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Câmara aprova impeachment, mas tudo indica que Trump será absolvido

O presidente americano deve nadar, nadar e, com o aval do Senado, chegar bem vivo à praia

Por Denise Chrispim Marin, Julia Braun - Atualizado em 20 dez 2019, 10h11 - Publicado em 20 dez 2019, 06h00

De preto, para realçar ser aquele um “dia sombrio” (embora, por dentro, devesse estar bem feliz), a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, abriu a sessão histórica em que, na quarta-feira 18, os deputados americanos aprovaram o impeachment do presidente Donald Trump. A decisão foi enviada para o Senado e lá, a partir do começo de janeiro, os termos do impedimento ao cargo serão examinados como se fossem um processo em um tribunal, com acusação e defesa interrogando testemunhas e apresentando seus argumentos, e um juiz — o presidente da Suprema Corte, John Roberts — supervisionando os trabalhos. São necessários dois terços dos votos, 67, para tirar Trump da Casa Branca. Os 47 senadores democratas devem votar a favor, mas só por milagre conseguirão pescar os vinte que faltam nas fidelíssimas hostes republicanas. Conclusão: o presidente deve nadar, nadar e chegar bem vivo à praia.

O fio da meada para o impeachment, que foi virando uma tapeçaria intrincada ao longo das semanas, é o hoje famoso telefonema de Trump ao presidente da Ucrânia, Vladimir Zelensky, em julho, pedindo que ele reabrisse uma investigação sobre as atividades de Hunter Biden em uma empresa suspeita de corrupção (“Foi uma conversa perfeita, sem nada de errado”, insistiu no Twitter). Hunter é filho de Joe Biden, o principal adversário do presidente na corrida pela reeleição. Investiga daqui, investiga dali, descobriu-se que Trump segurou a entrega de uma ajuda militar de quase 400 milhões de dólares à Ucrânia enquanto pôde — só a liberou quando a divulgação da manobra era iminente (segundo os tuítes, ele queria garantir que a bolada não seria mal utilizada e mandou pagá-la sem contrapartida alguma). A maior parte dos funcionários dos órgãos do governo convocados para depor não apareceu, por instrução da Casa Branca (“O processo é fake”, “As acusações são fake”, bradou seu ocupante).

TUDO ‘FAKE’ - Trump: ataques aos democratas em tuítes e carta de seis páginas Leah Millis/Reuters

De tudo o que leram e ouviram, as comissões da Câmara que examinaram o caso pinçaram duas acusações passíveis de impeachment: abuso de poder e obstrução da apuração no Congresso. Na votação do plenário, regida pela divisão partidária na Casa onde os democratas são maioria, a primeira acusação foi aprovada por 230 votos a 197 (dois democratas votaram contra) e a segunda, por 229 votos a 198 (três democratas contra). A única deputada que também é pré-candidata à Presidência pelo Partido Democrata, Tulsi Gabbard, ficou em cima do muro: disse apenas “presente”.

Trump estava em um comício quando soube do resultado. “O Partido Republicano nunca foi tão insultado e nunca esteve tão unido quanto agora”, vangloriou-se (com razão: ninguém negou fogo). Logo de manhã, digitara em maiúsculas, como de costume: “Não fiz nada de errado. Que coisa horrível, Espero que isso nunca venha a acontecer com outro presidente. Rezem”. Antes ainda, mandara entregar a Nancy Pelosi, com quem vive trocando desaforos, uma carta de seis páginas, em papel timbrado, coalhada de trumpismos. “Vocês estão subvertendo a democracia americana. Vocês estão obstruindo a Justiça. Vocês estão infligindo dor e sofrimento à nossa República para seu próprio ganho pessoal, político e partidário”, vociferou.

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Diferentemente do que ocorre no ritual brasileiro, nos Estados Unidos a votação no plenário da Câmara é considerada o meio do caminho no procedimento de impeachment, o que permite a Trump continuar presidente e seguir com sua campanha pela reeleição, em novembro de 2020. Aliás, se alguma reviravolta do destino levasse o Senado a aprovar seu afastamento, mesmo assim ele poderia ser candidato. “Não há nada na Constituição que revogue seus direitos políticos”, afirma Martin Redish, professor de direito e política da Universidade Northwestern, de Illinois.

Não se sabe quanto tempo vai demorar o julgamento no Senado — onde alguns republicanos consideram convocar os Biden a depor —, mas a expectativa geral é que não se arraste. Em fevereiro acontecem as primárias iniciais dos dois partidos; no princípio de março, a Super Terça-­Feira começará de fato a filtrar os candidatos democratas e a dar a medida do apoio a Trump. Um processo de impeachment prolongado tem a possibilidade de atrapalhar o cronograma das campanhas. É certo, porém, que os dois lados vão, cada um puxando eleitor para a sua urna, explorar até a exaustão a) ser Trump o terceiro presidente na história a passar por esse moedor e b) ele ter sido absolvido. É difícil antecipar quem ganhará mais votos.

Publicado em VEJA de 25 de dezembro de 2019, edição nº 2666

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