tecnologia, que têm atuado para o avanço tecnológico em matéria de meio ambiente e energia em ambos os países.

Quais propostas a China pretende apresentar na COP26?

A China vem implementando a Estratégia Nacional para a Mudança Climática em busca de um desenvolvimento sustentável e de baixo carbono. Para a China, responder à mudança climática é imprescindível para a construção de uma comunidade de futuro compartilhado e crucial para o desenvolvimento sustentável.

O governo chinês anunciou a meta de atingir o pico das emissões de CO2 em 2030 e alcançar a neutralidade do carbono em 2060 e espera trabalhar com todas as partes da COP26 para dar nossa devida contribuição ao sucesso da conferência.

Esta primeira reunião depois do início da fase de implementação do Acordo de Paris deve tomar providências sobre questões de interesse dos países em desenvolvimento, como financiamento, tecnologia e capacitação, além de priorizar a conclusão das negociações sobre as diretrizes de implementação do Acordo e instar todas as partes a traduzir as metas em políticas, medidas e ações concretas.

A China tem um ousado plano de infraestrutura na África, Ásia e Europa – Belt and Road Initiative. Existe algum plano semelhante para a América Latina e o Brasil? Alguma iniciativa de reconstrução econômica verde?

A iniciativa de cooperação internacional Cinturão e Rota é uma plataforma aberta a todos os países, com o objetivo de promover comunicação política, conectividade de infraestrutura, fluxos comerciais, movimentos financeiros e entendimento interpessoal, bem como fomentar a integração econômica global, a sinergia de desenvolvimento e a partilha de resultados. Até o momento, a China assinou acordos nesse âmbito com mais de 140 países e 32 organizações internacionais, incluindo 19 países da América Latina e do Caribe.

Nos últimos anos, os investimentos chineses na América Latina e no Brasil vêm crescendo de forma constante e registram sua maior alta nos setores de infraestrutura e energia limpa. Conforme a demanda do Brasil e dos demais países latino-americanos, a China está disposta a intensificar a cooperação em infraestrutura verde, energia verde e financiamento verde, com a estruturação de mais projetos amigáveis ao meio ambiente.

O plano de transição verde da China prevê carbono zero até 2060, dez anos depois da maior parte do planeta. Diante da atual crise climática, não seria uma meta muito tímida?

A China lida com a mudança climática com senso de responsabilidade. A meta de alcançar o pico das emissões em 2030 e a neutralidade do carbono em 2060 está em sintonia com o seu estágio de desenvolvimento, a capacidade de redução e a responsabilidade internacional, refletindo a firme determinação da China nessa agenda.

Para concretizar essa meta dentro do prazo, o governo chinês publicou diretrizes e um plano de ação, em que se definiu que, em 2025, as emissões de CO2 devem ser reduzidas em 18% por unidade do PIB em comparação com o nível de 2020, e 20% da energia consumida deve ter origem não-fóssil. Até 2030, a emissão por unidade do PIB diminuirá em, pelo menos, 65% sobre 2005, e os combustíveis não fósseis responderão por cerca de 25% do consumo de energia.

Além disso, o estoque florestal deve aumentar em 6 bilhões de metros cúbicos em relação a 2005, e a capacidade instalada de geração de energia eólica e solar totalizará mais de 1200 gigawatts. Ao mesmo tempo, a China formulou planos de implementação para atingir o pico de emissões para os setores de energia, indústria, construção civil, transporte, agricultura e desenvolvimento rural.

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Mecanismos de apoio estão sendo elaborados em áreas como ciência e tecnologia, política fiscal, finanças, precificação, sumidouros de carbono, transição energética e redução sinérgica de poluição e de emissão de carbono, com cronogramas, mapas de rotas e projetos de execução bem definidos.

Além disso, as províncias e municípios estabeleceram metas locais e trabalhos detalhados para controlar as emissões, garantindo que todos os esforços produzam resultados positivos.

Muitos países desenvolvidos atingiram o pico natural das emissões quando o PIB per capita superou a casa de US$ 20 mil. A partir de então, as emissões entraram numa trajetória decrescente e devem levar 50 a 60 anos para chegar à neutralidade.

Por exemplo, a Europa atingiu seu pico de emissões em 1990, mas só conseguirá a neutralidade em 2050, ou seja, mais de 60 anos depois. Enquanto isso, a China atingirá o pico com um nível muito menor de PIB per capita, e terá apenas 30 anos para neutralizar as emissões.

A trajetória de emissões e o caminho da transição estão sujeitos a fatores internos e externos completamente diferentes dos enfrentados pelos países industrializados.

Pavilhão onde acontecem as negociações da COP26, em Glasgow, na Escócia
Pavilhão onde acontecem as negociações da COP26, em Glasgow, na Escócia GETTY/Getty Images

A atual crise energética pode atrasar ou dificultar a transição chinesa rumo à economia carbono zero?

Não existe a chamada crise energética na China. Recentemente, houve mais pressão sobre a oferta de eletricidade e de carvão em algumas regiões da China, devido ao preço elevado da energia no mercado internacional, ao rápido crescimento da produção industrial nacional e às frentes frias que atingiram o Norte do país.

