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Bilionários entram na luta contra a Covid-19 com os olhos nos negócios

Bill Gates, Jack Ma, Domenico Dolce e Michael Bloomberg arriscam somas exorbitantes para `fazer a diferença` e acumular dividendos na fase pós-epidemia

Por Amanda Péchy - 11 abr 2020, 07h00

O diâmetro médio das partículas do coronavírus é de cerca de 120 nanômetros (ou 10-9 m). Apesar de microscópico, sua capacidade destruidora é considerável. Não só já infectou quase 1,5 milhão de pessoas, matando mais de 76.000, mas também abriu crateras na economia mundial e sobrecarrega hospitais em diversos países – e revelando um sistema que depende fortemente de filantropos para preencher as lacunas.

Presidentes, governadores, prefeitos, e funcionários da área da saúde alertam desde o início da crise sobre a escassez de equipamentos e suprimentos médicos. Pesquisadores correm desesperadamente atrás do sonho da vacina que, em um cenário otimista, só ficará pronta daqui um ano. Enquanto mais da metade da população está em algum tipo de isolamento social, a pandemia de coronavírus está expondo deficiências graves nas redes de segurança social globais. Surgem, então – as capas esvoaçando ao vento –, os bilionários.

Magnatas como Bill Gates, criador da empresa Microsoft, Jack Ma, fundador do e-commerce chinês Alibaba, Domenico Dolce e Stefano Gabbana, que dão nome à grife italiana Dolce & Gabbana, estão colocando seu próprio dinheiro, experiência e recursos em risco para aliviar o impacto da pandemia. De acordo com a revista americana de negócios Business Insider, já foram doados para a causa do coronavírus mais de 130,75 milhões de dólares até o dia 30 de março – montante que nem conta com a mais recente contribuição de 10 milhões de dólares da apresentadora de televisão Oprah Winfrey. Só que, em meio a tanta generosidade, é impossível não perguntar: a Covid-19 despertou um sentimento altruísta nesses figurões ou é tudo business as usual?

A Fundação Bill & Melinda Gates, do casal bilionário, já é conhecida por investir na área de saúde. Por exemplo, em 2006 presenteou 16 projetos de pesquisa do mundo inteiro com a bolada de 287 milhões de dólares, para desenvolver uma vacina contra a Aids. De forma semelhante, nesta nova epidemia, os Gates vão direcionar até 60 milhões de dólares para acelerar a descoberta de uma vacina contra o coronavírus.

Além disso, dedicaram mais 20 milhões de dólares para fortalecer sistemas de saúde de países pobres na África e Ásia, e outros 20 milhões para órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDCs) dos Estados Unidos. De acordo com o próprio Bill Gates, não é apenas generosidade, mas um investimento inteligente. Em artigo para o New England Journal of Medicine, o bilionário escreveu: “Ao ajudar os países da África e do sul da Ásia a se prepararem agora, podemos salvar vidas e também desacelerar a circulação global do vírus”.

Alimentando o ditado de que “grandes mentes pensam parecido”, Jack Ma, magnata chinês, também usou parte da fortuna para doar equipamentos médicos para a Itália e vários outros países na África, América Latina e Ásia. Só no continente africano, 54 nações receberam 1,1 milhão de kits de teste, 6 milhões de máscaras e 60.000 roupas de proteção. O homem mais rico da China e 20º no ranking mundial, com patrimônio avaliado em 43,2 bilhões de dólares, também direcionou 14,4 milhões de dólares para ajudar a desenvolver uma vacina para a Covid-19.

Jack Ma, fundador do Grupo Alibaba e o homem mais rico da China: investimento de 14,4 milhões de dólares para acelerar a descoberta de uma vacina contra a Covid-19 – 16/05/2019 Charles Platiau/Reuters

Que bonzinhos, não é mesmo? Mas esses suntuosos atos de filantropia não beneficiam apenas os necessitados – também os filantropos saem por cima. Não é que os Gates ou Jack Ma buscam lucro direto, mas suas imagens são fortalecidas. “Muitas vezes, comportamento pró-social e interesse político se alinham”, diz Chris MacDonald, pesquisador do Instituto de Ética Kenan, na Universidade Duke, nos Estados Unidos. Uma empresa pode ter princípios éticos e ao mesmo tempo saber que uma grande doação em tempos de crise cai muito bem – quem sabe até conquistando o coração de alguns políticos.

