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Autópsia inconclusiva reforça hipótese do assassinato de Nisman, diz Lanata

Em congresso de jornalismo em São Paulo, jornalista argentino falou sobre a investigação da morte do procurador que denunciou complô envolvendo governo Kirchner para encobrir a participação do Irã em atentado de 1994 a centro judaico em Buenos Aires

Por Julia Braun Atualizado em 30 jul 2020, 21h30 - Publicado em 3 jul 2015, 21h21

Jorge Lanata, jornalista argentino conhecido por seu discurso crítico ao governo Kirchner e por denunciar diversos escândalos de corrupção em seu país, veio a São Paulo para participar do 10° Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, organizado pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Na tarde desta sexta-feira, em um painel sobre o caso Nisman e o jornalismo investigativo argentino, Lanata voltou a criticar a condução da investigação da morte do procurador Alberto Nisman e a forma como o governo de Cristina Kirchner lidou com a repercussão do caso.

Ao decorrer da palestra, Lanata falou sobre o jornalismo na Argentina e a dificuldade de trabalhar em um país onde os jornalistas são vistos como rivais. “O governo kirchnerista tem uma convicção filosófica que nós, jornalistas, somos os inimigos”. Ele argumentou que os meios de comunicação livres da argentina dialogam com o povo e atraem sua atenção, enquanto a imprensa estatal tem audiência baixíssima. “Quando o governo fala por cadeia nacional é uma comunicação fascista, autoritária”, diz, em alusão aos horários reservados para os pronunciamentos oficiais da presidente Cristina Kirchner.

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Ao tratar da investigação de Alberto Nisman, confessou que possuía muitas diferenças pessoais com o procurador, pois sempre acreditou que não existiam provas suficientes de que o atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia) em Buenos Aires, em 1994, teve participação do Irã. A denúncia apresentada por Nisman no dia 14 de janeiro afirmava que a presidente Cristina Kirchner, o chanceler Héctor Timerman e vários apoiadores do governo haviam atuado para encobrir a ação iraniana no ataque terrorista, que deixou 85 mortos. Recentemente, a Justiça argentina arquivou a denúncia de Nisman contra a presidente por “inexistência de crime”.

Segundo Lanata relatou, parte da investigação comandada pelo procurador teria se baseado em imagens gravadas antes do atentado, que mostravam o carro-bomba que causou a explosão. A suposição de que o motorista era iraniano teria partido de suas “feições árabes”. Lanata afirma que teve acesso às tais gravações, e que em momento nenhum era possível ver o rosto do motorista.

Em março, contudo, reportagem de VEJA revelou que três ex-integrantes da cúpula de Hugo Chávez confirmam a conspiração denunciada por Nisman. De acordo com eles, hoje exilados nos Estados Unidos, o Irã mandou dinheiro por intermédio da Venezuela para a campanha de Cristina Kirchner em troca de segredos nucleares e impunidade no caso Amia.

“Porque acho que o mataram? Até hoje não existe um resultado conclusivo sobre a autópsia”, respondeu o jornalista sobre a possibilidade, ainda não descartada, de que Nisman foi assassinado. Ele expôs mais uma vez os erros cometidos pela perícia no apartamento do promotor [onde Nisman foi encontrato morto], revelados em seu programa televiso, Periodismo para Todos. Lanata chegou inclusive a brincar sobre a forma como os peritos contaminaram a cena do crime e registraram tudo nos vídeos oficiais divulgados. “O apartamento era Tóquio às 14 horas da tarde com tantas pessoas andando ali dentro”, disse o jornalista, em uma alusão ao cruzamento mais movimentado do mundo, em Shibuya, bairro da capital japonesa,

Além do Periodismo para Todos, programa de jornalismo investigativo, atualidades e entrevistas, Jorge Lanata também comando o programa DDT, que aborda notícias atuais argentinas, e escreve para sua coluna no jornal Clarín.

(Da redação)

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