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Casamento dos reis da Espanha encanta monarquistas gregos 50 anos depois

Andrés Mourenza.

Atenas, 14 mai (EFE).- O casamento entre a então princesa Sofía da Grécia e Juan Carlos da Espanha, à época um infante de uma família real sem trono, cativa até hoje o exíguo grupo de monarcas que resta entre a alta sociedade grega.

Na Grécia, viria ainda o golpe da Junta Militar, referendado pelo irmão de Sofía, rei Constantino II, e posteriormente o plebiscito vencido pela opção republicana. Mas aquele 14 de maio de 1962 ainda é recordado como um dos momentos do apogeu da monarquia helena.

Para os presentes, foi como um verdadeiro ‘conto de fadas’. No dia do casamento, Atenas se vestiu de gala. Na capital da então paupérrima Grécia – onde ainda se sentiam as consequências da dura ocupação nazista e da subsequente guerra civil entre comunistas e monarquistas – o trânsito não era o problema que é hoje em dia.

Não existia televisão. Portanto, centenas de curiosos tomaram as ruas para ver passar a filha mais velha de Paulo I, Rei dos Helenos, em uma majestosa carruagem.

‘A carruagem era muito antiga e não tinha sido usada em muito tempo. Isso representa um problema, porque já não restavam artesãos que se encarregassem dessas coisas’, relata Lena Levidis, filha do Caballerizo Mayor, Vladimiros Levidis, e sobrinha do Grande Chamberlain da Corte do Rei Pablo, Dimitrios Levidis.

‘Isso foi responsabilidade do meu pai, que se encarregou da reparação com ajuda de um jovem oficial. Também era preciso mostrar aos soldados como dirigir a carruagem porque não tinham experiência nisso. Portanto o trabalho levou meses’, lembra.

O percurso do cortejo também não foi fácil de organizar. O ponto de partida era o Palácio Real, hoje sede da Presidência da República. O problema eram as igrejas.

Desde o ano anterior, os emissários do ditador Francisco Franco tentavam convencer o Vaticano a dar sinal verde à união entre um príncipe católico e uma princesa ortodoxa.

A Igreja Grega também queria dar preeminência a seu rito. Finalmente chegou-se a um acordo que, entre outras coisas, multiplicou por dois o tempo da cerimônia.

Em primeiro lugar, o então futuro casal se dirigiu à Catedral Católica de São Dionísio, edificada por ordem do primeiro rei da Grécia independente, o bávaro e católico Otto. Após a cerimônia religiosa, retornaram ao palácio, onde registraram a união civil nos livros das autoridades espanholas.

Depois a cerimônia se repetiu, dessa vez na Catedral Metropolitana de Atenas, pelo rito ortodoxo, e voltou ao palácio para o registro do casamento pela legislação helena. Os convidados de cada país (não os reais) assistiram só a uma cerimônia, e a imprensa de cada nacionalidade se fixou exclusivamente em uma delas, como se a outra nunca tivesse existido.

‘Tive a oportunidade de estar servindo na cerimônia (católica). Tinha 16 anos. Juan Carlos vestia o uniforme assim como nosso rei. Havia representantes da realeza de toda a Europa’, relembra Nikos Vutsinos, que atuou como coroinha principal.

‘Toda a igreja estava decorada com flores. Na tribuna do coro, havia umas 300 pessoas cantando. Ver a carruagem puxada por cavalos, as flores, os belos vestidos… foi como um conto de fadas. Eu estava emocionado’, descreve. ‘Foi o evento do século (na Grécia)’.

A cerimônia ortodoxa teve também a presença de Ioanna Ravani, que a seus 75 anos ainda lembra perfeitamente os detalhes. ‘A catedral não é muito grande e não podíamos ficar dentro. Portanto, em frente à porta da catedral, montaram arquibancadas e, junto a outros convidados, estávamos ali. Vestíamos nosso uniforme e Sófia nos cumprimentou’.

‘Lembro que um dia nos disseram que, a partir da segunda-feira seguinte, viria a princesa Sofía. Ao princípio sentíamos timidez e curiosidade. Mas muito rapidamente ela se transformou em uma de nós. Era muito simples. Não acho que fizesse por nós, mas porque é assim’, ressalta.

‘Agora muitas famílias reais europeias têm problemas e os jornais estão muito ocupados escrevendo sobre esses escândalos. Mas a família real grega não, era muito tranquila. Especialmente Sofía’, opina o almirante reformado Georgios Moralis, assistente do Rei Pablo, por quem sente especial devoção.

Infelizmente ele não pôde assistir ao casamento. Mas foi porque seu rei lhe encomendou uma missão especial: os consortes assistiriam à recepção posterior ao casamento, mas escapariam dela assim que pudessem, para evitar as perguntas de jornalistas e curiosos, e o almirante deveria esperar no porto do Pireo pronto para zarpar.

Tudo saiu como planejado. Guiados por Moralis, Juan Carlos e Sofía navegaram até Spetsopula, a ilha privada do armador Stavros Niarchos, quem também ofereceu ao casal seu iate Eros. Começava a lua de mel. EFE