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Chanceler atribui aumento da temperatura da Terra a asfalto quente

Ernesto Araújo questiona aquecimento global: "Não há um termostato que meça a temperatura global. Existem vários termostatos locais"

Por Denise Chrispim Marin - Atualizado em 30 maio 2019, 21h14 - Publicado em 30 maio 2019, 19h49

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, questionou no Congresso Nacional nesta quarta-feira, 30, as evidências científicas de aumento da temperatura terrestre nos últimos 200 anos. Ao apontar supostos equívocos nas medições atuais, o chanceler afirmou ser “necessária uma discussão aberta e não ideológica desse tema”.

“Não há um termostato que meça a temperatura global. Existem vários termostatos locais”, explicou Araújo aos deputados da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara.

“Nos Estados Unidos, foi feito um estudo sobre estações meteorológicas, e diz que muitas estações que, nos anos 30 e 40, ficavam no meio do mato, hoje ficam no asfalto, na beira do estacionamento. É óbvio que aquela estação vai registrar um aumento extraordinário da temperatura, comparado com a dos anos 50. E isso entra na média global”, completou durante a audiência.

Suas ponderações se espalharam pelas redes sociais com expressões de surpresa e de indignação. Entre os perplexos estava a deputada federal Érica Kokay (PT-DF), que publicou no Twitter o trecho da audiência em que Araújo desenvolve sua tese.

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Centenas de estudiosos trabalham há décadas na pesquisa sobre a evolução da temperatura global. Seus métodos científicos não têm sido questionados, seja para medições atuais e do passado, seja para as suas estimativas nada otimistas para o futuro.

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O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), criado pelas Nações Unidas e pela Organização Meteorológica Mundial (WMO), tem feito as mais respeitáveis constatações e disparado alertas sobre a necessidade da redução – até zero – das emissões dos gases do efeito estufa para evitar o aumento de 2ºC da temperatura média da Terra no final do século, em comparação com a do período pré-revolução industrial.

Da mesma forma trabalha o Serviço Nacional do Tempo dos Estados Unidos (USNWS), que chegou até mesmo a contrariar o ceticismo do presidente americano, Donald Trump, sobre o aquecimento global.

Porém, o chanceler brasileiro preferiu descartar as pesquisas realizadas, na audiência, e considerar que o asfalto incandescente de algumas localidades pode interferir no cálculo da média da temperatura do planeta. O serviço americano, por exemplo, respeita o trabalho da Iniciativa Internacional de Temperatura Terrestre, que coleta dados de 30.000 estações meteorológicas ao redor do planeta.

Esta não foi a primeira declaração do chanceler brasileiro a causar indignação. O embaixador Ernesto Araújo é contrário ao globalismo, defende Trump como o salvador da cultura ocidental e chegou o classificar o partido de Adolf Hitler como socialista.

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No campo da mudança de clima, Araújo reiterou a decisão de abortar a realização no Brasil da 25ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-25), tomada ainda durante o governo de transição de Jair Bolsonaro. Também apoiou a retirada do país do Acordo de Paris, de 2015, ao qual o Brasil continua como membro por intervenção do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles – o mesmo que questiona os dados sobre o desmatamento da Amazônia registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

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