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Bento XVI testemunhou o calvário de seu antecessor. E tomou o caminho oposto

Principal interlocutor de João Paulo II no fim de seu pontificado, o então cardeal Ratzinger viu de perto como o polonês transformou seu sofrimento numa manifestação de fé. O alemão, porém, rompeu com a tradição da qual era considerado o mais feroz protetor

Por Da Redação 11 fev 2013, 12h53

Aclamado pelos fiéis na cerimônia fúnebre vista por mais pessoas na história, João Paulo II consolidou entre os fiéis a noção de que, apesar de permitida pelos códigos do Vaticano, a renúncia não era uma hipótese aceitável na prática, por significar o fim prematuro de uma missão divina confiada ao sumo pontífice

Nos últimos dois anos, as aparições públicas do papa Bento XVI passaram a despertar as lembranças da reta final do pontificado de seu antecessor, João Paulo II – e não por causa da forte ligação pessoal entre os dois. Assim como o pontífice polonês, o alemão, que mostrava boa condição de saúde na primeira metade de seu papado, passou a ser incapaz de ocultar seu sofrimento. Os sinais claros de que a idade pesava sobre seus ombros – a voz frágil, os movimentos lentos, o olhar com aspecto vitrificado, a necessidade de auxílio para se movimentar – já despertavam as mesmas preocupações que cercaram João Paulo II no crepúsculo da vida. Os especialistas começavam a listar possíveis sucessores. Os organizadores da Jornada Mundial da Juventude, no Rio, em julho deste ano, preparavam-se para lidar com a provável ausência do pontífice. Ainda assim, o início repentino da sucessão papal chocou a todos – afinal, ninguém pensava na possibilidade de renúncia. O anúncio feito nesta segunda-feira por Bento XVI é surpreendente não apenas pelo histórico da Igreja Católica (o último a deixar o Trono de Pedro por vontade própria foi Gregório XII, em 1415) mas também pelo forte contraste em relação ao desfecho escolhido pelo alemão, que acompanhou de perto o antecessor em seu calvário público – e testemunhou, também, a prova de fé do polonês ao suportar o sofrimento por acreditar que só a morte deveria interromper sua missão como papa.

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Aclamado pelos fiéis na cerimônia fúnebre vista por mais pessoas na história, João Paulo II consolidou entre os fiéis a noção de que, apesar de permitida pelos códigos do Vaticano, a renúncia não era uma hipótese aceitável na prática, por significar o fim prematuro de uma missão divina confiada ao sumo pontífice, o escolhido de Deus – através dos votos do colégio de cardeais – para comandar a Igreja. A decisão de Bento XVI de interromper voluntariamente seu pontificado chocou os fiéis justamente por isso: poucas pessoas no mundo conhecem mais sobre a história do papado do que o alemão e talvez ninguém no planeta tenha acompanhado mais de perto o exemplo de João Paulo II. Sua renúncia, portanto, nunca foi seriamente cogitada por ninguém que não o próprio papa. O que, afinal, convenceu Bento XVI a tomar essa decisão tão inesperada? Por enquanto, seu pronunciamento oficial – que diz apenas que ele “não tinha mais forças para exercer adequadamente o ministério petrino” – é insuficiente para que se saiba mais a respeito de sua real condição. O Vaticano não fala sobre nenhuma doença específica. Sobre pelo menos uma coisa não há dúvidas, pelo menos até agora: Bento XVI está plenamente consciente e convicto de sua decisão, por mais que ela contrarie tudo o que se esperava dele. “No mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito”, escreveu o papa. “Tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado.” Se João Paulo II foi apelidado de “o papa das surpresas”, Bento XVI era visto como o pontífice do continuísmo, da transição sem sobressaltos. Em seu último lance, rompeu com a tradição – e acabou surpreendendo mais até que o antecessor.

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