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Bye-bye, bigode

Fazia tempo que Donald Trump andava em queda de braço com o recém-demitido John Bolton

Donald Trump demitiu na terça-­feira 10 seu conselheiro nacional de Segurança, John Bolton, que chegou a usufruir alto prestígio na corte da Casa Branca. Fazia tempo que os dois andavam em queda de braço. O racha ficou cristalino quando eles visitaram o Japão, em maio. Na ocasião, Bolton afirmou “não haver dúvidas” de que os testes de lançamento de mísseis na Coreia do Norte violavam resoluções das Nações Unidas — no que seria imediatamente contrariado pelo chefe, interessado em preservar laços com o ditador Kim Jong-un. “Não estou preocupado com isso”, disse Trump. O mais recente embate foi em torno de um encontro armado com a cúpula do Talibã em Camp David, a casa de campo presidencial. Bolton foi contra: não concordava por princípio, e, ainda por cima, a reunião que selaria a paz com o grupo aconteceria na véspera do aniversário dos ataques do 11 de Setembro, realizados pelos terroristas da Al Qaeda, que o Talibã acolhera no Afeganistão. O plano foi cancelado, mas o desgaste atingiu um ponto insustentável.

Apelidado de “Bigode” pelo vasto conjunto de pelos que lhe emoldura a boca, Bolton, advogado de 70 anos formado pela Universidade de Yale, ocupou cargos nos últimos três governos republicanos. Situa-se na ala ideologicamente mais à direita do partido, a dos “falcões”. Foi um dos maiores articuladores da invasão americana no Iraque, no período de George W. Bush. Sempre esteve pronto também para a artilharia verbal. É dele a frase: “O prédio da ONU em Nova York tem 38 andares. Se perdesse dez, isso não faria diferença alguma”. Com as eleições presidenciais batendo à porta, esse tom beligerante, que tanto encantou Trump, passou a incomodar. Bolton queria pulso mais firme, por exemplo, sobre Venezuela e Irã — em relação ao segundo país, aliás, entrou em rota de colisão com o secretário de Estado, Mike Pompeo, ao declarar que “eram poucas as sanções americanas” impostas aos iranianos. Não havia outro destino para Bolton senão um post presidencial despachando-o no Twitter.

Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2019, edição nº 2652