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Chanceler critica política externa dos anos 1960, reciclada pela ditadura

Ernesto Araújo terá de explicar à Câmara exoneração de diplomata, considerada como 'perseguição', e decidir se busto de San Tiago Dantas volta ao Itamaraty

Por Denise Chrispim Marin 24 out 2019, 19h46

Na madrugada de sexta-feira, 25, em Pequim, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, postou 15 notas em seu perfil no Twitter para rebater a notícia sobre a retirada do busto de seu antecessor San Tiago Dantas, um dos formuladores da Política Externa Independente (PEI) dos anos 1960, do auditório que leva seu nome no Itamaraty. Acusou a PEI de afastar o Brasil dos Estados Unidos, de “bajular o bloco comunista” e de estar reencarnada no ideário do Foro de São Paulo, organismo internacional de partidos de esquerda, entre os quais o PT.

Araújo não mencionou, mas o PEI foi igualmente reciclado durante a ditadura militar e, no governo de Ernesto Geisel, desdobrou-se no Pragmatismo Responsável. Em notas inflamadas, tampouco mencionou o fato de San Tiago Dantas (1911-1964) ter sido um político liberal, grande defensor da democracia e crítico contumaz dos regimes autoritários, inclusive o de Cuba. A PEI propunha a independência da política brasileira dos dois blocos de poder da época, liderados pelos Estados Unidos e a União Soviética.

“O Brasil não nasceu para ser capacho do Foro de São Paulo. O busto de San Tiago Dantas pode até voltar, mas a política externa hipnotizada pela ideologia e facilitadora do totalitarismo não voltará”, encerrou Araújo seus comentários, com o 15º tuíte postado às 4h20 de sexta-feira (17h20 de quinta-feira, em Brasília).

“A PEI deu início a décadas de política externa ideológica mais ou menos disfarçada que nunca trouxe nada ao Brasil – exceto elogios de comunistas e globalistas, para quem um Brasil hipnotizado na mediocridade era muito conveniente, ajudando a formar massa de manobra”, dissera antes, na nota número 4.

Retrato do ex-presidente Ernesto Geisel (1974-1979): Política Externa Independente desdobrada em Pragmatismo Responsável. //Divulgação

Os comentários do chanceler correram pelo Itamaraty como rastilho de pólvora. Não causaram surpresa porque as notas destilaram com clareza a aversão figadal de Araújo à política externa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, sobre a qual fizera elogios na década passada em sua tese para o Curso de Altos Estudos do Itamaraty. Mas contradições igualmente claras foram pinçadas de suas declarações.

“O ministro parece acusar a PEI de fazer algo, que na realidade, está sendo feito pelo atual governo: alinhamento automático a uma grande potência e antipatia a ditaduras apenas de esquerda, já que adoram países do golfo com histórico nada amigável aos direitos humanos”, afirmou um embaixador. “Aliás, o chanceler atual não está em viagem à China e a outras ditaduras, como Arábia Saudita?”

San Tiago Dantas foi chanceler do período parlamentar do governo de João Goulart, entre 1961 e 1962, quando o gabinete era liderado por Tancredo Neves. De fato, em sua gestão o Brasil atou relações com a União Soviética, porém sem nenhuma indicação de alinhamento ao bloco comunista. No ano seguinte, já no retorno ao presidencialismo, foi ministro da Fazenda de Goulart.

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A reportagem sobre a retirada do busto de Dantas do auditório foi publicada pela revista Época. O chanceler respondeu à notícia com tom de desprezo: “um colunista disse por aí que mandeu tirar o busco de San Tiago Dantas da sala que leva o seu nome. É fake news. Não mandei. Mas podia ter mandado”. Segundo o Itamaraty, ele realmente não mandou. A sala entrou em reforma para ser o palco da reunião de cúpula dos Brics, o bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – uma das principais iniciativas da política externa do chanceler Celso Amorim, do governo Lula. Dependerá de Araújo o retorno do busto de Dantas a seu lugar.

“San Tiago Dantas ficaria até feliz (com a retirada de seu busto), pois a reforma é para receber países que ele entendia ajudam a manter o balanço multipolar no mundo”, afirmou um diplomata.

Perseguição

O ex-chanceler Celso Amorim: ‘a vergonha supera a revolta!’ – 05/09/2019 Eduardo Monteiro/VEJA

Araújo se vê desafiado a explicar à Câmara dos Deputados sua decisão de exonerar o diplomata Audo Araújo Faleiro do cargo de chefe da Divisão de Europa Ocidental do Itamaraty apenas três dias depois de ele ter assumido o posto. A atitude é vista como “perseguição”. Ministro de segunda classe da carreira, Faleiro trabalhou durante seis anos na assessoria Internacional da Presidência, sob o comando do petista Marco Aurélio Garcia, e antes servira na embaixada do Brasil em Caracas, na Venezuela.

“Lamentável a perseguição a um funcionário de reconhecida competência para um cargo essencialmente técnico. Mas o que esperar de um chanceler que ‘cassou’ o busto de San Tiago Dantas? A vergonha supera a revolta!”, afirmou Celso Amorim a VEJA.

  • A exoneração de Faleiro ocorreu no último dia 18, mas a publicação no Diário Oficial da União deu-se na terça-feira, 22. Aparentemente, a punição ao diplomata deveu-se à repercussão da milícia bolsonarista na internet a sua atuação durante os governos petistas. Todos os diplomatas daquele período seguiram as instruções da cúpula do governo, independentemente de estarem de acordo ou não com elas. Vários deles estão em posições de destaque atualmente no Itamaraty, sob a liderança de Araújo.

    O requerimento para Araújo dar explicações à Câmara partiu do PSOL e incluiu nove perguntas e documentos. O chanceler deverá se apresentar ao retornar da viagem presidencial à Ásia. Para a deputada Fernanda Melchionna, vice-líder do partido, há “fortes indícios de perseguição político-ideológica à diplomacia profissional brasileira, o que contraria a legislação”

    “Infelizmente, essa visão autoritária e reacionária do ministro Ernesto Araújo não é uma surpresa. Ele vêm tentando revogar consensos mundiais em relação a direitos humanos e parece estar perseguindo a diplomacia profissional e técnica do Itamaraty. Os servidores são do Estado brasileiro e não do governo”, afirmou Melchionna.

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