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Caos na França aumenta, mas governo mantém posição

No sexto dia consecutivo de manifestações no país, mais de 200 cidades devem aderir ao movimento de protestos e greves contra a reforma da previdência

“Essa reforma é essencial e a França irá implementá-la. Mas é totalmente normal que haja preocupação e oposição em relação às mudanças”

Nicolas Sarkozy, presidente francês

Em um cenário de caos, a França enfrenta nesta terça-feira o sexto dia consecutivo de protestos e greves contra os planos do governo para a reforma do sistema de previdência. Mais de 200 cidades devem aderir ao movimento que parou o país e afeta sobretudo o setor de transportes – um em cada seis postos de gasolina enfrenta escassez de combustível. Com a proximidade da votação do projeto, que deve acontecer na quarta-feira, a instabilidade cresce ainda mais.

Lixeiros, professores, motoristas de caminhão e dezenas de outros sindicatos deverão se juntar à paralisação, aumentando a guerra de nervos com o governo. Mais de 2.500 postos de gasolina, dos 12.500 de todo o país, não têm combustível, segundo fontes do setor. A greve dos ferroviários prossegue com o funcionamento de seis trens de grande velocidade em cada dez existentes. Em Paris, o metrô está em ritmo normal, mas duas linhas de trens subterrâneos registraram problemas.

Estudantes foram às ruas e há casos de confrontos com os policiais. No subúrbio de Nanterre, na zona noroeste de Paris, cerca de 200 jovens encapuzados incendiaram um veículo e lançaram bombas de fumaça contra as autoridades. Conforme o ministério da Educação, a atividade de 379 colégios está prejudicada. A Federação Independente e Democrática de Liceus (FIDL), calcula em 1.200 o número de colégios envolvidos nos protestos.

Apesar de a data prevista para aprovação do projeto no Senado ser quarta-feira, o debate deve se estender até o fim da semana, junto com a mobilização popular nas ruas. Em uma tentativa de adiar a votação, senadores de esquerda apresentaram centenas de emendas à medida, que é altamente impopular entre os franceses. Na segunda, porém, o presidente Nicolas Sarkozy afirmou que não abrirá mão da reforma, mesmo com toda o caos no país.

“Essa reforma é essencial e a França irá implementá-la”, avisou Sarkozy. “Mas é perfeitamente normal que haja preocupação e oposição em relação a ela”, ressalvou. O bloqueio das refinarias, que começou na sexta-feira passada, continua nesta semana, apesar das advertências do governo de que elas serão reabertas, mesmo que pela força. Sarkozy formou um gabinete de crise para proteger os reservatórios e possivelmente adotar medidas de emergência.

Enquanto isso, um bom número de estabelecimentos começa a sentir os efeitos da escassez. “Dos 4.000 postos nos hipermercados que distribuem 60% do combustível na França, há quase 1.500 sem combustível”, disse Alexandre de Benoist, diretor da União de Importadores Independentes de Petróleo (UIP). “Entre 20% e 25% de nossa capacidade de distribuição está interrompida ou em dificuldades”, completou o executivo.

Reservas – Nos últimos dias, muitos motoristas se precaveram enchendo os tanques de seus carros depois da previsão de uma possível falta de gasolina. O ministros garantiram, porém, que a França tem combustível suficiente à disposição e que os aeroportos, em especial, estão com grandes reservas. “O governo está controlando a situação”, enfatizou o ministro da Indústria, Christian Estrosi. “Não haverá bloqueio às empresas, ao transporte ou aos usuários das estradas.”

Ainda assim, manifestantes planejam mais um protesto nacional para esta terça-feira, que deve ser um dia decisivo para o projeto de Sarkozy. O tráfego ferroviário também está sendo afetado, com a anulação de aproximadamente metade das viagens previstas. As interrupções atingem de forma desigual os trens internacionais. No setor aéreo, metade de todos os voos do Aeroporto de Orly, em Paris, e 30% daqueles operados pelo Aeroporto Roissy-Charles de Gaulle foram cancelados.

Reforma – A reforma da Previdência ainda está em análise e deve ser votada na quarta-feira no Senado. Artigos decisivos, porém, como a elevação da idade mínima de aposentadoria de 60 para 62 anos e do benefício integral de 65 para 67 anos, já foram aprovados tanto por deputados como por senadores.

Ainda assim, pela legislação francesa, haveria espaço para a reabertura do debate, já que a lei ainda precisaria passar por uma comissão mista do Parlamento e por um reexame simbólico nas duas casas. É por isso que continuam acontecendo as diversas manifestações que tomam conta das ruas da França.

(Com agências Reuters, France-Presse e EFE)

Leia no Blog de Paris, por Antonio Ribeiro:

O generoso sistema previdenciário europeu enfrenta um problema demográfico desde que foi criado após a II Guerra Mundial: o envelhecimento populacional tornou o número de beneficiários superior ao dos que contribuem, evidente desequilíbrio nas contas. A resistência à reforma necessária à sobrevivência do sistema deficitário se deve à tradição radical dos sindicatos e à uma particularidade francesa: os sindicatos participam diretamente da administração dos fundos de aposentadoria.