Isso teve certo impacto nas atividades econômicas, mas de modo geral foi limitado e controlável. De modo geral, há um equilíbrio entre a oferta e a demanda, a matriz energética está sendo otimizada para aumentar gradualmente a proporção da energia limpa. A China tem um caminho árduo a percorrer até atingir as metas de emissões. Mas o país vai honrar sua palavra e vai reduzir a participação do carvão na sua matriz energética.

Atingir o pico das emissões e a neutralidade de carbono consiste, essencialmente, em mudar o modelo de crescimento para que ele passe a depender mais da tecnologia do que dos recursos naturais. Isso condiz com a busca de um desenvolvimento de alta qualidade da China

A China já tem condições  objetivas para atingir o pico de emissões em 2030. Para tanto, o governo chinês lançará planos de ação voltados às principais áreas e setores, assim como uma série de medidas de apoio, construindo todo o arcabouço institucional e político para cumprir as metas dentro do cronograma.

Vários países do mundo criticam a forma como o governo de Jair Bolsonaro encara a questão ambiental. Como o senhor avalia o Brasil hoje nessa área?

Em termos de contribuição, o Brasil estabeleceu metas ambiciosas sobre emissões e neutralidade de carbono e está aumentando a participação das energias renováveis na sua matriz energética. isso demonstra boa disposição do Brasil nessa agenda.

As questões ambientais são em essencial questões de desenvolvimento. Os países do Norte e os do Sul se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento, portanto têm distintas responsabilidades históricas e capacidades reais para lidar com a mudança climática e proteger o meio ambiente.

A China repudia a interferência na soberania e nos assuntos internos por parte de certos países sob o contexto da mudança climática, e se opõe a imposição de deveres e pressões desproporcionais aos países em desenvolvimento.

Integrantes dos BRICS, a China e o Brasil têm amplos interesses comuns nas agendas de mudança climática e de sustentabilidade.

A China importa uma série de matérias-primas do Brasil. O que o governo chinês vem fazendo para que as importações sejam de origem certificada e ambientalmente responsáveis?

A China tem a maior classe média do mundo e o mercado de consumo em mais rápido crescimento e sofisticação. Os consumidores chineses estão cada vez mais atentos à segurança e à sanidade dos produtos importados, à medida que aumenta sua conscientização sobre a sustentabilidade e a descarbonização de seus consumos.

Tendo em vista as ações coordenadas para fomentar o comércio exterior e proteger o meio ambiente, o governo chinês verifica se os produtos importados atendem aos padrões de segurança, higiene, saúde e proteção ambiental.

Por outro lado, ao praticar o livre comércio, defende a liberalização e facilitação do comércio como catalisador do crescimento de uma economia verde e se opõe ao abuso das barreiras para medidas protecionistas.

Quais foram as propostas que a China apresentou na recente Cúpula de Líderes do G20?

O presidente chinês Xi Jinping participou, por videoconferência, da 16ª Cúpula de Líderes do G20 realizada nos dias 30 e 31 de outubro. No seu discurso, apresentou uma série de propostas para fortalecer a solidariedade e a cooperação internacional.

Ele propôs uma iniciativa de ação para cooperação contra COVID-19. O presidente Xi Jinping foi o primeiro chefe de Estado a sugerir que a vacina contra COVID-19 seja um bem público global. Até o momento, a China já forneceu mais de 1,6 bilhão de doses de imunizantes e IFA a uma centena de países e organizações internacionais. E vai disponibilizar um total de 2 bilhões de doses ainda este ano.

O presidente Xi Jinping salientou que o G20 deve fomentar uma maior coordenação da política macroeconômica entre as principais economias do mundo com o fim de evitar impactos negativos nos países em desenvolvimento.

Além disso, é importante aproveitar o papel de alavanca da infraestrutura sobre o crescimento econômico e promover mais resultados com uma cooperação de alta qualidade no âmbito da iniciativa Cinturão e Rota.

A China se propõe a realizar um fórum internacional sobre a resiliência e a estabilidade das cadeias de suprimento e de produção, contando com a participação de representantes do G20 e de organizações internacionais, a fim de construir uma forte sinergia para manter a segurança e a estabilidade das cadeias globais.

A China decidiu solicitar adesão ao Acordo de Parceria na Economia Digital e ampliará sua abertura e presença na parceria internacional na economia digital.

Os países desenvolvidos devem estar atentos às dificuldades e preocupações especiais dos países em desenvolvimento, implementar os compromissos de financiamento climático e fornecer-lhes apoio em termos de tecnologia e capacitação.

É preciso definir metas realistas e se empenhar conforme as condições nacionais para implementar suas ações climáticas. É preciso aproveitar a inovação tecnológica para impulsionar a modernização da matriz energética, da estrutura industrial e do padrão de consumo, viabilizar um desenvolvimento socioeconômico mais verde e abrir um novo caminho que coordene desenvolvimento e conservação.

A COP acontece uma vez ao ano, mas as notícias sobre sustentabilidade e meio ambiente, você pode receber toda semana.
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