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Bloomberg entra na campanha como alternativa democrática a Trump

O homem de 64 bilhões de dólares chuta a porta e já chacoalha o ano eleitoral nos Estados Unidos

Por Ernesto Neves - Atualizado em 21 fev 2020, 10h09 - Publicado em 21 fev 2020, 06h00

A guerra do Twitter encampou Michael Bloomberg — e essa é a mais cabal demonstração de que a candidatura à Presidência do ex-prefeito de Nova York, anunciada há apenas três meses e ainda não posta à prova nas primárias, já está chacoalhando o ano eleitoral nos Estados Unidos. Nas últimas semanas, farpas envenenaram postagens entre Bloomberg e Donald Trump e entre Bloomberg e seu maior rival na corrida democrática no momento, o senador Bernie Sanders. Outra demonstração de que o bilionário nova-iorquino não está para brincadeira, menos confiável do que o frenesi nas redes mas ainda assim de grande impacto, se manifestou na mais recente pesquisa de intenções de voto, na qual ele aparece em segundo lugar, com 19% (tinha 4% há dois meses), contra 31% de Sanders.

Na quarta-feira 19, a três dias das primárias em Nevada, Bloomberg subiu ao palco para seu primeiro debate com cinco pré-candidatos sobreviventes das votações anteriores (outros dois ainda na corrida não cumpriram os requisitos para comparecer). Foi desancado sem dó, desde o primeiro minuto, e deixou patente sua falta de jeito para encarar situações não ensaiadas: irritou-se, esquivou-se, deu respostas vagas. Nevada, no entanto, foi um treino para o que vem pela frente. Bloomberg não registrou seu nome no caucus do dia 22 (a motivação para o debate) nem nas primárias da Carolina do Sul, uma semana depois. Todos os 400 milhões de dólares que despejou até agora na campanha mais cara da história dos Estados Unidos — tudo dinheiro dele e só dele, já que não aceita doações — têm o objetivo de coop­tar votos na Super Terça-­Feira, 3 de março, quando vários estados profí­cuos em delegados irão às urnas. Também aproveitou o começo do ano para percorrer o país em comícios cada vez maiores, onde repisa sua plataforma — maior controle de armas, defesa do meio ambiente, apoio ao planejamento familiar, educação particular com recursos públicos e saúde pública de qualidade —, desculpa-se por pecados passados e tenta superar uma tão inconveniente quanto inapelável falta de charme.

No bate e rebate das redes sociais, o grande assunto, devido ao impacto negativo entre as minorias, continua sendo o aberto apoio de Bloomberg ao “pare e reviste”, prática adotada pela polícia de Nova York na sua gestão em que pessoas — negros e latinos, quase sempre — eram abordadas à menor suspeita. O ex-prefeito renegou sua posição e pediu desculpas, arrependido, exatamente uma semana antes de anunciar sua candidatura. “Bloomberg, como qualquer outro, tem o direito de concorrer à Presidência, mas ele não tem o direito de comprar a Presidência. Especialmente depois de ter sido prefeito de Nova York e implantado uma medida racista”, disparou Sanders na segunda-­feira 17, respondendo a uma postagem de Bloomberg logo cedo que comparava os ataques do senador contra ele ao “método de Trump”. “Bernie é parça de Trump”, dizia um post. O lado sanderista também divulgou fotos de 2008 em que os magnatas aparecem batendo papo em um campo de golfe, bem como outras conversas amigáveis entre eles. A dupla frequentou os mesmos círculos da alta sociedade nova-iorquina durante décadas, mas foi se afastando — Trump pendendo cada vez mais para o conservadorismo, Bloomberg abraçando causas liberais.

