Brasil sai ganhando com derrubada do tarifaço de Trump, mas futuro é incerto
Presidente americano agora corre atrás de alternativas para defender um ponto-chave de sua gestão
Com a velocidade e o impacto de um míssil obliterando instalações nucleares, para usar uma imagem de seu agrado, Donald Trump fez de seu primeiro ano de governo um manifesto de imposições imperiais, despachando ordens executivas, arsenais militares e enviados de confiança aos quatro cantos do planeta com o firme propósito de deixar claro que, 250 anos de freios e contrapesos à parte, com ele ninguém pode. Na sexta-feira 20, o exato primeiro aniversário de seu segundo mandato, o até agora irrefreável presidente foi obrigado a pisar no freio: a Suprema Corte deliberou pela extinção do pacotaço de tarifas sobre o comércio internacional anunciado com fanfarra em 2 de abril do ano passado, o “Dia da Libertação”, por não haver base legal para a invocação, pela Casa Branca, de uma lei emergencial de 1977 para justificar a medida — e assim contornar a exclusividade do Congresso para impor taxas. E não foi por pouco: seis dos nove juízes votaram contra o governo.
Enfurecido, Trump qualificou o voto majoritário de “uma desgraça” e “uma vergonha para as famílias” dos responsáveis. Na terça-feira 24, olhando diretamente para os quatro impassíveis magistrados que compareceram ao Congresso para seu discurso sobre o Estado da União, voltou à carga: “Uma decisão muito infeliz”. No discurso de quase duas horas (um recorde), com direito a piadas, alfinetadas e até um rápido bate-boca com deputados da oposição, Trump exaltou os próprios feitos, entre eles uma “economia estrondosa”, com “inflação zero e tremendo crescimento” — supostos efeitos das onipresentes tarifas, instrumento que se tornou arma de intimidação em seu governo. Mas o fato é que a anulação das tarifas de abril ocorre em um momento tenso, talvez o mais tenso até agora, em que se misturam queda de popularidade, desempenho econômico abaixo do esperado e controvérsia sobre a caça em vigor aos imigrantes ilegais — a morte em janeiro, em Minneapolis, de dois cidadãos americanos por agentes da ICE, a polícia migratória, desencadeou protestos no país todo.
Em seguida à decisão da Suprema Corte, o presidente, que tem nas tarifas um ponto crucial de sua plataforma, anunciou uma nova taxa internacional, com efeito imediato, de 10%, que pretende elevar para 15% e que “não precisa de aprovação do Congresso”. Na verdade, precisa — passados 150 dias, sua extensão depende de voto favorável na Câmara. As idas e vindas tarifárias elevaram o risco de retração em investimentos e comércio, com potenciais efeitos sobre a economia americana. “As empresas não sabem o que vai acontecer e provavelmente vão investir menos, contratar menos e adiar expansões”, prevê Mark Zandi, economista da Moody’s Analytics.
Entre todos os países afetados pelo tarifaço de Trump, o Brasil terá a maior redução média de tarifas, de 13 pontos percentuais, seguido pela China (7 pontos) e por países do Sudeste Asiático. Do outro lado da balança, aliados históricos dos Estados Unidos, como Reino Unido, União Europeia e Japão, que negociaram acordos de altos investimentos e benefícios comerciais em troca de taxas menores, serão os mais impactados negativamente. O Brasil, que mais compra do que vende na balança comercial com os Estados Unidos, seu terceiro maior parceiro (veja o gráfico), aparecia no fim do rol trumpista de taxações de abril, com apenas 10%, mas três meses depois o índice subiu para 50%, como forma de pressão contra a “perseguição política” ao aliado Jair Bolsonaro. Aos poucos, os atritos suavizaram (contribuição da “química” observada em um rápido encontro na ONU entre Trump e o presidente Lula), as negociações prosperaram e diversos produtos foram removidos da lista, em parte por insistência de setores da indústria americana dependentes das importações. Mesmo assim, o tarifaço teve impacto direto nas exportações do Brasil para os Estados Unidos, que caíram 7% em 2025, totalizando 37,7 bilhões de dólares.
Desprovida de sua longuíssima lista de países de castigo, a Casa Branca busca leis e decretos alternativos que lhe permitam manter a ameaça de tarifas sobre a cabeça do resto do mundo. No caso do Brasil, segundo especialistas, o principal instrumento seria a Seção 301 da Lei de Comércio, que permite sanções baseadas em investigações de práticas desleais — no caso, entre outros, a venda de mercadorias piratas e de produtos relacionados a desmatamento ilegal, os subsídios ao etanol nacional e até os pagamentos via Pix, qualificado de serviço que o governo favorece em detrimento das operadoras (americanas) de cartões de crédito. Lula e Trump vão testar a famosa química em um encontro em Washington, previsto para março, no qual o governo brasileiro tentará evitar taxas mais altas em troca de acenos a pautas estratégicas, como o acesso americano a reservas de terras-raras.
Mas no cenário atual, em que ainda por cima um ataque ao Irã é tido como iminente, a única certeza é a incerteza. Uma delegação indiana adiou a viagem aos Estados Unidos para avaliar as novas tarifas. A União Europeia fez o mesmo com a votação de um acordo bilateral de comércio, atitude seguida por Malásia e Indonésia. No Japão, que garantiu tarifa-base de 15% em troca de 550 bilhões de dólares em investimentos, autoridades definem a situação como “verdadeira bagunça”. “As incertezas podem levar à protelação, e Trump, impulsivo, é capaz de reagir com alguma nova surpresa”, diz Bruce Stokes, da Chatham House. Complica mais a balbúrdia o fato de que importadores americanos buscarão reembolso das tarifas que pagaram e foram anuladas, uma conta em torno de 350 bilhões de dólares.
No plano interno, a remoção das tarifas pela Suprema Corte e as tentativas da Casa Branca de mantê-las por outros meios serão tema de destaque na campanha, em novembro, pela renovação da Câmara e de parte do Senado — que se prenuncia de faca nos dentes. Ao mesmo tempo que Trump precisa reforçar junto à base que o apoia sua imagem de defensor da indústria americana e da soberania econômica, tem de driblar os ruídos que as críticas às tarifas — aumento do risco de inflação, pressão sobre cadeias produtivas, instabilidade financeira — provocam em alas do Partido Republicano preocupadas com a eleição. Custo de vida é hoje a maior insatisfação dos americanos, e taxas de importação elevadas não ajudam na hora de votar. “É provável que os preços nas lojas se mantenham altos”, alerta Carola Binder, professora de economia na Universidade do Texas.
Praticamente todos os decretos e determinações baixados por Trump em seu primeiro ano de governo estão sendo contestados na Justiça, com resultados variados que, quando contrariam os desígnios do governo, acabam sendo solenemente ignorados. De canetada em canetada, o presidente anulou a atuação dos deputados, que votaram em todo o ano passado 362 vezes, o segundo total mais baixo em 25 anos (o primeiro foi 2020, o ano da pandemia). A decisão sobre o tarifaço tomada pela Suprema Corte (que em ocasiões anteriores apoiou medidas controversas da Casa Branca) restaurou, ao menos momentaneamente, o princípio do equilíbrio entre os três poderes estabelecido pelos fundadores da República americana, um sistema que permite a Executivo, Legislativo e Judiciário limitar e fiscalizar mutuamente suas ações. Tudo o que Trump, do alto de sua empáfia, não gosta e não quer.
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984








