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Brasileiros vieram da selva, e argentinos vieram de barco, diz Fernández

Gafe do presidente argentino revela histórica negação às raízes indígenas e mestiças da população, em contrapartida à exaltação às heranças europeias

Por Da Redação Atualizado em 9 jun 2021, 17h13 - Publicado em 9 jun 2021, 17h08

Em encontro em Buenos Aires na manhã desta quarta-feira, 9, com o primeiro-ministro da Espanha, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, afirmou que “os mexicanos vieram os indígenas; os brasileiros, da selva; mas nós, os argentinos, chegamos nos barcos, e eram barcos que vinham da Europa”.

Durante sua polêmica declaração, o presidente argentino ainda cometeu um erro. A frase original, que segundo Fernández teria sido dita pelo escritor mexicano Octavio Paz, Nobel de literatura em 1990, na verdade é uma parte de uma composição do músico Litto Nebbia.

A Paz, na verdade, é atribuída a frase: “Os mexicanos são descendentes de astecas, os peruanos dos incas e os argentinos dos barcos”.

A gafe, que revela uma histórica negação às raízes indígenas e mestiças do povo argentino, em contrapartida à exaltação às heranças europeias, viralizou rapidamente nas redes sociais. O proeminente escritor argentino Jorge Luis Borges, que teve sua fama internacional consolidada na década de 1960 com o boom da literatura latino-americana, chegou a afirmar que “argentinos são europeus nascidos no exterior”.

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Anos depois, em 2018, o ex-presidente Mauricio Macri, afirmou à plateia do Fórum Econômico de Davos que “somos todos descendentes da Europa”.

A declaração também acontece em um momento delicado com o governo brasileiro, em mais uma queda de braço. Enquanto o governo de Jair Bolsonaro defende uma redução drástica da Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul, usada pelo bloco para importar a países de fora, o governo Fernández é contra.

Recentemente, os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso chegaram a publicar um documento conjunto em apoio à Argentina, que se opõe firmemente ao Ministério da Economia do Brasil, que defende corte linear imediato de 10% da tarifa, seguido de outro similar até o fim do ano.

O propósito original do encontro com premiê espanhol, Pedro Sánchez, acabou perdendo destaque para o episódio. Durante viagem a Buenos Aires, Sánchez expressou seu apoio à Argentina nas negociações sobre a colossal dívida da Casa Rosada. Os dois também defenderam a quebra de patentes de vacinas contra a Covid-19, por serem consideradas um “bem público global”.

O apoio também será levado por Sánchez a Fernández em uma reunião na qual o chefe do governo espanhol defenderá um acordo da Argentina com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para refinanciar a sua dívida, que beira os US$ 45 bilhões.

“Claramente a Espanha estará sempre ao lado da Argentina em suas conversas com o Fundo Monetário Internacional e com o Clube de Paris, o apoio é absoluto e total”, reforçou Sánchez no Museu do Bicentenário ao presidir, ao lado de Fernández, um fórum empresarial argentino-espanhol.

O governante espanhol é o primeiro líder estrangeiro a visitar a Argentina no mandato de Fernández, que sucedeu Mauricio Macri na Presidência em dezembro de 2019. Desde então, a pandemia de Covid-19 impediu visitas internacionais.

A Argentina atravessa um de seus piores momentos na pandemia. De acordo com os dados divulgados na terça-feira, o país registrou 31.137 novos casos de covid-19, totalizando 4.008.771 contágios e 82.667 mortes, 722 delas nas últimas 24 horas.

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