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Burkina Faso precisa ‘esquecer’ a democracia, diz líder militar

Ibrahim Traoré, que chegou ao poder há três anos por meio de golpe, baniu partidos, estendeu mandato e intensificou repressão, enquanto se alinha à Rússia

Por Amanda Péchy Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 abr 2026, 11h25
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O governante militar de Burkina Faso afirmou nesta sexta-feira, 3, que a democracia “mata” e a população deve “esquecê-la”. Em entrevista transmitida pela televisão estatal, o capitão Ibrahim Traoré, que tomou o poder em um golpe há três anos, sugeriu que a maioria dos africanos não deseja viver sob o Estado de direito e a nação africada tem sua própria “abordagem alternativa”.

“As pessoas precisam esquecer a questão da democracia. A democracia não é para nós”, declarou. “Vejam a Líbia, este é um exemplo próximo de nós”, acrescentou, referindo-se ao regime brutal de Muammar Kadafi, em que a repressão sistêmica coexistia com subsídios para moradia, além de educação e saúde gratuitas.

O país enfrenta instabilidade política e desafios de segurança desde que o governo foi dividido em duas facções rivais sob a guerra civil de 2011, revolta popular apoiada por uma intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que matou o autocrata.

“Onde quer que eles (as potências ocidentais) tentem estabelecer a democracia no mundo, isso sempre é acompanhado de derramamento de sangue”, completou o líder de Burkina Faso.

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Fim de partidos políticos

Traoré, 38 anos, se apresenta como um líder revolucionário que se opõe ao imperialismo ocidental. Inicialmente, ele prometeu restaurar o regime democrático na nação da África Ocidental, trabalhando com o prazo de julho de 2024. Dois meses antes, porém, a junta militar no poder anunciou que estenderia seu mandato por mais cinco anos. Em janeiro deste ano, autoridades anunciaram a proibição de todos os partidos políticos como parte de um plano para “reconstruir o Estado”.

“A verdade é que a política na África – ou pelo menos o que vivenciamos em Burkina Faso – é que um verdadeiro político é alguém que personifica todos os vícios: um mentiroso, um bajulador, um falastrão”, disse ele, justificando a dissolução das legendas. “Teremos nossa própria abordagem, não estamos tentando copiar ninguém. Estamos aqui para mudar completamente a forma como as coisas são feitas”, acrescentou, sem dar detalhes, mas falando em um novo sistema baseado na soberania, patriotismo e mobilização revolucionária.

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Na abrangente entrevista, ele também enfatizou a importância da autossuficiência econômica e militar de Burkina Faso, bem como do trabalho árduo, afirmando que jornadas de seis ou oito horas não permitiriam que o país alcançasse o patamar dos mais ricos.

Repressão sistêmica

Ao longo de seu governo, Traoré fez da repressão de dissidentes política de Estado, silenciando a oposição, a imprensa e grupos da sociedade civil. Ele chegou a ser acusado de punir críticos enviando-os para a linha de frente da guerra contra grupos armados islâmicos, como o JNIM (afiliado à Al-Qaeda) e braços locais do Estado Islâmico.

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Apesar disso, o capitão conquistou um grande número de seguidores em todo o continente por sua visão pan-africanista e críticas à influência ocidental. Sob Traoré, Burkina Faso, assim como seus vizinhos Mali e Níger, governados por juntas militares, afastou-se da cooperação com países europeus, especialmente a França, que antes colaboravam no enfrentamento dos grupos terroristas na região.

Os três países recorreram à Rússia em busca de assistência militar, mas a violência continua desenfreada. Na quinta-feira 2, um relatório da ONG Human Rights Watch revelou que mais de 1.800 civis foram mortos em Burkina Faso desde que Traoré assumiu o poder em 2023; dois terços das vítimas estariam conectadas aos militares e milícias aliadas, e o restante aos grupos armados islâmicos.

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