No bate-tuíte entre os dois, o presidente desencavou um vídeo de 2015 em que o então prefeito justifica o uso do “pare e reviste” em 2,3 milhões de moradores de bairros pobres com o argumento de que “é lá que está o crime”. Por ter telhado de vidro, até agora Trump não mencionou outra derrapada contumaz do adversário: comentários desairosos sobre mulheres atribuídos a ele, como o de que, se elas querem ser admiradas pela inteligência, devem frequentar a biblioteca em vez de a Bloomingdale’s, célebre loja de departamentos de Nova York. “Bloomberg pediu desculpas pelo tratamento dado aos negros e nada falou sobre as frases machistas”, diz Mark Katz, da Universidade George Mason, no Estado de Virgínia. “Mas nesse ponto seu currículo é, no máximo, tão ruim quanto o de Trump”, pondera.

DE RICO PARA RICO - Bloomberg e Trump, em 2008: na alta-roda de Nova York Patrick McMullan/Getty Images

Aos 78 anos, a mesma idade de Sanders e cinco a mais que Trump, Bloom­berg é dono de um império composto de empresas de mídia e serviços financeiros (a agência de notícias econômicas Bloomberg, por sinal, está cortando um dobrado para fazer uma cobertura “imparcial” da campanha). Formado em duas escolas de prestígio, Johns Hopkins e Harvard, é a 12ª pessoa mais rica do mundo, com uma fortuna avaliada em 64 bilhões de dólares, que construiu sozinho. Foi prefeito de Nova York entre 2002 e 2013, eleito pelo Partido Republicano, que abandonou em 2007 para se tornar independente. Na prefeitura, conseguiu reerguer a economia após o baque do atentado de 11 de setembro de 2001 e agora alardeia ao máximo sua competência executiva. Bloomberg está entre os maiores filantropos do mundo, e a farta distribuição de milhões certamente contribui para ampliar sua rede de apoios — em 2019, destinou 3,3 bilhões de dólares às suas causas preferidas, mais do que nos cinco anos anteriores somados. Também é um dos maiores doadores do Partido Democrata, ao qual se filiou em 2018 e onde é visto como arrivista alheio aos princípios partidários (Trump também é visto assim até hoje pelos republicanos).

INIMIGO DA HORA - Sanders, o socialista: à frente nas pesquisas, mas com pouca chance de vencer no final Stephen Lam/Reuters

O sonho de Bloomberg é fincar no eleitorado, em contraponto ao socialista Sanders, a imagem de candidato moderado capaz de derrotar Trump, que era de Joe Biden antes de ele se desgastar nas primárias já realizadas. “Conta a seu favor aparecer como alguém capaz de atrair votos de republicanos e indecisos”, aponta Martin Cohen, professor de ciências políticas da Universidade James Madison. Para tanto, montou uma equipe de 2 500 funcionários bem remunerados, inundou a TV de propaganda de “Mike” (só o comercial no intervalo do Super Bowl custou 10 milhões de dólares) e contratou criadores de memes para inundar a internet de piadas sobre a necessidade de ser “mais cool”.

Trump, que adora apelidos, chama Bloomberg de Mini Mike, por causa da altura (alegado 1,70 metro), e afirma sem provar que ele exigiu uma caixa para parecer mais alto nos debates. “Mini Mike é uma massa de energia morta de 1,60 metro”, escreveu. Ele rebateu: “Nós frequentamos o mesmo ambiente em Nova York. Pelas costas, riem de você e o chamam de palhaço”. Outra tecla em que o ex-prefeito bate, de ricaço para ricaço, é o rumor de que Trump herdou uma fortuna do pai e, em vez de aumentá-la, como apregoa, dilapidou boa parte com maus negócios. Questionado recentemente se a disputa pela Casa Branca entre dois bilionários é boa para o país, fez piada: “Além de mim, quem é o outro?”. A guerra entre os magnatas tuiteiros promete — e, já não há dúvida, a grande novidade do momento, talvez o único capaz de mudar o curso da história, é Michael Bloomberg.

Publicado em VEJA de 26 de fevereiro de 2020, edição nº 2675

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