Calor castiga Europa com termômetros a 40ºC e centenas de incêndios; Reator nuclear desliga
Temperaturas em níveis históricos colocam à prova a infraestrutura e os serviços de saúde no velho continente
A Europa voltou a sentir os efeitos, na quarta-feira 9, da intensa onda de calor que castiga o continente desde maio, com temperaturas históricas, incêndios florestais e impactos sobre a infraestrutura e a saúde pública de dezenas de cidades. Em Barcelona, os termômetros registraram a maior temperatura em 112 anos de medições — 44ºC –, enquanto, na França, mais de 300 incêndios foram relatados no mesmo dia.
Áreas da Espanha registram temperaturas entre 36°C e 44°C, enquanto o sudoeste da França chegava aos 37°C. Em cidades como Londres e Paris, os termômetros também marcavam cerca de 33°C, patamar incomum para as primeiras semanas de verão europeu.
A nova onda infernal ocorre poucos dias depois de o programa europeu de monitoramento Copernicus confirmar que junho foi o mês mais quente já registrado pela Europa Ocidental em toda a história. Segundo o observatório climático ligado à União Europeia, a temperatura média da região alcançou 20,74°C — mais de 3°C acima da média entre 1991 e 2020 —, superando o recorde estabelecido no ano passado.
Incêndios se espalham
As temperaturas elevadas têm impulsionado uma nova onda de incêndios florestais. Somente nesta quarta-feira, mais de 300 focos foram registrados na França, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez, que determinou o reforço das equipes de combate ao fogo, incluindo a mobilização de bombeiros voluntários. O calor foi tanto que o reator da usina nuclear de Golfech, perto de Toulouse, precisou ser temporariamente desligado.
Na Espanha, mais de 50 mil hectares já haviam sido consumidos pelas chamas até o início de julho, mais que o dobro da média para esta época do ano. Na França, o fogo já destruiu cerca de 28 mil hectares.
Especialistas apontam que o cenário foi agravado pela combinação de um inverno e uma primavera chuvosos, que favoreceram o crescimento da vegetação. Com a chegada do calor intenso, essa cobertura secou rapidamente e passou a servir de combustível para incêndios de grandes proporções.
Impactos na saúde e rotina
Os efeitos da onda de calor também aparecem nos indicadores de saúde. Dados revisados pelas autoridades da Bélgica apontam mais de 1.700 mortes em excesso durante a última onda de calor, o maior número desde o início da série histórica, em 2000. Na França, o excesso de mortalidade ultrapassou 2.000 óbitos em apenas uma semana, enquanto a Espanha registrou mais de mil mortes acima do esperado.
Além disso, a qualidade do ar piorou em diversas regiões. Um levantamento da ONG Global Witness estima que cerca de 300 milhões de europeus foram expostos a concentrações perigosas de ozônio entre os dias 21 e 28 de junho, incluindo aproximadamente 100 milhões de crianças, idosos e outros grupos considerados mais vulneráveis.
O calor também alterou a rotina em outros países. Na Inglaterra, dados do Departamento de Educação mostram que, durante o pico da última onda de calor, dois em cada três alunos do ensino secundário faltaram às aulas nas regiões mais afetadas, depois que escolas reduziram o horário de funcionamento ou suspenderam atividades devido às temperaturas extremas.
Mudanças climáticas
Pesquisadores da rede World Weather Attribution afirmam que a onda de calor registrada em junho teria sido praticamente impossível sem o aquecimento global provocado pela atividade humana. Segundo o Copernicus, a Europa é hoje o continente que mais rapidamente aquece no planeta, tornando ondas de calor, secas e incêndios cada vez mais frequentes e intensos.
As previsões indicam que o calor deve persistir pelo menos até 14 de julho em partes da França. Diante do cenário, o governo francês convocou uma reunião de emergência para esta sexta-feira, 10, para discutir os riscos da nova onda de calor e coordenar medidas para enfrentar incêndios, proteger a população e reduzir a pressão sobre o sistema de energia.