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“Nos encontramos no centro de uma emergência com dimensões tão inesperadas que pensar nos outros virou tanto um ato de generosidade quanto de civilização”, disse à VEJA Domenico Dolce, uma das metades da grife italiana D&G. A casa de moda, avaliada em 5,3 bilhões de dólares, fez uma doação (cujo valor não foi revelado) à Universidade Humanitas, em Milão, para acelerar pesquisas sobre a resposta do sistema imunológico à Covid-19. A Itália é um dos países mais atingidos pela pandemia, com quase 140.000 casos confirmados e mais de 17.000 mortes. “Hoje, mais do que nunca, pensamos que a pesquisa científica é um grande investimento”, completa Dolce.

Domenico Dolce (esq.) e Stefano Gabbana: valor não revelado destinado a uma universidade italiana dedicada às Ciências Médicas – 7/10/2018 Domen Van de Velde/Arquivo

É evidente que a Dolce & Gabbana e outros investidores não citaram explicitamente as suas angústias individualistas com a receita de suas empresas como ímpeto para filantropia. Mas não é segredo que estão ansiosos para ver as pessoas saudáveis, fazendo compras novamente – as doações tornam-se quase um ganha-ganha. Maior do que isso, talvez, seja a preocupação em manter a própria conjuntura social que permite a existência de bilionários.

Quando filantropos bilionários se apresentam para “ajudar na luta contra a Covid-19”, eles têm muito em jogo. “Os mega empresários são os principais beneficiários da globalização, e não se importam em gastar uma pequena parcela de sua fortuna para mantê-la”, afirma Charles Harvey, diretor do Centro de Pesquisa em Empreendedorismo, Riqueza e Filantropia da Universidade de Newcastle, na Inglaterra. Ou seja, nossos ricaços podem estar perfeitamente bem motivados em querer “fazer a diferença”, mas também estão trabalhando para fortalecer o sistema global que lhes permitiu ficar tão ricos.

O próprio Bill Gates ressaltou no New England Journal of Medicine que bilhões de dólares em esforços contra o coronavírus é muito dinheiro, mas “dada a dor econômica que uma epidemia pode impor – basta olhar para o modo como a Covid-19 está atrapalhando as cadeias de suprimentos e os mercados de ações, sem mencionar a vida das pessoas – será uma pechincha.”

De acordo com especialistas, a cura final em formato de vacina depende da capacidade e experiência do setor privado para conduzir ensaios clínicos e fabricar milhões de doses. Aos governos caberá comprar o produto das farmacêuticas e torná-la acessível à população, já que para a vacina contra a pandemia ser eficaz, precisa estar disponível globalmente. “Os filantropos não obtêm direitos legais sobre as vacinas nas quais investiram, mas podem exigir que sejam disponibilizadas a baixo custo, o que seria importante nesta situação”, diz Lisa Larrimore, professora de direito na Universidade de Stanford. Novamente, os ricaços salvando o dia.

Durante uma entrevista com Michael Bloomberg em fevereiro, um passado distante quando ele ainda era candidato à presidência e o coronavírus, uma misteriosa gripe chinesa, o jornalista americano Chuck Todd perguntou ao magnata da Comunicação: “Será que você deveria existir?” Agora, um mês e meio depois do questionamento, nos voltamos para nossos bilionários para auxílio no meio da crise.

O próprio Bloomberg lançou uma iniciativa para retardar a disseminação da Covid-19 em países de baixa e média renda, em parceria com a OMS. O custo, 40 milhões de dólares – apenas alguns trocados para quem já tinha investido 500 milhões no naufrágio da campanha presidencial. Aqui em terras tupiniquins, alguns já seguiram a deixa: Xuxa, a rainha dos baixinhos, doou 1 milhão de reais ao Sistema Único de Saúde (SUS), e o apresentador de televisão Luciano Huck destinou 1,5 milhão de reais para combater a doença em comunidades e favelas. A generosidade, neste caso, é business as usual.

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