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‘Charlie Hebdo’ e a arte de provocar

Revista francesa, cuja sede sofreu ataque nesta quarta-feira, adotou em diversas ocasiões posição considerada como ofensiva em relação ao islamismo

Palco de um atentado cometido por terroristas muçulmanos nesta quarta-feira, a revista satírica Charlie Hebdo surgiu nos anos 1960 e há muito assegurou seu espaço na história do jornalismo francês. Descrita como anarquista, ela não poupa políticos, polícia, banqueiros ou religião. Quanto a esse último ponto, é importante ressaltar que a revista sempre foi ecumênica em suas críticas. Publicou inúmeras charges zombando da Igreja Católica – não apenas de papas, mas também da Virgem ou de Jesus – e nunca teve a religião muçulmana como alvo exclusivo.

‘Não ria!’ – Mas foram os radicais islâmicos que a transformaram em alvo. Em novembro de 2011, a Charlie Hebdo publicou uma edição cuja capa mostrava uma caricatura de Maomé com a frase: “Cem chibatadas se você não morrer de rir”. A resposta foi uma bomba incendiária, que destruiu sua sede.

No ano seguinte, a dois dias de uma data sagrada do Islã, o periódico voltou a satirizar Maomé. A capa da edição mostrava um judeu ortodoxo empurrando uma cadeira de rodas com um homem de turbante. Ambos avisam ao leitor: “Não ria!”, em alusão à publicação de 2011, A caricatura aparece debaixo do título Intocáveis 2, em referência ao filme que foi sucesso de bilheteria do cinema francês. Outras caricaturas da edição exibiam o profeta em situações embaraçosas. Em uma delas, ele está nu. O islã considera blasfêmia qualquer representação gráfica do seu fundador.

Após a divulgação dessa edição, o Ministério das Relações Exteriores da França anunciou que fecharia suas embaixadas e escolas em 20 países de maioria islâmica no dia sagrado para a religião.

O episódio desencadeou uma discussão intelectual e política na Europa sobre como lidar com manifestações culturais que ofendem as religiões. “Maomé não é sagrado para mim. Eu vivo sob a lei francesa, não sob a lei do Corão”, disse na época o editor-chefe Stéphane Charbonnie, assasinado no atentado desta quarta-feira.

Histórico – A harlie Hebdo teve origem na revista satírica francesa Hara-Kiri. Fundada nos anos 1960, essa publicação chamou a atenção ao divulgar uma manchete sobre a morte do ex-presidente da França Charles De Gaulle (1890-1970): “Baile trágico em Colombey: 1 morto”. O título irônico fazia referência a uma notícia policial daquele mesmo momento, sobre a morte de 100 pessoas em uma discoteca do país. A edição fez com que a Hara-Kiri fosse banida. Em resposta, os jornalistas da publicação criaram outro periódico, agora batizado de Charlie Hebdo. A revista deixou de circular por dez anos, entre 1981 e 1991, por falta de recursos.

Entre as charges mais provocativas da revista, estão a que mostra policiais segurando cabeças ensanguentadas de imigrantes, papas usando camisinha e um membro do Estado Islâmico prestes a decapitar Maomé.