Ataques ucranianos fazem apoio dos russos à guerra cair ao menor nível já registrado
Pesquisa independente mostra declínio tanto na percepção de sucesso da ofensiva como na aprovação de Putin, em meio ao avanço dos drones de Kiev
O apoio dos russos à guerra na Ucrânia caiu ao menor nível desde o início da invasão em 2022, segundo levantamento divulgado nesta semana pelo Centro Levada, principal instituto independente de pesquisas de opinião da Rússia. Em julho, 66% dos entrevistados disseram aprovar as ações das Forças Armadas do país — uma queda de oito pontos percentuais em relação a maio e de 12 pontos na comparação com o mesmo período do ano passado.
Embora ainda represente uma maioria expressiva, o declínio na percepção de sucesso da ofensiva de Moscou ocorre em meio à intensificação dos ataques ucranianos contra refinarias, depósitos, instalações militares e outros alvos estratégicos nos rincões da Rússia. Em diferentes regiões, drones de longo alcance passaram a atingir estruturas cada vez mais distantes da fronteira, provocando incêndios, interrupções no abastecimento de combustível e outros impactos sobre a população.
A pesquisa ouviu presencialmente 1.612 pessoas em 137 cidades russas entre 21 e 28 de julho. A margem de erro é de 3,4 pontos percentuais. O levantamento anterior havia registrado 74% de apoio às operações militares, enquanto o índice chegou a 80% em três ocasiões: em março de 2022, logo após o início da invasão, e em fevereiro e março de 2025.
Percepção sobre o desempenho no conflito
A deterioração da percepção sobre o conflito ocorre depois que a Ucrânia ampliou sua capacidade de realizar ataques de longo alcance contra alvos no território russo. O governo de Volodymyr Zelensky passou a defender abertamente a estratégia de levar os efeitos da guerra para dentro da Rússia, atingindo infraestrutura usada para sustentar a máquina militar e as receitas energéticas de Moscou.
Apenas metade dos entrevistados considera que a guerra está sendo bem-sucedida para Moscou — 8% classificam o resultado como “muito bem-sucedido” e 42% como “um tanto bem-sucedido”. É o menor nível registrado desde o início da série histórica sobre o tema.
O resultado representa uma queda de 19 pontos percentuais em um ano. Em contrapartida, 28% dos russos afirmaram que a guerra não está indo bem, 11 pontos a mais do que no mesmo período de 2025. O índice negativo só havia sido maior em novembro de 2022, quando chegou a 32%, em meio à mobilização militar ordenada pelo Kremlin.
Impacto dos ataques ucranianos
Os efeitos da guerra sobre o cotidiano passaram a ocupar mais espaço entre as preocupações da população. Em julho, 17% dos entrevistados citaram diretamente os ataques como um dos principais problemas enfrentados pelo país. A crise de abastecimento de combustível apareceu logo atrás, mencionada por 13%.
A escassez foi particularmente sentida em regiões afetadas pelos ataques contra refinarias e instalações de armazenamento. Em Moscou, por exemplo, postos de gasolina chegaram a registrar filas e restrições de venda. Após uma forte alta dos preços em junho, medidas adotadas pelo governo ajudaram a estabilizar o valor da gasolina, mas o problema continuou entre as principais queixas dos russos.
Outros impactos relacionados à guerra também apareceram na pesquisa. Os ataques contra instalações da Wildberries, gigante do comércio eletrônico considerada uma espécie de “Amazon russa”, foram citados por 10% dos entrevistados. A própria guerra apareceu como principal preocupação para 7%.
Putin perde apoio
A queda na percepção sobre a guerra também atingiu a popularidade de Vladimir Putin. A aprovação do presidente russo ficou em 74% pelo segundo mês consecutivo, o menor índice desde o início da invasão em grande escala. Há um ano, o número era de 86%, segundo os dados citados pela agência de notícias Bloomberg.
Apesar da queda, a aprovação continua elevada e não representa, por enquanto, uma ameaça ao controle político exercido pelo Kremlin. O governo russo mantém forte controle sobre a imprensa e sobre o ambiente político doméstico, além de restringir manifestações contrárias à guerra.







