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Brasil envia ajuda a venezuelanos, mas fronteira permanece bloqueada

Doações deveriam ser transportadas por motoristas venezuelanos de Pacaraima para Venezuela, mas forma de acesso permanece incógnita

O avião da Força Aérea Brasileira (FAB) com ajuda humanitária para a Venezuela chegou nesta sexta-feira, 22, por volta das 11h à Boa Vista, Roraima. As doações serão distribuídas em território brasileiro, mas ainda não está claro como os venezuelanos conseguirão acessar o país, já que a fronteira com a cidade de Pacaraima está fechada por ordem de Nicolás Maduro.

A aeronave entregou 23 toneladas de alimentos e 500 kits de primeiros-socorros. Segundo o governo de Jair Bolsonaro, a partir da fronteira, os medicamentos e os alimentos deverão ser transportados por motoristas venezuelanos. O plano é que eles deveriam entrar em território brasileiro para buscar a ajuda.

Na quinta-feira 21, contudo, o governo chavista ordenou o bloqueio da fronteira com o Brasil por período indeterminado. O espaço aéreo entre os países também foi suspenso, por determinação do Instituto Nacional de Aeronáutica Civil.

Autoproclamado presidente da Venezuela – e reconhecido assim pelo Brasil – o líder do parlamento Juan Guaidó emitiu um “decreto” divulgado em redes sociais no qual ordenava a abertura da fronteira com o Brasil. O Exército, porém, seguiu as recomendações de Maduro.

Com o bloqueio, as mercadorias poderão permanecer armazenadas por até três meses do lado brasileiro.

O Brasil já descartou a possibilidade de ação militar contra a Venezuela, além de qualquer intenção de entrar no país sem autorização, apesar da pressão dos Estados Unidos para que o governo de Bolsonaro garanta a segurança no momento da entrega das doações.

Em entrevista à BBC Brasil publicada nesta sexta, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que o Brasil jamais entrará em “situação bélica com a Venezuela”, a não ser que o país seja atacado pelo regime chavista antes. “Mas eu acho que o Maduro não é tão louco a esse ponto, né?”, disse.

Segundo o general, o presidente venezuelano fechou a fronteira para impedir que os venezuelanos entrem no Brasil para buscar a ajuda humanitária. “Ele quer manter o país fechado. Porque não acredito que ele imaginasse que nós entraríamos em força dentro da Venezuela – nós já reiteramos inúmeras vezes que não faríamos isso – para levar suprimentos”, afirmou.

Maduro afirma que as ajudas são um “presente podre” que carrega o “veneno da humilhação”, apesar de reconhecer as dificuldades que a Venezuela atravessa. O chavista também já disse que não permitirá a entrada das doações, pois são uma tentativa de “invasão estrangeira”.

Além, do Brasil, Colômbia e Estados Unidos se mobilizam para enviar ajuda humanitária aos venezuelanos. Canadá e União Europeia (UE) também anunciaram doações em dinheiro, destinadas principalmente aos refugiados do país.

A situação econômica desastrosa da Venezuela é considerado pela ONU a mais maciça da história recente da América Latina. O país possui as maiores reservas de petróleo do mundo, mas está asfixiado por uma profunda crise e pela hiperinflação, além de ser alvo de sanções financeiras dos Estados Unidos.

Fronteira com a Colômbia

A situação na fronteira venezuelana com a Colômbia também é foco de tensão. Os Estados Unidos coordenam com o governo do presidente Iván Duque a entrada de suas doações pela região, mas desde o início de fevereiro a principal passagem entre as duas nações está bloqueada.

O governo de Maduro fechou, no dia 5, a ponte de Tienditas, que liga as cidades de Ureña, na Venezuela, e de Cúcuta, do lado colombiano, onde está um centro de fornecimento de ajuda no país.

Juan Guaidó, contudo, insiste que transformar o sábado, 23, no dia oficial da entrada da ajuda humanitária na Venezuela e da luta contra o chavismo.

Nesta sexta está marcado o show internacional “Ayuda Venezuela” em Cúcuta para motivar a coleta de doações para os venezuelanos. Cerca de 250.000 pessoas são esperadas no evento gratuito, organizado pelo bilionário britânico Richard Branson.

A expectativa é de que sejam arrecadados ao menos 100 milhões de dólares para ajuda alimentar e médica. O show contará com apresentações de Alejandro Sanz, Maluma, Luis Fonsi e Carlos Vives. As doações serão recebidas online e por meio de depósitos diretos.

Desde a madrugada, milhares de pessoas se concentram na ponte internacional Tienditas para a apresentação, prevista para começar às 10h do horário da Colômbia (12h em Brasília).

Maduro, porém, fará shows nos dias 22 e 23 a poucos quilômetros dali, do lado da Venezuela. Em desafio à Colômbia e aos Estados Unidos, também enviou nesta quinta-feira 11 caminhões de alimentos para a população carente de Cúcuta.

O risco de violência nesse divisa é considerado alto. A pressão do governo dos Estados Unidos sobre o regime de Maduro têm aumentado paulatinamente, por meio de sanções e declarações de autoridades.

Caravana da oposição

Já foram registrados conflitos e ataques contra a caravana de deputados venezuelanos da oposição que viajam para a fronteira da Colômbia para acompanhar a distribuição das doações. Entre os parlamentares está Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino da Venezuela.

Segundo denúncias nas redes sociais, os ônibus nos quais os congressistas estão foram alvos de ataques durante a madrugada desta sexta. Imagens mostram vidros quebrados e estilhaços.

“Não vão nos impedir que chegue a ajuda humanitária”, afirmou a deputada Mariela Magallanes em um vídeo postado nas redes sociais. “Não querem deixar entrar ajuda humanitária, então vamos caminhando, atravessando o Túnel de La Cabrera [fronteira com a Colômbia}”, acrescentou a deputada Delza Solozano também em vídeo.

A Assembleia Nacional Constituinte é formada majoritariamente por parlamentares oposicionistas ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Em seus discursos, ele diz que o Parlamento é ilegítimo. Porém, todos os parlamentares foram eleitos.

De acordo com os parlamentares, houve ataques com “objetos contundentes” na região próxima à cidade de Guanare, no Estado Portuguesa. Segundo os deputados, um dos motoristas foi ferido “gravemente”.

No seu perfil no Twitter, Guaidó reiterou o apoio aos parlamentares. “Respaldo total a nossos deputados e voluntários que se dirigem em caravana para Cúcuta, para a entrada da ajuda humanitária. A Venezuela está mobilizada com um propósito nobre e pacífico: salvar vidas. Não há razão alguma para impedir a esperança no país.”

(Com agências nacionais e internacionais)