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Cenário de ‘feira’ esconde angústia das famílias

Sem o salário dos mineiros, parentes sofrem ainda com falta de recursos

Sem dinheiro e em busca de notícias, as famílias dos 33 mineiros que foram soterrados no dia 5 de agosto, no norte do Chile, se aglomeram em um acampamento na entrada da mina. Ali, Organizações Não Governamentais (ONGs), voluntários e pessoas ligadas ao governo tentam ocupar o tempo dos parentes com reuniões, visitas e declarações oficiais. Quem não conhecesse a história poderia pensar que naquele local acontece uma grande feira, com barracas de comidas e, em alguns pontos, até música. Contudo, este cenário esconde a angústia das famílias que têm um pai, um marido ou um irmão a 700 metros de profundidade e sem nenhuma certeza de que a história terá um final feliz.

O fato de as famílias não contarem mais com o salário do mineiro que ficou soterrado é outro agravante. A empresa mineradora San Esteban, proprietária da mina San José, anunciou que não tem dinheiro para bancar os salários. Os parentes, portanto, precisam deixar a tristeza de lado para suprir suas necessidades imediatas. Eles contam com doações que chegam ao acampamento e com o apoio de voluntários.

Nancy Rojas é uma das cinco voluntárias de uma organização não governamental que está trabalhando com as famílias. No início da noite, ela começa a preparar a “churrasca” – pão grelhado no carvão com manteiga e vinagrete por cima. É a segunda vez que vai ao acampamento. Na última semana, trouxe os ingredientes do choripan – um sanduíche de linguiça – e distribuiu abraços, dizendo: “É só um carinho para vocês”.

Um rádio com música chilena toca em alto volume e faz as crianças dançarem no meio do acampamento. Só na família do mineiro Mário Gomez são oito. Elas ficarão com os seis adultos da família até que Gomez seja resgatado. “As crianças pensam que estão de férias. Mas para nós não é fácil”, diz Olga Carmona, sobrinha do mineiro e mãe das duas meninas, de quatro e cinco anos, que rodopiam na areia.

Na barraca de Nelly Bugueño, mãe do mineiro Vitor Zamora, estão sobrinhos, primos e até uma colega de escola. Nelly acha que é melhor assim: “Se há todos os tipos de pessoas, amigos, conhecidos, jornalistas, não pensamos tanto no sofrimento”. Para ela, vale por mais uma razão: “Todos estes jornalistas estarem aqui e conversarem tanto com a gente faz o mundo saber o que está acontecendo. E o que está acontecendo é um cárcere homicida”.

Segundo Nelly, seu filho sabia que a mina era muito antiga e com precárias condições de segurança. Mas aceitou o trabalho pelo dinheiro. O salário que eles ganhavam na mina San José era maior do que em todas as outras minas, dizem os familiares. “Era assim que os seduziam”, conta Nelly. “Eu choro quando estou sozinha, apegada a Deus apenas”. Ela se empenha em responder a todas as perguntas que lhe fazem, “porque o mundo tem que saber”.

Vídeo – Na noite desta quinta-feira, os parentes dos 33 mineradores soterrados viram os rostos que não viam há três semanas. Chamados a uma reunião particular com autoridades do governo e psicólogos, assistiram a um vídeo gravado pelas próprias vítimas no interior da mina. A gravação tem quase 27 minutos e, apesar de autoridades dizerem que o material é bruto, parece ter sido editado. As imagens mostram um lugar muito escuro, sujo e improvisado. Alguns dos mineiros, apesar das palavras de otimismo e dos gritos de guerra, aparecem completamente apáticos.

Veja abaixo trechos do vídeo, exibido por TV chilena.