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Ativistas pró-democracia se declaram culpados e são detidos em Hong Kong

Joshua Wong, Ivan Lam e Agnes Chow foram colocados em prisão preventiva e aguardam decisão judicial por acusações de vandalismo e organização de ato ilegal

Por Da Redação 23 nov 2020, 13h02

O ativista Joshua Wong, um dos principais nomes do movimento pró-democracia de Hong Kong, e outros dois militantes foram detidos nesta segunda-feira, 23, depois que se declararam culpados por papeis nas manifestações de 2019.

Desde o ano passado, a ex-colônia britânica vive a pior crise política desde a devolução a Pequim em 1997, com protestos quase diários para criticar a influência da China na região semiautônoma.

Apesar da dimensão do movimento de protesto, que incluiu atos com mais de um milhão de pessoas, o Executivo de Hong Kong, alinhado com Pequim, não fez nenhuma concessão importante aos ativistas. Além disso as autoridades responderam com uma repressão vigorosa.

Joshua Wong, de 24 anos, é processado ao lado de outros dois famosos dissidentes, Ivan Lam, 26, e Agnes Chow, 23, por uma manifestação organizada diante da sede da polícia de Hong Kong em 21 de junho de 2019, 10 dias após o início do movimento de protesto.

“Continuaremos lutando pela liberdade, e agora não é momento de nos prostrarmos diante de Pequim nos rendermos”, completou Wong, que no verão de 2014 se tornou o rosto visível do “Movimento dos Guarda-Chuvas”.

“Não nos arrependemos”, afirmou Ivan Lam.

Atirando ovos e usando grafites e tintas, os manifestantes vandalizaram a sede da polícia e várias delegacias para exigir uma investigação independente da suposta violência cometida pelas forças de segurança.

Wong se declarou culpado de incitar e organizar uma reunião ilegal; Lam se declarou culpado de incitação e Agnes Chow se declarou culpada  de incitar e participar no protesto.

Os três ativistas foram colocados em prisão preventiva à espera do anúncio da decisão do tribunal em 2 de dezembro. Isto significa que é quase certo que receberão uma sentença de prisão. O tribunal ao qual se recorre não pode impor penas superiores a três anos de prisão.

Mais cedo neste mês, toda a bancada de deputados pró-democracia de Hong Kong anunciou que iria renunciar aos cargos após a expulsão de quatro companheiros do Parlamento. As autoridades locais receberam do governo da China o poder de cassar os mandatos de políticos que consideram uma ameaça para a segurança nacional.

“Nós, o campo pró-democracia, apoiamos nossos companheiros que foram desqualificados. Nós vamos renunciar em bloco”, disse Wu Chi-wai, representante dos 15 deputados pró-democracia do Parlamento local. Na quarta-feira 11, o governo de Hong Kong afirmou que os quatro legisladores expulsos “perderão de maneira imediata o título de deputado”.

O Conselho Legislativo (LegCo, o Parlamento local), que vota as leis em Hong Kong, tem 70 membros, nomeados com base em um sistema complexo que garante quase automaticamente a maioria ao bloco favorável a Pequim. Apenas 35 deputados são eleitos por votação direta e os demais são indicados por grupos favoráveis à China.

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A chefe de Governo de Hong Kong, Carrie Lam, afirmou que as expulsões dos deputados são “constitucionais, legais, razoáveis e necessárias”.

Os quatro deputados integravam as 12 candidaturas às legislativas de Hong Kong que foram invalidadas no fim de julho. Estas eleições, que aconteceriam em 6 de setembro, foram adiadas por um ano, devido à pandemia de coronavírus.

Os partidários pró-democracia de Hong Kong são alvos de ataques permanentes desde que a China aprovou, no fim de junho, uma lei draconiana de segurança nacional em resposta às grandes manifestações do ano passado.

Esta lei é definida pelos líderes chineses como uma “espada” suspensa sobre a cabeça de seus detratores. A norma almejava acabar com as grandes manifestações no território e reforçar o poder de Pequim sobre Hong Kong. Entre as punições previstas figura a detenção por mensagens publicadas nas redes sociais.

De acordo com os críticos, a lei representa um golpe fatal ao princípio de “um país, dois sistemas”, que garantia até 2047 uma série de liberdades inéditas na China continental Por este motivo, alguns ativistas decidiram partir para o exterior.

Desde o início das manifestações, mais de 10.000 pessoas foram detidas e nos tribunais se acumulam acusações contra deputados da oposição e figuras importantes do movimento pró-democracia.

Histórico longo

Apesar da pouca idade, Wong já foi preso e é um veterano da luta política. Para Agnes Chow esta é a primeira vez. “Embora afirme que me preparei mentalmente, ainda estou um pouco assustada”, escreveu no Facebook no domingo.

Com 13 anos, Joshua Wong participou em um movimento de protesto contra um serviço de alta velocidade para ligar Hong Kong à China continental. Em 2011, participou na fundação do Scholarism, um grupo estudantil que protestou contra – e venceu – a introdução de aulas de patriotismo chinês. Com 15 anos, ele chegou a fazer uma greve de fome diante da sede do governo local. Lam e Chow também estavam envolvidos neste movimento.

Mas foi o envolvimento de Wong no “Movimento dos Guarda-Chuvas” que rendeu sua fama em 2014. Manifestantes ocuparam o centro de Hong Kong durante 79 dias para exigir que a China deixe de interferir nas questões de Hong Kong, um território que supostamente deveria ter autonomia até 2047.

Mas seis anos depois do movimento, os temores dos ativistas foram concretizados com a lei de Segurança Nacional que Pequim impôs em Hong Kong em 30 de junho, com as ondas de detenções, as restrições às liberdades e o exílio de parte da população.

Wong está agora no centro de vários processos judiciais. Em 2019 apresentou sua candidatura para as eleições locais, assim como para as próximas legislativas, mas seu pedido não foi validado.

Além de seu envolvimento no movimento de 2019, ele está sendo processado por participação, em junho, na tradicional vigília anual de recordação da repressão de Tiananmen (Praça da Paz Celestial) de 1989, evento que foi proibido pela primeira vez, oficialmente devido ao novo coronavírus.

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