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Briga em casa

Greve geral contra a corrosão dos salários e o acordo com o FMI enfraquece o presidente Mauricio Macri, que é reprovado por 62% da população

Sob a luz dos holofotes internacionais, o presidente argentino Mauricio Macri fez seu espetáculo na semana passada. Na segunda 24, em uma entrevista ao vivo no estúdio da Bloomberg, em Nova York, ele afirmou: “I am ready to run” (“Estou pronto para concorrer”). Foi assim, em inglês, que os argentinos souberam da determinação do atual mandatário de tentar um segundo mandato no ano que vem. Em um jantar no mesmo dia, Macri foi condecorado com o Prêmio de Cidadão Global, do Atlantic Council, um centro de relações exteriores em Washington. Empolgado, dançou no palco com a anfitriã do evento, Adrienne Arsht. “Quando nos dão bola desse jeito, é preciso valorizar”, disse o argentino. Na cerimônia, ele dividiu a mesa com Christine Lagarde, diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI). Sobre o acerto que seria anunciado depois, afirmou: “O novo acordo acabará com as dúvidas sobre a capacidade de financiamento da Argentina no futuro”. Na terça, discursou na ONU.

Sob a mirada da população, a imagem de Macri está mais turva que as águas do Riachuelo, um dos rios mais poluídos do mundo e que passa pelo turístico bairro de La Boca, em Buenos Aires. Desde outubro, a desaprovação ao seu governo subiu de 40% para 62%. As novas negociações com o FMI ampliaram de 50 bilhões para 57 bilhões de dólares o empréstimo, mas só são bem-vistas por uma pequena parcela. “Mais de 55% da população não concorda com o pedido de ajuda ao FMI. Eles acham que é um sinal do desespero do governo, que não sabe administrar”, diz Mariel Fornoni, diretora do centro de pesquisas Management & Fit. “Na opinião pública argentina, historicamente, o FMI é encarado como algo negativo e com preocupação.” Na terça 25, uma greve geral organizada pelas duas maiores centrais sindicais parou todas as cidades do país. Foi a quarta grande paralisação contra Macri. Além de terem aversão ao FMI, os argentinos estão insatisfeitos com a corrosão de salários. No início do ano, o dissídio da maioria dos trabalhadores lhes rendeu cerca de 15%, mas a inflação de 2018 deve chegar perto dos 40%. “A maior parte dos trabalhadores se ressente dos desdobramentos da política econômica”, diz Thomaz Favaro, diretor para a América Latina da Control Risks, em São Paulo. “Macri perdeu o pouco apoio que tinha entre os sindicatos.”

Para piorar a situação, o presidente do Banco Central, Luis Andrés Caputo, renunciou ao cargo. Entre os motivos possíveis para que ele se retirasse do governo estão as desavenças na equipe econômica. Caputo era a favor de usar as reservas internacionais para conter a subida do dólar, algo a que os demais membros do gabinete e do próprio FMI se opõem. Sem Caputo, o ajuste será feito sem empecilhos. Haverá cortes nos gastos sociais e a pobreza deve aumentar, como o presidente já admitiu. A pergunta que fica é se, com tudo isso, Macri ainda teria chance em uma nova corrida eleitoral. Em 2011, a presidente Cristina Kirchner se reelegeu após ter amargado uma aprovação de 18%. Na campanha, foi ajudada eleitoralmente pela morte do marido, Néstor Kirchner. Macri ainda tem 30% de aprovação. “Os argentinos estão pessimistas com o futuro, mas Macri tem chance”, diz Mariel.

Publicado em VEJA de 3 de outubro de 2018, edição nº 2602